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março 14, 2007

Eles podem

E lá vem Hélio Costa, dono daquele do vozeirão que, para a minha geração, era a marca registrada do Fantástico, anunciando sua "Rede Nacional de TV Pública do Executivo".

Não menos vigorosas são também as vozes que se erguem contra o projeto de Costa. Embora as grandes redes comerciais ainda não tenham se pronunciado, a ABEPEC - Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais - acusa o desejo de aparelhamento do Estado revelado pela iniciativa. Também as associações de canais universitários, comunitários e legislativos apareceram para apontar a confusão que a proposta faz, já no nome, entre o estatal e o público - termos auto-excludentes, pois os interesses de uma esfera não são, necessariamente, os de outra.

Há, também, os que consideram apenas a gravidade financeira da questão: a criação de um novo sumidouro de verbas públicas, inútil sob todos os aspectos. A proposta é ruim, dizem eles, porque, no final das contas, a exemplo do que ocorre com os canais já existentes, não conseguirá produzir uma programação capaz de competir com as redes privadas. Pela mesma razão, observam, ela é inofensiva no que respeita à tentativa de aparelhamento.

É desta última posição que quero discordar.

Não há duvidas de que, até hoje, televisões estatais e públicas foram incapazes de conquistar uma audiência que se aproxime daquela verificada nas redes comerciais. Ocorre, porém, que há razões para isso. A começar pela abrangência de sinal. Até hoje, exceto pela TVE, as demais televisões públicas ou comunitárias têm uma área de abrangência muito limitada. Neste quesito, a proposta de Hélio Costa é clara: uma rede nacional.

É na área das competências, porém, que a coisa se torna mais possível: o ministro quer uma Rede Nacional (Pública) do Executivo. Qual Executivo?, é a pergunta que se deve fazer.

Para início de conversa, um Executivo que está no poder há quatro anos, reelegeu-se para mais quatro e não tem uma oposição capaz de interromper-lhe a continuidade em 2010. Ou seja: um Executivo que se manterá pelo menos 12 anos no poder - mas que tabalha com afinco, todos sabemos, para quebrar aquele record de 50 anos do PRI mexicano. Se é verdade, pois, que a implantação uma rede de televisão vitoriosa demanda tempo, também é verdade que este é um artigo que o Executivo em questão tem de sobra.

Contudo, é o segundo quesito, o da competência, que mais salta aos olhos - e que me faz rir da inocência dos que se apressam em pregar, antecipadamente, o fracasso do projeto em termos de audiência, como se este Executivo já não tivesse dado provas substanciais de sua superioridade em termos de comunicação...

Não? Então vejamos.

Um observador mediano terá de admitir que um dos maiores trunfos do governo Lula foi a ampliação dos atendimentos da rede de proteção social. Se ele for sério, observará também que pouco ou nada de novo foi criado. Rebatizados e reacomodados, os programas socias passaram a ser anunciados com mais competência. Assim, o que estava disponível às populações de baixa renda já com Fernando Henrique Cardoso passou, simplesmente, a ser melhor anunciado no governo Lula. Por óbvio, a adesão aos programas foi maior - e os investimentos nesta área, necessariamente, ampliados. Dispensável discorrer, aqui, sobre o papel determinante desta estratégia no processo reeleição.

Indispensável, de fato, é reconhecer que este Executivo foi capaz de passar incólume pelo maior encândalo de corrupção já visto no país. Quando, no inicio de 2006, as pesquisas sobre a popularidade presidencial começaram a retornar aos velhos índices de aprovação, ficou claro que a capacidade de investigação e denúncia da imprensa - e estamos falando da grande imprensa - era absolutamente inútil. Lá, onde o voto realmente tem volume, o Executivo dava show de comunicação, num fenômeno que entra para a história como "teflon": nada grudava em Lula.

Só em Lula? Ledo engano. Embora não reste dúvidas de que o carisma presidencial pesou muito, é inegável que, em termos de comunicação, este Executivo foi mais do que competente para espraiar entre seus aliados esta blindagem. A prova é que tanto o partido do governo quanto aqueles que compõem sua base de apoio conseguiram eleger ou reeleger boa parte de seus membros envolvidos em escândalos. No final das contas, não se safaram apenas aqueles que arranharam uma conduta moral de ordem mais subjetiva - Ângela Guadagnin e Professor Luizinho são os casos mais evidentes. Sobre estes pesava uma outra ordem de rejeição - seara na qual a estratégia do governo, se formos pensar bem, nem fez questão de entrar. No quesito corrupção, contudo, a comunicação deste Executivo foi suficientemente boa para peitar a grande imprensa e garantir mais quatro anos de poder.

Diante deste quadro é realmente espantoso que alguns ainda se aventurem a menosprezar a hipótese de que este Executivo crie uma rede estatal de televisão capaz de conquistar fatias consideráveis de audiência. Se o projeto passar, não tenham dúvidas de que eles o farão com competência. E sua base de ação será aquela que, primeiramente implantada por Lula, vem sendo metodicamente extendida àqueles que o apoiam: a comunicação direta entre o Executivo e o povo, sem intermediários, como quer a célebre receita do populismo.

Não, não haverá um programa dominical no qual Lula, a exemplo de Chávez, passe oito horas falando diretamente à população. Teremos uma versão personalizada da coisa, mais sutil e insidiosa - e, por isso mesmo, muito mais competente. Esta competência é construída de inúmeras sutiliezas. Mas isto é assunto para outro post.

Posted by Nariz Gelado at março 14, 2007 10:35 AM

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