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março 30, 2007

Esquisito

Pessoal, o dia hoje está corrido... De modo que eu estou passando aqui só para contar uma coisa a vocês.

Há pouco eu cheguei no restaurante universitário e a TV estava ligada. Na barra inferior, a Globo News avisava: "Ministro anuncia medidas para conter o apagão aéreo".

Acontece que a imagem mostrava um senhor titubeando a respeito de estado democrático de direito e da importância do povo brasileiro para o governo Lula. Pra não dizer que não falaram de "apagão aéreo", uma repórter perguntou sobre a greve dos controladores. Muito simpático, aquele senhor disse que esparava que tal coisa não acontecesse. "Eu também", pensei cá com os meu botões, "mas parece que a greve já começou".

Então veio o pior: quando eu achei que a Globo News ía corrigir a tarja, a imagem retornou ao estúdio e os dois âncoras disseram que tínhamos acabado de ouvir o ministro Waldir Pires. Tudo bem que aquele senhor até se parecia com o ministro. Mas deve haver algum engano, porque ele não disse qualquer coisa sobre o apagão aéreo.

Quando é que esta Globo News vai se emendar?

Posted by Nariz Gelado at 04:53 PM | Comments (8)

março 29, 2007

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Véu na cabeça, Faye Turney, oficial da Marinha Britânica, experimenta
o que o Irã entende por "respeito à diversidade cultural". Imagem: cnn.com

Faz tempo, muito tempo, que se avisa: "respeito à diversidade" é uma construção cultural do Ocidente sem qualquer reconhecimento junto ao fundamentalismo islâmico - que, não adianta negar, é a ideologia dominante no Oriente Médio.

Em se tratando do Irã, vale lembrar o alerta da historiadora iraniana Ladan Boroumand, publicado na edição de junho de 2005 da extinta Primeira Leitura e que recebeu, à época, destaque neste blog:

"Seria interessante listar as exigências dos islamistas para ver o que teria de ser negociado com eles. Vou me concentrar nas demandas dos islamistas iranianos ao Ocidente:
1)queremos que nos deixem violar direitos humanos no Irã e não nos importunem com isso;
2)queremos que nos deixem utilizar nossos recursos para impor nossa ideologia sobre os povos da região contra a vontade deles;
3)queremos que nos deixem destruir Israel;
4)queremos que nos deixem decidir o que vocês podem ou não podem publicar nas suas próprias democracias;"

Posted by Nariz Gelado at 08:47 AM | Comments (4)

março 28, 2007

Esquentou

Começou há pouco, em Brasília, a convenção nacional extraordinária na qual o PFL mudará seu nome para "Democratas"(DEM).

E os Democratas podem abrir sua convenção de hoje congratulando-se: coincidência temporal ou não, ontem à noite o partido teve a honra de tomar para si uma das maiores e mais necessárias decisões judiciais da política nacional. Pois foi em resposta a uma consulta dos agora Democratas, enviada em 1º de março, que o TSE definiu que os votos em eleições proporcionais pertencem aos partidos e coligações, e não aos candidatos eleitos. É o princípio do fim do troca-troca partidiário, que tanta promiscuidade tem trazido ao quadro político nacional.

Notem bem: enquanto os demais partidos se metiam em intermináveis discussões sobre a já mitológica reforma política, os futuros Democratas simplesmente agiram mediante um recurso jurídico, solicitando ao TSE a interpretação da lei já existente. Em menos de 30 dias, sem delongas ou discursos, provocaram uma senhora e salutar mudança.

Se é com esta agilidade e destreza que o Democratas se apresentam para o trabalho, devo dizer que aquela máxima que especulei ontem começa a ser respondida: nem frio, nem morno... Os Democratas estão é quentes. Vida longa a eles.

Posted by Nariz Gelado at 08:52 AM | Comments (7)

Cem chibatadas para a imprensa. Outras cem para o povo.

Como era de se esperar, a Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial publicou, no início da noite de ontem, uma nota negando que, em sua entrevista a BBC, a ministra Matilde Ribeiro tenha incitado o racismo

A nota joga - surpresa! - a culpa nas costas da imprensa: a BBC teria tirado a frase "não é racismo quando um negro se insurge contra um branco" do seu contexto original, ao colocá-la na chamada.

Mas também o leitor tem culpa: primeiro porque, segundo dá a entender a nota, contentou-se em ler somente a chamada. Segundo, porque os que foram adiante e leram aquele "Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.", deveriam ter lido " a histórica situação de exclusão social de determinados grupos étnicos no Brasil, prevalecente após 120 anos da abolição, que pode, por vezes, provocar esse tipo de atitude - também condenável."

Ou seja, seguindo a cartilha dos membros do governo Lula, a Ministra não errou. É a imprensa que não é séria e o povo que não sabe ler. Cem chibatadas para cada um e estamos conversados.

Posted by Nariz Gelado at 08:01 AM | Comments (2)

março 27, 2007

Highlanders: a História do Brasil pelo petismo

"Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou."

Da ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial, em entrevista à BBC Brasil, na manhã de hoje.

Sou do tempo em que racismo era preconceito em relação a determinada raça ou etnia - não importando que raça ou etnia fosse. Também sou contemporânea de uma História que se nega a totalizar e que, embora auxilie a compreensão do presente a partir da análise de processos passados, se nega a confundí-los. Espanta-me, pois, ver uma ministra tratar aos negros e aos brancos de hoje como se eles fossem os mesmos de dois ou três séculos atrás: os mesmos que açoitaram e foram açoitados.

Como nem pelo princípio da reencarnação kardecista - que pressupõe evolução - tal besteira poderia ser aceita, concluo que a ministra é adepta daquela anacrônica via "cabralina", popularizada por Lula, que pretende reescrever nosso passado.

Em breve, nossos livros de História terão apenas três páginas: na página um, os povos tupiniquins vivem em paradisíaco estado natural; na página dois, o burguesão e branco Cabral aporta; na página três, Lula é eleito. Haverá, claro, um pequeno box informativo para satisfazer à ministra Matilde: na página dois, negros são açoitados por brancos burgueses. Na página três, os mesmos negros - highlanders, já que se mantiveram vivos por pelo menos mais de um século -olham com "justificado" e revolucionário nojo para os brancos burgueses - também eles highlanders.

É a Novíssima História Petista do Brasil. Quem discordar será reprovado.

(Atualização, às 14:20. Quem lembra do roteiro, sabe: o perigo de se meter neste ramo de highlanders é que, no final das contas, there can be only one.)

Posted by Nariz Gelado at 12:29 PM | Comments (4)

Me sejas frio, me sejas quente...

"O PFL foi o partido mais importante na conquista da estabilidade econômica (e política) do primeiro governo Fernando Henrique. Enquanto o PSDB esperneava por cargos e queria bancar a consciência esquerdista de FH, com o velho discurso contra o Banco Central e o liberalismo (exatamente como o PT faz hoje com Lula), o PFL segurou a barra. Nas grandes crises da Ásia e da Rússia, foi ACM – sim, ACM – quem rugiu para o mercado e liderou, ao lado do presidente, a defesa das instituições e da moeda brasileira."

O trecho acima é do artigo de hoje de Guilherme Fiuza, que faz uma excelente análise sobre a trajetória do, agora extinto, PFL. Não sem cometer alguns pecados. O principal deles é atribuir ao PFL uma covardia política que foi, antes, do próprio PSDB: a não defesa das privatizações do governo Fernando Henrique. Já disse uma vez e repito agora: sob todos os aspectos, a despeito das aparências, o PFL foi mais coeso na defesa da candidatura Alckmin do que o PSDB.

Concordo, porém – talvez não pelos mesmos motivos -, com Fiuza: esta reforma na sigla pode gerar um monstrengo. O risco é o PFL abrir mão de ser um partido pequeno, mas bem definido ideologicamente - capaz de crescer a longo prazo, quando os estragos do esquerdismo burro começarem a ficar claros nesta "Nuestra América" - para se transformar numa massa disforme como o atual PSDB.

Na minha modesta opinião, a única chance do PD dar certo é se parte significativa do PSDB for para o PT - o que, vamos combinar, não seria mais do que dar vazão aos reais anseios de alguns tucanos - deixando vago o espaço para um partido de centro. Do jeito que a coisa está posta, o novo partido abre mão de sua identidade em prol de outra, que nada mais é do que uma cópia mal acabada do tucanato – ou, como sugere Fiuza, um lobo desdentado.

Adepta que sou daquela dica cristã, "me sejas frio, me sejas quente; não me sejas morno que eu te vomito", não posso estar otimista.

Posted by Nariz Gelado at 11:05 AM | Comments (3)

março 26, 2007

Mais uma vez

Em meados de outubro último, com o segundo turno da corrida presidencial em andamento, afirmei que Geraldo Alckmin estava sem partido e sem assessoria de imprensa. Era a única explicação para o baile que o tucano levara na semana que se seguiu ao debate da Band - quando o PT tomou a mídia de assalto para vitmizar Lula, carimbando o rótulo de "agressivo" em Alckmin.

Pois a entrevista de Alckmin para a Folha de S.Paulo de hoje não faz mais do que confirmar minha teoria. Se o ex-governador está, como ele mesmo diz, cumprindo um "período sabático" em Harvard seria recomendável que mantivesse silêncio - afastado, pois, de sua principal atividade, a política, como requer a postura sabática. Que se limitasse a aproveitar a curta estada no Brasil para rever a família.

Mas não. Alckmin preferiu atender ao pedido de entrevista. E o fez no momento em que seu maior adversário dentro do PSDB emplacou excelente resultado numa pesquisa de opinião sobre o desempenho do governo de São Paulo neste primeiro trimestre.

O duplo erro - quebrar o jejum verbal no momento em que seu adversario político está fazendo bela figura - poderia ser anulado por declarações novas e significativas, que justificassem sua presença na mídia. Não foi, infelizmente, o caso. Suas declarações a José Alberto Bombig são a monótona repetição daquilo que se viu ao longo da campanha presidencial. Até mesmo o reconhecimento de erro na campanha saiu titubeado.

O que fica é a incômoda sensação de que a derrota para Lula não rendeu qualquer reflexão maior e que Alckmin, guardadas as devidas diferenças, é uma espécie de Leonel Brizola: um político destinado a falar sempre o mesmo, aos mesmos, e - por esta razão - condenado a jamais aumentar seu contingente de votos.

Só há dois motivos para que algo assim aconteça a um político: ou ele não dá ouvidos aos que o cercam ou está mal assessorado. Mas notem que nem a segunda opção poderá eximir Geraldo Alckmin: que ele estava mal de assessoria - e de partido - já ficou claro durante a campanha presidencial. Logo,logo, vamos acabar concluindo que se Alckmin não promove mudanças é porque compactua com esta incompetência.

E o pior é que seja qual for o motivo para tal teimosia, ela já começa a cristalizar o seu destino: ser reconhecido como um excelente administrador e um péssimo candidato. É uma lástima. E é por isso que mais uma vez - talvez pela última vez - escrevo sobre isso.

Posted by Nariz Gelado at 11:12 AM | Comments (6)

março 23, 2007

Escola de vagabundagem

Você, brasileirinho excluído, não se preocupe com o seu destino.

Não, o governo não vai melhorar a educação para lhe garantir um futuro melhor. Ao invés disso, vai utilizar o dinheiro que poderia ser empregado na melhoria das condições de ensino e depositar em uma poupança, que você poderá sacar ao concluir a 8ª série.

Portanto, não se avexe: ao final de oito anos, você sairá da escola semi-analfabeto e sem emprego. Em compensação, terá uma poupancinha... Algo singelo, a lhe garantir vida mansa - pelo menos até que você consiga a sua própria Bolsa-Família.

Posted by Nariz Gelado at 10:02 AM | Comments (6)

março 22, 2007

Revoltante e pedagógico

É revoltante o retorno de Fernando Collor ao cenário político. Principalmente para quem viveu intensamente aqueles dias que anteceram ao seu impeachment, sua volta dá a sensação de que andamos em círculos, de que nossas conquistas são em vão e que a política nacional absorve, sem problemas, todo e qualquer crime. Sentimentos que não são novos, mas que causam um incômodo danado sempre que com eles nos deparamos - e é provável que jamais tenhamos nos deparado com tais sentimentos de forma tão impactante.

Eis que, ontem à noite, assistindo aos tele-jornais, percebi que há um aspecto muito positivo na volta de Fernando Collor. Num país de analfabetos políticos, as imagens de seu retorno cumprem um papel pedagógico sem precedentes, escancarando aquilo que era acessível somente a uma elite intelectual: sem educação, a democracia é uma piada de mau gosto.

Quinze anos depois de ter deixado o Palácio do Planalto sob uma salva de xingamentos - "ladrão!" foi o predominante - , Fernando Collor apareceu na TV fazendo o caminho de volta. Desta vez, para ser abraçado, perdoado e acolhido por Lula, seu ex-desafeto. Nada pode ser mais representativo daquela maioria votante que, em novembro último, acolheu e perdoou Lula, a despeito de todas as acusações que reacaíam sobre o seu governo - e das quais seus eleitores estavam, segundo as pesquisas publicadas à época da eleição, bem conscientes.

Nenhuma outra imagem - e me dei conta disso somente ontem à noite - poderia ser mais apropriada para marcar o início do segundo mandato de Lula. Ali estava, escancarado na cara do povo, o resultado daquele discurso que ele, em sua maioria, aceitara tão bem nos últimos dois anos: "todos os políticos e partidos são iguais"; " o PT só fez o que os outros fizeram" - "perdoemos, pois, a todos" . E o que é melhor: "não condenemos a ninguém" - exceto, é claro, aos delatores. Não por acaso, a segunda notícia do dia era o indiciamento de Roberto Jefferson pela Polícia Federal. O brasileiro tem horror a "dedo-duro", pois não?

Imagem pedagógica poderosa, a nos esfregar na cara o que somos politicamente. Foi o que eu vi ontem à noite na TV. Lula está perdoado? Pois tomem Collor também. Lula não sabia? Pois Collor foi absolvido no STF. Engulam a ambos. Mirem-se bem neste gigantesco espelho e entendam, de uma vez por todas, que vocês são uma nação de tolos: um voto na mão e nada na cabeça.

Posted by Nariz Gelado at 11:11 AM | Comments (12)

março 21, 2007

Liberdade, razão e sensibilidade

Antes de mais nada, aviso que este deve ser lido na íntegra - e que o leitor tem todo o direito de comentar desde que, antes, cumpra com o dever de ler tudo, sem pular paragrafos.

Hoje, em seu "blog por e-mail", Cesar Maia conta a história do carioca Arthur Rodrigues, mestrando em Direito Internacional na UERJ, fundador das comunidades "PSDB" e "Morte ao Lula" no Orkut. A considerar o relato apresentado por Maia, Rodrigues, por conta da comunidade dedicada ao presidente, tornou-se alvo de investigação da PF. Ao procurar aquela instituição para maiores esclarecimentos, passou a desconfiar que suas comunidades haviam sido excluídas, no ano passado, numa ação conjunta entre a PF e o Google. Em sua defesa, Rodrigues alega, entre outras coisas, que "se tratava de uma alegoria (inclusive havia um cartoon do Lula sendo guilhotinado)", que " na própria comunidade diversas vezes foi dito que o objetivo não era a formação de qualquer projeto assassínio" e que estava apenas exercendo o " Direito Constitucional à oposição".

Pois bem...

Devo admitir que eu me divertiria às pampas se, qualquer dia desses, descobrisse comunidades orkutianas intituladas "Nariz Gelado é burra", "Abaixo Nariz Gelado" ou qualquer coisa que o valha. E me divertiria, antes de mais nada, porque o surgimento de tais comunidades significaria, apenas, que o que faço neste blog está repercutindo o suficiente para causar irritação em uns e outros. No entanto, se surgisse uma comunidade chamada "Morte à Nariz Gelado" - com um cartoon da indiazinha sendo guilhotinada - , muito provavelmente eu me sentiria chocada e ameaçada. E não tenham dúvidas: uma vez que me sentisse ameaçada, faria denúncia na delegacia de crimes para a internet, na PF, no bispado e no escambau.

Longe de mim querer discutir leis com um mestrando em direito. Mas me parece que, por mais metafórica que seja, uma comunidade que deseja "Morte a Fulano" pode ser enquadrada por incitação ao crime. Em se tratando do Orkut - onde a maioria das pessoas assina a comunidade apenas pelo seu nome, não participando de suas discussões - parece irrelevante que ali, tal qual alega Rodrigues, "diversas vezes foi dito que o objetivo não era a formação de qualquer projeto assassínio". Só o título, creio eu, já seria suficiente para garantir que a vítima em questão se sentisse no direito de tomar providências legais.

Quando o envolvido, porém, é - gostemos ou não - um chefe de Estado, a coisa fica mais séria ainda. Há, no meu entender, razões de sobra para que os responsáveis por sua segurança investiguem e acompanhem mais de perto os participantes da tal comunidade. Notem bem: investiguem e acompanhem.

Só por curiosidade, fui até o mecanismo de busca do Orkut para verificar quantas comunidades surgiriam para expressão "Kill Bush". Encontrei 10 ao todo, sendo que 8 delas foram criadas por brasileiros - dentre estas últimas está a mais numerosa, com reles 551 membros. As demais estão em ostracismo. A conclusão mais imediata é que, mesmo protegidos pela Primeira Emenda, os americanos sabem que sugerir publicamente, ainda que de brincadeira, a morte de um presidente é garantir para si a atenção dos órgãos de inteligência. É bem provável que esta consciência venha do fato de que aquele país viu o assassinato de quatro presidentes em exercício. Mas vamos combinar que faltou ao mestrando em direito internacional a agudeza de espírito que, pelo visto, sobra aos americanos: hoje em dia, em qualquer lugar do mundo, piadas deste tipo podem, sim, render uma bela de uma investigação.

"Investigação", pois... "Providências clandestinas", é outra conversa... É aí que a porca torce o rabo. Não acompanhei de perto as notícias sobre aquelas negociações entre o Google e a PF, que tinham por fim coibir ações criminosas - em especial, o tráfico de drogas e a pedofilia - através do Orkut. Mas, de qualquer maneira, não me parece que a comunidade "Morte ao Lula" entrasse nessa categoria. Também penso, embora não esteja muito certa disso, que pela natureza da investigação a coisa talvez fosse da alçada da ABIN. Agora.... Se as comunidades de Arthur Rodrigues foram realmente retiradas do ar, como ele desconfia, numa ação conjunta e informal entre a PF e o Google - sem que, para isso, tenha existido qualquer recurso legal - penso que estamos diante de um procedimento irregular, que cheira, sim, à ditadura. Neste caso, ainda que lhe falte sensibilidade, Rodrigues estará coberto de razão em reclamar.

Posted by Nariz Gelado at 02:15 PM | Comments (12)

The day after

Baixarias a parte - impressionante como Julio Redecker é sempre garantia de constrangimento - o governo está fazendo o que bem entende com a CPI do Apagão Aéreo. O mesmo vai ocorrer com a CPI das ONGs que, não sei se vocês sabem, teve 7 de suas 11 vagas abocanhadas pela base governista.
Culpa de quem?
Pra começar, de quem não consegue se articular nem para eleger uma nova presidência no Senado.
Mas a coisa vem de longe. Este é apenas o the day after de uma oposição que pariu o absolulismo... Lembram?

Posted by Nariz Gelado at 10:49 AM | Comments (0)

março 20, 2007

Nem tão sutil assim...

Eu tinha programado falar de outra sutil estratégia na comunicação do governo Lula. Resolvi mudar, porém, porque surgiu um outro exemplo de estratégia que, embora batida, não se pode deixar escapar: a CPI das ONGs mal foi aprovada e Geraldo Alckmin já está sendo acusado de envolvimento irregular com organizações não governamentais durante seu governo.

Esta não é nem nova nem sutil: é a velha manobra petista de se antecipar a denúncias com aquela atitude preventiva - quiçá intimidatória - de "somos todos iguais".

Pois que seja. Se ficar provado que Alckmin envolveu-se em coisas ilícitas, que ele responda pela coisa. E é mesmo pouco provável que ele tivesse qualquer chance de ser poupado. Não há sofisticada organização criminosa a lhe defender.

Posted by Nariz Gelado at 04:17 PM | Comments (2)

Das sutilezas (I)

Outro dia, falando da TV estatal de Hélio Costa, defendi a superioridade do atual governo na área de comunicação. Disse também que, entre outras coisas, ela se constrói de sutilezas - razão pela qual não corremos o risco de ter um programa dominical de oito horas com Lula. A coisa toda é muito mais leve e insidiosa e tem a marca registrada de seu mentor, mestre da emoção, Duda Mendonça. E pouco importa, aqui, se ele continua ou não à frente da comunicação governamental - dizem que sim. Interessa é que fez escola.

Engana-se quem pensa que, para além do discurso, o grande diferencial daquele Lulinha paz e amor, nascido em 2002, foi obra de dentista, barbeiro ou alfaiate. A grande virada na imagem de Lula foi um recurso de expressão corporal dos mais simples: Lula foi ensinado a falar pendendo a cabeça ora para a direita, ora para a esquerda.

Diretores experientes sabem que esta é uma linguagem universal, capaz de conferir docilidade e, principalmente, inocência a quem a utiliza. Cães notadamente violentos ficam com aparência de filhotes quando fazem isso. Entre eles é, por óbvio, involuntário. Na dramartugia brasileira, porém, Regina Duarte conquistou o posto de eterna namoradinha do Brasil fazendo a mesma coisa: olhar pidão acompanhado de oscilações de cabeça.

Lançado na campanha presidencial de 2002, este sutil e eficiente recurso chegou ao seu apogeu em 2006, quando Lula precisou mostrar-se inocente o suficiente para que ninguém o responsabilizasse por qualquer coisa. Mais uma vez, deu certo.

Posted by Nariz Gelado at 12:05 PM | Comments (4)

março 19, 2007

Comentários

Os comentários voltaram a funcionar normalmente.
Agradeço às inúmeras manifestações de solidariedade e sugestões que recebi ao longo desses dias - e que ajudaram a mitigar a saudade... Estão pensando o quê? Por pior que vocês sejam, eu não vivo sem vocês.

Posted by Nariz Gelado at 09:50 AM | Comments (9)

Desconstruindo

Em janeiro último os jornais deram conta de que Paulo Egydio, governador de São Paulo durante o período militar, estaria lançando, em março, um livro de memórias. As matérias destacavam a versão - sempre informalmente aventada e agora confirmada pelo ex-governador - , de que Lula teria ingressado na política com a bênção de Golbery do Couto e Silva.

Não sei se o livro de Paulo Egydio já foi lançado. Se não foi, desconfio que esteja prestes a sê-lo.

Cheguei a esta conclusão quando vi, ontem, matéria do Fantástico tratando do desperdício de 80 locomotivas elétricas. Uma vergonha, concordo. Mas uma vergonha que jaz há 30 anos em um depósito de Araraquara. Somente agora, porém, ela foi digna de atenção: "A história da compra de 80 locomotivas elétricas começa em 1976, quando Paulo Egydio Martins governava o Estado de São Paulo", informa a matéria assinada por Paulo Bacari.

Posted by Nariz Gelado at 09:47 AM | Comments (1)

março 16, 2007

"A prova de que os exemplos das outras nações advertem é que os povos que se policiam por último ultrapassam freqüentemente os mestres de quem receberam as lições."

Do verbete "propriedade", no dicionário de François Marie Arouet, vulgo Voltaire, que foi visto, hoje cedo, na compainha de Locke e Smith, a brindar a última novidade chinesa. Dizem também que, sentado no canto mais escuro da metafísica taverna, um alcoolizado Rousseau resmungava impropérios.

Posted by Nariz Gelado at 03:12 PM | Comments (0)

março 15, 2007

O ministro, a cenoura e a chave

Até ontem, tudo o que se fazia era desdenhar a lerda reforma ministerial de Lula, como se ela fosse apenas um "puxadinho" sem qualquer importância.

Foi preciso Tarso Genro avisar que assume amanhã para a ficha cair: o principal desta reforma já estava definido pelo menos desde janeiro, quando Márcio Thomaz Bastos teria confidenciado ao vice-governador de Santa Catarina, Leonel Pavan, que Genro assumiria em seu lugar. Então, houve um certo silêncio. Recordo apenas de um editorial da Folha de S. Paulo, por aquele dias, que chamava a atenção para o fato de que a escolha de alguém advindo diretamente do máquina petista abria o flanco para o aparelhamento político-partidário daquele Ministério.

Durante um mês e meio porém, o assunto da hora foi a nomeação - ou não - de Marta Suplicy para dois ministérios menores. A questiúncula causou frisson porque há correntes petistas que acreditam que a transformação da ex-prefeita em ministra pavimentaria sua candidatura à presidência, em 2010.

A sucessão presidencial é o calcanhar de aquiles de políticos, jornalista e articulistas em geral. Funciona mais ou menos como aquela cenoura que se balança para o cavalo: basta falar nisso para que todo o resto perca a importância. Foi assim em meados de 2005, quando a oposição resolveu "sangrar" Lula até a eleição. Tem sido assim dentro do PSDB, com os "presidenciáveis" Aécio Neves e José Serra governando para 2010. Não foi diferente com a indicação de Tarso Genro: enquanto todos se entretinham com o draminha ministerial de Marta, a principal mudança para um governo petista - a posse da chave da cadeia - corria por fora.

Posted by Nariz Gelado at 11:29 AM | Comments (0)

março 14, 2007

Eles podem

E lá vem Hélio Costa, dono daquele do vozeirão que, para a minha geração, era a marca registrada do Fantástico, anunciando sua "Rede Nacional de TV Pública do Executivo".

Não menos vigorosas são também as vozes que se erguem contra o projeto de Costa. Embora as grandes redes comerciais ainda não tenham se pronunciado, a ABEPEC - Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais - acusa o desejo de aparelhamento do Estado revelado pela iniciativa. Também as associações de canais universitários, comunitários e legislativos apareceram para apontar a confusão que a proposta faz, já no nome, entre o estatal e o público - termos auto-excludentes, pois os interesses de uma esfera não são, necessariamente, os de outra.

Há, também, os que consideram apenas a gravidade financeira da questão: a criação de um novo sumidouro de verbas públicas, inútil sob todos os aspectos. A proposta é ruim, dizem eles, porque, no final das contas, a exemplo do que ocorre com os canais já existentes, não conseguirá produzir uma programação capaz de competir com as redes privadas. Pela mesma razão, observam, ela é inofensiva no que respeita à tentativa de aparelhamento.

É desta última posição que quero discordar.

Não há duvidas de que, até hoje, televisões estatais e públicas foram incapazes de conquistar uma audiência que se aproxime daquela verificada nas redes comerciais. Ocorre, porém, que há razões para isso. A começar pela abrangência de sinal. Até hoje, exceto pela TVE, as demais televisões públicas ou comunitárias têm uma área de abrangência muito limitada. Neste quesito, a proposta de Hélio Costa é clara: uma rede nacional.

É na área das competências, porém, que a coisa se torna mais possível: o ministro quer uma Rede Nacional (Pública) do Executivo. Qual Executivo?, é a pergunta que se deve fazer.

Para início de conversa, um Executivo que está no poder há quatro anos, reelegeu-se para mais quatro e não tem uma oposição capaz de interromper-lhe a continuidade em 2010. Ou seja: um Executivo que se manterá pelo menos 12 anos no poder - mas que tabalha com afinco, todos sabemos, para quebrar aquele record de 50 anos do PRI mexicano. Se é verdade, pois, que a implantação uma rede de televisão vitoriosa demanda tempo, também é verdade que este é um artigo que o Executivo em questão tem de sobra.

Contudo, é o segundo quesito, o da competência, que mais salta aos olhos - e que me faz rir da inocência dos que se apressam em pregar, antecipadamente, o fracasso do projeto em termos de audiência, como se este Executivo já não tivesse dado provas substanciais de sua superioridade em termos de comunicação...

Não? Então vejamos.

Um observador mediano terá de admitir que um dos maiores trunfos do governo Lula foi a ampliação dos atendimentos da rede de proteção social. Se ele for sério, observará também que pouco ou nada de novo foi criado. Rebatizados e reacomodados, os programas socias passaram a ser anunciados com mais competência. Assim, o que estava disponível às populações de baixa renda já com Fernando Henrique Cardoso passou, simplesmente, a ser melhor anunciado no governo Lula. Por óbvio, a adesão aos programas foi maior - e os investimentos nesta área, necessariamente, ampliados. Dispensável discorrer, aqui, sobre o papel determinante desta estratégia no processo reeleição.

Indispensável, de fato, é reconhecer que este Executivo foi capaz de passar incólume pelo maior encândalo de corrupção já visto no país. Quando, no inicio de 2006, as pesquisas sobre a popularidade presidencial começaram a retornar aos velhos índices de aprovação, ficou claro que a capacidade de investigação e denúncia da imprensa - e estamos falando da grande imprensa - era absolutamente inútil. Lá, onde o voto realmente tem volume, o Executivo dava show de comunicação, num fenômeno que entra para a história como "teflon": nada grudava em Lula.

Só em Lula? Ledo engano. Embora não reste dúvidas de que o carisma presidencial pesou muito, é inegável que, em termos de comunicação, este Executivo foi mais do que competente para espraiar entre seus aliados esta blindagem. A prova é que tanto o partido do governo quanto aqueles que compõem sua base de apoio conseguiram eleger ou reeleger boa parte de seus membros envolvidos em escândalos. No final das contas, não se safaram apenas aqueles que arranharam uma conduta moral de ordem mais subjetiva - Ângela Guadagnin e Professor Luizinho são os casos mais evidentes. Sobre estes pesava uma outra ordem de rejeição - seara na qual a estratégia do governo, se formos pensar bem, nem fez questão de entrar. No quesito corrupção, contudo, a comunicação deste Executivo foi suficientemente boa para peitar a grande imprensa e garantir mais quatro anos de poder.

Diante deste quadro é realmente espantoso que alguns ainda se aventurem a menosprezar a hipótese de que este Executivo crie uma rede estatal de televisão capaz de conquistar fatias consideráveis de audiência. Se o projeto passar, não tenham dúvidas de que eles o farão com competência. E sua base de ação será aquela que, primeiramente implantada por Lula, vem sendo metodicamente extendida àqueles que o apoiam: a comunicação direta entre o Executivo e o povo, sem intermediários, como quer a célebre receita do populismo.

Não, não haverá um programa dominical no qual Lula, a exemplo de Chávez, passe oito horas falando diretamente à população. Teremos uma versão personalizada da coisa, mais sutil e insidiosa - e, por isso mesmo, muito mais competente. Esta competência é construída de inúmeras sutiliezas. Mas isto é assunto para outro post.

Posted by Nariz Gelado at 10:35 AM | Comments (0)

março 13, 2007

theeconimist.jpg
The Economist Archive - 11/05/2006

Está em todos os jornais: Hugo Chávez faz beicinho ante a ameaça de um mundo menos dependente do petróleo. É claro que prestigia, também, o gás de seu pupilo boliviano. Mas isso é tudo.
A base aparente de sua argumentação faz delirar à turba: deixaríamos de plantar alimentos para, ao fim e ao cabo, abastecer os automóveis dos "ricos". Bobagem. O gorila está é ocupado em nos manter bebendo de seus barris.

Posted by Nariz Gelado at 09:12 AM | Comments (0)

março 12, 2007

Responda quem souber

Da coluna Painel, da Folha de S.Paulo de hoje:

"Heráclito Fortes (PFL-PI) apresentará nesta quarta novo pedido de CPI das ONGs. Recolheu 73 assinaturas. O número seria maior, mas alguns senadores, como Aloizio Mercadante (PT), desistiram ao saber que a idéia seria levada adiante."

Os petistas são insidiosos- e, pelo jeito, o senador Aloizio Mercadante não é exceção. Se, de fato, não queria a CPI, porque prometeu assinatura? A quais interesses servia quando fingiu apoiar a idéia - e a quais serve agora, ao negar seu apoio?

Posted by Nariz Gelado at 10:37 AM | Comments (0)

março 11, 2007

Está tentando comentar e não consegue?

Continuamos com problemas nos comentários.
Para saber porque, leia aqui e aqui.
Obviamente, dúvidas, sugestões e protestos podem ser enviados para o e-mail de sempre.

Posted by Nariz Gelado at 11:23 AM | Comments (0)

março 10, 2007

E o ponto final?

Ontem à tarde, no Hilton, diante de toda a imprensa internacional, o presidente do Brasil, ao comentar as relações entre países ricos e pobres na OMC, declarou: "Já conversamos muito ao longo dos últimos meses e estamos andando. Andando com muita solidez para encontrarmos o chamado "ponto G" para fazer um acordo."

Fiz questão de apresentar o fato acima como ele deve, de fato, ser encarado: não foi Lula, o torneiro petista fanfarrão que vomitou esta pérola. Foi o presidente reeleito do Brasil. Aquele que, independentemente de termos votado nele, representa a mim e a você, leitor, diante de todas as nações.

Nos últimos quatro anos, Lula já me deixou escandalizada, revoltada e enojada. É a primeira vez, porém, que o presidente me deixa preocupada. Para além do sindicalista iletrado e arrogante - e do presidente que não tem qualquer controle sobre os seus homens de confiança - Lula agora começa a emitir sinais claros de que não está bem.

Sabe-se que a megalomania é um distúrbio delirante bastante comum em quadros de psicose maníaco-depressiva. Não raro, suas vítimas acreditam-se dotadas de poderes especiais para erradicar a pobreza, assegurar a paz mundial, curar doenças ou realizar coisas extraordinárias.

Do ponto de vista discursivo, este distúrbio - que, em casos mais severos, pode causar prejuízos no funcionamento ocupacional e social, exigindo hospitalização - tem características bem marcantes: a fala é alta, rápida e temperada por observações irrelevantes ao tema tratado que, normalmente, se apresentam sob a forma de piadas, trocadilhos e outras inconveniências em tom divertido.

Se Lula quer encontrar o "ponto G" das relações comerciais na América, aqueles que o cercam deveriam estar preocupados em colocar um ponto final neste episódio maníaco - que já vem de longa data, mas se agravou tremendamente nos últimos tempos. Quem não acredita que releia os jornais das últimas semanas.

Posted by Nariz Gelado at 01:01 PM | Comments (0)

março 09, 2007

Cara ou coroa?

Um foi preso, na juventude, por dirigir embriagado - seus desafetos o chamam de "senhor da guerra". O outro quis expulsar do país um jornalista que sugeriu que ele andava bebendo demais - seus desafetos o chamam de "sheik da mamona".
Encontraram-se, nesta manhã, para conversar sobre a produção de álcool. Tudo, é claro, regado a caldo de cana.
Dias Gomes, de onde estás podes me ouvir?

Posted by Nariz Gelado at 01:36 PM | Comments (0)

Voltamos

Todos blogs do portal Apostos ficaram fora do ar nas últimas 24 horas.
Ainda não sabemos ao certo, mas a coisa tem cheiro, cor e jeito de um ataque DDoS.
Retornamos, agora, sem os comments - que serão reabilitados tão logo se decubra a origem do problema.

Posted by Nariz Gelado at 01:04 PM | Comments (0)

março 07, 2007

Tarefa para corajosos

Matéria primorosa da última Veja traz a avaliação de dois especialistas em comportamento animal para a sétima edição do Big Brother Brasil. Os jovens que participam do reality show global receberam, de Renato Zamora Flores, da UFRGS, e César Ades, da USP, rótulos familiares para quem curte documentários sobre a vida animal: machos alfa e beta; fêmeas prediletas, oportunistas ou secundárias.

Essa foi fácil. O verdadeiro desafio seria chamar a ambos para uma avaliação do quadro político nacional. Fazendo justiça, deveríamos admitir que seria a versão acadêmica para as inferências de Hugo A-go-go , leitor deste blog, que há anos se refere a José Dirceu como "macho alfa". Assim, de imediato, fico pensando no que diriam Flores e Ades a respeito desta disputa ministerial entre a ex-prefeita Marta Suplicy e aquela que, segundo o colunista Cláudio Humberto, é sua maior oponente: a primeira dama.

Não creio, porém, que haveria coragem para tanto. Primeiro porque, ao contrário de nossos políticos, os participantes do BBB são objetos de análise que não oferecem qualquer ameaça - já que não têm qualquer poder sobre verbas acadêmicas. Depois, sempre haveria o risco de que, na esteira desta análise, alguém surgisse com a proposta de cercar o Congresso, enchê-lo de câmeras e promover paredões semanais.

Posted by Nariz Gelado at 10:17 AM | Comments (5)

Qual história?

""Vejo um presidente diferente daquele do primeiro mandato. Um presidente com menos compromissos com seu partido, seus aliados, a reeleição. Agora, seu compromisso é com a história".

A declaração acima é de Aécio Neves e foi proferida ontem, na saída do encontro realizado entre Lula e os governadores.
O tucano esquece apenas um detalhe: em quatro anos de governo, Lula não demonstrou qualquer compromisso com seu partido ou seus aliados. Queimou, um a um, todos os que poderiam arranhar sua reeleição.
Tem razão o governador mineiro ao dizer que o compromisso de Lula é com a história. Mas erra ao apresentar tal coisa como novidade - e, principalmente, ao sugerir que o presidente esteja preocupado com alguma outra história que não seja a sua. O norte de Lula sempre foi sua própria biografia.

Posted by Nariz Gelado at 09:50 AM | Comments (2)

março 06, 2007

Botox ideológico

Leio que a Polícia Federal tentará impedir que o presidente Bush veja os protestos que o PT, a UNE, o MST e a CUT estão encabeçando para recepcioná-lo.
Uma bobagem antidemocrática que parece ter um só fim: fazer de conta que não sofremos daquele esquerdismo crônico, movido a anti-americanismo rançoso, que assola a maioria dos brasileiros.
Eu sou da opinião de que deveriam deixar a manada mugir à vontade. Se não pela democracia em si, pelo menos para que o governo americano perceba que estamos mais perto da Venezuela do que eles imaginam.
Aqui, tanto quanto no reino de Chávez, o discurso fácil da "opressão" yankee é sustentáculo para a política interna.

Posted by Nariz Gelado at 09:09 AM | Comments (5)

março 05, 2007

Notem bem

Há um motivo pelo qual entrevistas costumam ser precedidas de um breve perfil do entrevistado.

No post abaixo, embora eu não estivesse fazendo propriamente uma entrevista, tentei reproduzir, da forma mais fiel possível, o resultado de longos bate-papos que travei com um amigo no último final de semana. Ele não é sociólogo nem cientista político. É, como já disse, um executivo da área de moda, que tem todos os motivos para louvar ao capitalismo, e que hoje vive na China, em contato direto com a classe operária.

Talvez por isso mesmo, por se tratar de um relato que é fruto do empirismo - muito diferente das opiniões de especialistas, por vezes distanciadas em demasia, que pululam na nossa imprensa -, achei que era interessante trazê-lo até vocês. Mas não o desmereçam por ter sido feito por alguém que não tem - e nem quer ou deve ter - um olhar acadêmico para questões políticas ou sociais. Soa pedante demais, como se alguns de vocês se achassem donos de uma erudição que andam longe de demonstrar nos comentários que têm feito aqui.

Finalmente, que tal relato não esteja afinado com o que eu mesma sempre pensei da China será, para mim, motivo de reflexão e pesquisa. Mas não me pareceu motivo para deixar de apresentá-lo a vocês. Ao contrário: acho que tomar contato com diferentes pontos de vista é uma forma segura de não emburrecer. É por isso que eu espero que o fato deste relato não estar igualmente afinado com o que vocês pensam, prevêem ou desejam para a China seja motivo para que também vocês reflitam, debatam e busquem respostas - e não para que apareçam aqui feito censores, fazendo cobranças nas entrelinhas, num atestado de que andam incorrendo muito facilmente em dois equívocos: 1- Achar que quando apresento uma opinião de outrem é porque a estou aceitando plenamente; 2- Me atribuir o compromisso com uma bandeira qualquer - seja ela qual for.

Minhas bandeiras escolho eu. E não costumo deixar dúvidas quando assumo uma.

Posted by Nariz Gelado at 06:01 PM | Comments (1)

A China que eu descobri

Neste final de semana, depois de muito marca e desmarca, recebi a visita de um amigo de longa data - boa e inesperada surpresa, que explica por qual motivo o blog permaneceu abandonado.

Executivo de reconhecido talento na área de moda, meu amigo é um capitalista na melhor e mais ampla acepção do termo. Cidadão do mundo até a medula, ele pode ser recebido aos beijos tanto por um chef em Milão quanto pela gerente da melhor floricultura de Paris. Estando em New York, ligue para os amigos dele e você descobrirá uma legião de simpáticos newyorkers que, cooptados no passado por aquele brasileiro de papo franco e modos elegantes, têm uma ótima imagem do nosso país.

Pois toda esta simpatia está, agora, se espalhando pela China - onde meu amigo tem passado metade de seu tempo desde o ano passado. E foi de lá que ele me trouxe chá de jasmin e novidades - algumas capazes de enterrar a imagem que eu recebera de outros amigos que, na última década, também para lá se encaminharam a trabalho.

Não se enganem, porém, com a descrição sofisticada que vai no segundo parágrafo. Apesar de conhecedor das melhores coisas da vida, meu amigo é pessoa de origem humilde e que, por força da profissão, mantém contato, em qualquer lugar do mundo em que esteja trabalhando, com aquela classe à qual já pertenceu: o operariado.

Como vocês já podem imaginar, eu tinha muitas perguntas.

Não, eu não queria saber sobre a queda da bolsa na semana passada. Queria, antes de mais nada, sua opinião sobre a decantada exploração da classe trabalhadora, a ditadura e o papel do Estado.

"É uma média de dez anos neste ritmo", respondeu ele, quando perguntei sobre as condições de trabalho da classe operária. E explicou: "antes de completar o segundo grau, ninguém pode trabalhar. Então, eles chegam às fábricas aos 17 ou 18 anos. Trabalham seis dias por semana, com direito a apenas três feriados prolongados durante o ano. Recebem um salário médio de 100 dólares por mês, mais casa e comida. Alguns juntam o dinheiro e voltam, depois, para sua terra natal. Muitos juntam dinheiro para, passado estes dez anos, buscar novos rumos - estudar, abandonar o país, abrir um negócio. Uma minoria torra o salário em novos modelos de celular, Pizza Hut ou MacDonalds - essa é a que, de fato, não conseguirá escapar ao sistema". E emendou: "outro dia, vi a saída de uma escola numa periferia brasileira e pensei: o que vai acontecer com esta meninada? Não terão emprego. Quando vemos isso, é impossível achar que há algo de errado com a China. Há algo de errado - e muito - é com o Brasil".

E o ocidente? Diz ele que eles amam o ocidente e querem se ocidentalizar. "A roupa, por exemplo. O uniforme básico das fábricas é jeans e camiseta pólo - apenas a cor da camiseta difere de uma fábrica para outra. Mas as moças usam a polo babylook e jeans de cintura baixa... Todos os seu hábitos estão se ocidentalizando. O capitalismo é uma força irresistível."

Perguntei a respeito deste verdadeiro fenômeno que é predomínio de mão-de-obra feminina na indústria. Ele confirmou: seguramente, 70 a 80% das operárias são mulheres - inclusive na construção civil. Reforçou, também, aquele diagnóstico já conhecido: as mulheres são desprezadas nas áreas rurais - daí seu êxodo para os grandes centros industrializados. Mas, por mais de uma vez, lamentou que "as bonitas são cooptadas para a prostituição. A protituição é crime, mas eles não conseguem conter a coisa".

Com esta observação, pois, chegamos ao Estado. Quão ostensiva é a sua presença? Como ela é sentida lá, no chão da fábrica? "Na maior parte do tempo, não é", foi sua resposta enfática. "Do ponto de vista empresarial, o Estado interfere pouco, muito pouco". Hoje, na ótica do meu amigo - agora já quase um entrevistado - o que interessa ao Estado Chinês é o crescimento econômico, é garantir empregos para aquele imenso contingente populacional. Na outra ponta, o operário, o interesse é ter emprego. O restante parece ser mais "penduricalho".

"Mas e a liberdade? A internet é censurada" - quis argumentar, já um pouco incomodada com aquela visão tão positiva da China. "É, mas eles não se importam. Eu acho que esta discussão predomina em camadas intelectualmente mais ativas, como entre os universitários - com as quais eu não convivo. Não me parece ser uma preocupação operária." E dá-lhe exemplo: "Outro dia, estouraram uma rede de prostituição. Os infratores foram obrigados a desfilar pela cidade, sendo humilhados e chicoteados. O povo assistiu. Depois retomou suas atividades como se nada tivesse acontecido. É como se o Estado fosse algo a parte, descolado da realidade." Eu observei que, na verdade, felizes ou não, os chineses não podem expressar contrariedade em relação ao Estado. Meu amigo balançou o queixo concordando mas avisou: " Se este medo existe, não transparece no convívio diário. Parece mais é um distanciamento ." E, às vésperas do Congresso Nacional do Povo - que começa hoje, em Pequim - emendou:

- "Na verdade, a maioria do povo chinês não está nem aí para política".
- "Como aqui", fui obrigada a reconhecer.
- "Sim... Mas aqui é porque a classe política perdeu a credibilidade..."
- "E lá?" - eu quis saber
- " Lá? Não sei... Mas parece que o Estado não está incomodando ninguém..Ou está incomodando a poucos".
- "A China vai mesmo ser a grande potência do futuro ?" - provoquei.
- " Talvez. Tem tudo para ser"
- "E o Brasil?"
- " O Brasil acabou."

Posted by Nariz Gelado at 11:06 AM | Comments (10)

março 02, 2007

Fora do ar

Estive, por mistérios técnicos, sem acesso ao blog até este momento.
O problema é que agora devo sair para trabalhar.
Mas liberei os comentários, que estavam pendentes desde ontem à noite - e o debate no post "Opção e Resposabilidade" segue animado.

Posted by Nariz Gelado at 05:47 PM | Comments (0)

março 01, 2007

Para a gauchada

Ao comentar sua recente viagem ao país de Mao, feita na companhia da nova namorada, o senador Eduardo Suplicy esclareceu que esta era a primeira vez que retornava àquelas paragens, desde que as visitara com, a então esposa, Marta Suplicy: " Conheci uma nova China", declarou ao Estadão.

Posted by Nariz Gelado at 08:49 AM | Comments (5)

Vamos em frente

Já disse o que eu penso a respeito de planejamento familiar e aborto. Tentei complementar com algumas observações na área de comentários - que continua aberta para os que quiserem dar sua opinião. Peço apenas que vocês, por gentileza, o façam no post relacionado ao tema.
Tivemos colaborações bastante ricas, outras nem tanto, mas eu mantenho minha posição.
Dentre os meus muitos defeitos, está o pragmatismo. Costumo tomar posições partindo da realidade posta e não de uma visão de mundo ideal: embora o certo fosse que todos os nascidos tivessem direito a uma vida decente, estamos há muito tempo fracassando nisso. De modo que me comovo mais com uma criança abandonada do que com uma que ainda não nasceu. Também olho com certa estranheza para quem se nega a discutir a pena de morte mas não se importaria, e até fecharia um olho, se acaso os assassinos de Jão Hélio fossem condenados e executados pelos próprios apenados - coisa bastante comum por estas playas latinas.
Sei lá... Deve ser alguma falha na minha formação moral.

Posted by Nariz Gelado at 08:08 AM | Comments (5)