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março 05, 2007
A China que eu descobri
Neste final de semana, depois de muito marca e desmarca, recebi a visita de um amigo de longa data - boa e inesperada surpresa, que explica por qual motivo o blog permaneceu abandonado.
Executivo de reconhecido talento na área de moda, meu amigo é um capitalista na melhor e mais ampla acepção do termo. Cidadão do mundo até a medula, ele pode ser recebido aos beijos tanto por um chef em Milão quanto pela gerente da melhor floricultura de Paris. Estando em New York, ligue para os amigos dele e você descobrirá uma legião de simpáticos newyorkers que, cooptados no passado por aquele brasileiro de papo franco e modos elegantes, têm uma ótima imagem do nosso país.
Pois toda esta simpatia está, agora, se espalhando pela China - onde meu amigo tem passado metade de seu tempo desde o ano passado. E foi de lá que ele me trouxe chá de jasmin e novidades - algumas capazes de enterrar a imagem que eu recebera de outros amigos que, na última década, também para lá se encaminharam a trabalho.
Não se enganem, porém, com a descrição sofisticada que vai no segundo parágrafo. Apesar de conhecedor das melhores coisas da vida, meu amigo é pessoa de origem humilde e que, por força da profissão, mantém contato, em qualquer lugar do mundo em que esteja trabalhando, com aquela classe à qual já pertenceu: o operariado.
Como vocês já podem imaginar, eu tinha muitas perguntas.
Não, eu não queria saber sobre a queda da bolsa na semana passada. Queria, antes de mais nada, sua opinião sobre a decantada exploração da classe trabalhadora, a ditadura e o papel do Estado.
"É uma média de dez anos neste ritmo", respondeu ele, quando perguntei sobre as condições de trabalho da classe operária. E explicou: "antes de completar o segundo grau, ninguém pode trabalhar. Então, eles chegam às fábricas aos 17 ou 18 anos. Trabalham seis dias por semana, com direito a apenas três feriados prolongados durante o ano. Recebem um salário médio de 100 dólares por mês, mais casa e comida. Alguns juntam o dinheiro e voltam, depois, para sua terra natal. Muitos juntam dinheiro para, passado estes dez anos, buscar novos rumos - estudar, abandonar o país, abrir um negócio. Uma minoria torra o salário em novos modelos de celular, Pizza Hut ou MacDonalds - essa é a que, de fato, não conseguirá escapar ao sistema". E emendou: "outro dia, vi a saída de uma escola numa periferia brasileira e pensei: o que vai acontecer com esta meninada? Não terão emprego. Quando vemos isso, é impossível achar que há algo de errado com a China. Há algo de errado - e muito - é com o Brasil".
E o ocidente? Diz ele que eles amam o ocidente e querem se ocidentalizar. "A roupa, por exemplo. O uniforme básico das fábricas é jeans e camiseta pólo - apenas a cor da camiseta difere de uma fábrica para outra. Mas as moças usam a polo babylook e jeans de cintura baixa... Todos os seu hábitos estão se ocidentalizando. O capitalismo é uma força irresistível."
Perguntei a respeito deste verdadeiro fenômeno que é predomínio de mão-de-obra feminina na indústria. Ele confirmou: seguramente, 70 a 80% das operárias são mulheres - inclusive na construção civil. Reforçou, também, aquele diagnóstico já conhecido: as mulheres são desprezadas nas áreas rurais - daí seu êxodo para os grandes centros industrializados. Mas, por mais de uma vez, lamentou que "as bonitas são cooptadas para a prostituição. A protituição é crime, mas eles não conseguem conter a coisa".
Com esta observação, pois, chegamos ao Estado. Quão ostensiva é a sua presença? Como ela é sentida lá, no chão da fábrica? "Na maior parte do tempo, não é", foi sua resposta enfática. "Do ponto de vista empresarial, o Estado interfere pouco, muito pouco". Hoje, na ótica do meu amigo - agora já quase um entrevistado - o que interessa ao Estado Chinês é o crescimento econômico, é garantir empregos para aquele imenso contingente populacional. Na outra ponta, o operário, o interesse é ter emprego. O restante parece ser mais "penduricalho".
"Mas e a liberdade? A internet é censurada" - quis argumentar, já um pouco incomodada com aquela visão tão positiva da China. "É, mas eles não se importam. Eu acho que esta discussão predomina em camadas intelectualmente mais ativas, como entre os universitários - com as quais eu não convivo. Não me parece ser uma preocupação operária." E dá-lhe exemplo: "Outro dia, estouraram uma rede de prostituição. Os infratores foram obrigados a desfilar pela cidade, sendo humilhados e chicoteados. O povo assistiu. Depois retomou suas atividades como se nada tivesse acontecido. É como se o Estado fosse algo a parte, descolado da realidade." Eu observei que, na verdade, felizes ou não, os chineses não podem expressar contrariedade em relação ao Estado. Meu amigo balançou o queixo concordando mas avisou: " Se este medo existe, não transparece no convívio diário. Parece mais é um distanciamento ." E, às vésperas do Congresso Nacional do Povo - que começa hoje, em Pequim - emendou:
- "Na verdade, a maioria do povo chinês não está nem aí para política".
- "Como aqui", fui obrigada a reconhecer.
- "Sim... Mas aqui é porque a classe política perdeu a credibilidade..."
- "E lá?" - eu quis saber
- " Lá? Não sei... Mas parece que o Estado não está incomodando ninguém..Ou está incomodando a poucos".
- "A China vai mesmo ser a grande potência do futuro ?" - provoquei.
- " Talvez. Tem tudo para ser"
- "E o Brasil?"
- " O Brasil acabou."
Posted by Nariz Gelado at março 5, 2007 11:06 AM
Comments
Meus caros,
Alguns pequenos comentários:
1- A China ainda é um país muito pobre. Seu PIB per capita é muito pequeno. Depois de décadas de barbárie total (relacionadas ao planejamento central maoista) que deixou o país em colapso, um pequeno soprode liberdade fez com que ele crescesse nestas taxas espantosas. Nada garante, entretanto, que o país, quando chegar por exemplo no mesmo nível de PIB per capita brasileiro, não se estagne (lembrem-se o Brasil sofreu processo muito parecido).
2- Os graves problemas que a China têm não permitem tal otimismo. Eles têm sérios problemas regionais, sérios problemas regulatórios (ninguém sabe a saúde financeira de seus bancos, por exemplo) e sérios problemas institucionais (relativos a direitos de propriedade). São muito pragmáticos em relação a isto, mas o poder de decisão na mão de poucas pessoas assusta (a ausência do famoso "check and balances").
3- Por fim, na próxima vez, pergunte ao seu amigo se este investiria todo o seu capital na China em posições com pouca liquidez. Com certeza, ele não faria isto. Como eu já disse, espera-se que a China ainda cresça muito (seu PIB per capita é muito baixo), mas as tensões políticas e econômicas provenientes deste processo vão explodir (exatam,ente por não serem uma sociedade aberta capaz de resolver satisfatoriamente estas). Os investidores aproveitam esta oportunidade, mas sairão no momento que anteverem que o país está prestes a explodir.
4- Por fim (mesmo), o Brasil acabou mesmo. Não devido ao crescimento da China (aula prática de economia, supondo que eles produzam mais barato tudo, o ajuste se dá no câmbio. Sabemos isto deste Ricardo, o que conta são vantagens comparativas, não absolutas), mas sim devido a nossa própria incapacidade de fazer daqui um país decente. Apesar do setor público comer 40% de tudo que produzimos, não temos educação, saúde, estradas, etc. Isto explica porque não crescemos. Em linguagem técnica, as atividades de "rent-seeking", crescentes ao longo do tempo, chegaram em tal ponto que nós é impossível crescer. E aí falo duas coisas. Sou muito pessimista que consigámos resolver isto em prazo curto (menos que algumas décadas). Este processo vêm do poder discricionário do governo. Por que tal também não ocorreria na China?
Saudações.
Posted by: claudio at março 7, 2007 02:46 PM
A China ainda tem um grave problema.A super população.Por mais que cresça, não conseguirá dar melhores condições a todos.As desigualdades deverão aumentar pois queira o governo chinês ou não, está sendo criada uma sociedade de privilegiados e com mentalidade capitalista.A médio prazo isto contribuirá para aumentar a pressão social.Quanto ao fato do Brasil ter acabado, discordo de seu amigo.Afinal, o fato de 40 milhões de pessoas terem votado contra o Lula é significativo.O que falta é botar o bloco na rua.
Posted by: Tunico at março 6, 2007 08:59 AM
O que posso dizer da China (estive lá em 2003) é que eles vão fabricar tudo o que fabricamos melhor (+ qualidade, + produtividade) e mais barato, inclusive avião (só vai levar mais tempo). Por isso, o Brasil acabou, estamos dormindo no ponto.
Posted by: Victor at março 5, 2007 10:58 PM
O Saboya está certo. Comunismo é comunismo. Mas, seu amigo está mais certo ainda quando diz que o Brasil acabou. Já disse isso há uns posts atrás. O Brasil acabou. Morreu. Virou pó.
Posted by: j at março 5, 2007 08:41 PM
NG,
Leio sempre você but nem sempre comento por que noto isso, me revolto mas quero evitar bate boca. Na questão do aborto você foi quase julgada por ter colocado suas dúvidas.
Fico pensando em como você gosta de manter este blog. Eu não teria paciência.
Por estas e outras é que admiro você. Um beijo.
Posted by: Marcos V at março 5, 2007 07:44 PM
Ângelo,
Não posso julgar a China porque não conheço praticamente nada de sua realidade. Mas sei que tem muitos defeitos e diversas qualidades. Como, aliás, qualquer outro lugar deste planetinha outrora azul.
Não sei quanto ao resto de seu comentário ou mesmo quanto ao post da NG, mas digo-lhe uma coisa: Lí em algum lugar (vou ver se consigo levantar a fonte e depois envio) que se a China um dia chegar ao mesmo nível de desenvolvimento dos EUA (proporcionalmente à sua população) serão necessários 3 (três) planetas Terra para suprir a demanda por coisas simples como petróleo, minério de ferro e alimentos.
Estamos já no limite de utilização de nosso planeta e ainda assim existe esse 1 bilhão e 300 milhões de pessoas que estão à margem do desenvolvimento.
Por isso, lhe digo: Seu oráculo está certo. A China vai sofrer um colapso por fome, falta de matéria prima e de combustível. Ou melhor: Rezemos para que seu oráculo esteja certo. Porque se a China se tornar uma potência, eles simplesmente terão excluído 1 bilhão e 300 milhões de pessoas do desenvolvimento. E temo que sejamos nós.
Abraços,
O Editor!
Posted by: O Editor! at março 5, 2007 03:42 PM
Que a "polícia ideológica" não me crucifique, mas vai aqui uma citação que li em Rousseau:
"Malo periculosam libertatem quam quietum servitium."
Ou, para os ignorantes que não têm fluência em latim : "É melhor liberdade com perigo do que paz na servidão".
Eu não sei não, Nariz. Porque, pense bem: Fosse você uma chinesa, você faria parte do operariado "alienado" aos fatores políticos? Eu acho qeu eu estaria mais para esta classe "intelectualmente mais ativa".
Ah, e anote aí: A China não será a maior potência do mundo. Anote com tinta que dure bastante: A China vai viver um colapso muito pior do que o sofrido pelo Japão na metade final dos anos 90. E só não vou falar quando isto vai acontecer porque meu oráculo já trabalhou demais por este comentário.
Posted by: Ângelo da C.I.A. at março 5, 2007 02:14 PM
Nariz
E tem mais alguns detalhes.
Depois de um ano com trabalho comprovado, o brasileiro recebe um novo visto e, pasmem!!!, um nome chinês, que será o seu nome oficial no país. Para quê? Para poder fazer financiamento e comprar um carro e para poder ter crédito para outros investimentos de maior porte, como abrir o próprio negócio.
Outro detalhe interessante: todo o trabalho tem que prover alimentação e habitação, o que garante que na China não existam sem teto ou mendigos pelas ruas. É obrigação do empregador, compromisso dele.
Por fim: os filhos de brasileiros que estão por lá estudam no Colégio Americano. Aprendem inglês e mandarim, que é obrigatório. Em dez anos, teremos uma geração de brasileiros prontos para negociar com este fenômeno que é a China. Na lingua deles.
Quem são os brasileiros mais presentes por lá? Ora, a gauchada, tchê!
Posted by: Coronel at março 5, 2007 02:14 PM
Comunismo é comunismo. Mas eu quando pergunto sobre um país, costumo indagar "se você fosse se mudar para lá, quais seriam as suas dificuldades?". Quando a pessoa precisa entrar no sistema é que aparecem os diversos "poréns".
Barriga cheia e celular no bolso deixa qualquer povo adestrado. Mas se a falsificação não fosse tão grande na china, queria ver os operários se contentarem com esse salário.
(N.G.: como meu amigo já mora lá a maior parte do tempo, não precisei fazer a pergunta de forma hipotética, Lefebvre. Perguntei, pois, sobre suas dificuldades ... A resposta: fora o jet leg, parece ser grave o fato de que melhor restaurante do condomínio onde ele mora fique do outro lado do campo de golfe - o que o obriga a pegar um taxi ou uma carona sempre que quer ir até la. Durma-se com um barulho desses, hein? rsrsrs)
Posted by: Lefebvre at março 5, 2007 01:49 PM
Nariz!!!
Só tenho duas expressões para o post.
Uau e Vixe!!!
Posted by: Cristal at março 5, 2007 01:29 PM