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fevereiro 09, 2007

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Elenco de primeira, roteiro bem amarrado, belíssima direção de arte, trilha musical primorosa e um leve convite à reflexão: A Cidade Perdida (The Lost City), estréia de Andy Garcia na direção, tem todos os ingredientes necessários àquilo que a maioria das pessoas reconhece por cinema de qualidade. Ainda assim, Garcia levou 16 anos para levantar verbas e, no ano passado, quando o filme chegou à telona, foi boicotado em festivais e distribuidoras latino-americanas.

O motivo mais aventado foi a desconstrução do mito de Che Guevara - à epoca do lançamento, batendo de frente com a imagem pueril apresentada pelo ovacionado Diários de Motocicleta. De fato, ao mostrar a queda da ditadura Batista e a ascensão de Castro sob a ótica de uma família de classe média-alta, Garcia não poupou a ninguém, evidenciando que os cubanos passaram, sem escalas, de uma ditadura sangrenta para outra.

A crítica também fez beicinho, reclamando que obra idealiza a Havana dos anos 50 e, pecado maior, não dá espaço para retratar os "agentes sociais" que aclamaram Fidel Castro, tornando a revolução possível.

Se fosse verdade seria compreensível, já que a proposta de Andy Garcia - cuja famíla fugiu para os EUA quando ele tinha cinco anos - era mostrar o ponto de vista de quem foi expoliado e perseguido pela revolução. Mas o fato é que a acusação não é verdadeira. Há pelo menos quatro visões diferentes deste mesmo momento histórico: a dos que, ao lutarem para derrubar Fulgêncio Batisa, colaboraram involuntariamente com Fidel; a dos que pensavam poder viver sem envolver-se em política; a dos investidores que exploravam a Havana turística e - sim, senhores - a dos que aclamaram Fidel como salvador.

Me parece que o que a patrulha de fato não engoliu foi a forma como estes últimos foram apresentados: uma massa encantada diante de um animador de circo. Aquela mesma que aparece na mais instrutiva cena de arquivo que Andy Garcia pinçou para o seu belíssimo filme: a do famoso discurso, no início de janeiro, no qual duas pombas brancas sentaram no ombro de Castro. Vendo ali um símbolo de beatificação, a massa seduzida nem atentou para as primeiras palavras que o futuro ditador lhe dirigia: "Não há muitos soldados rebeldes aqui? Não há vários soldados armados aqui? Então todos devem mostrar disciplina, calar a boca e me escutar!"

Só por isso já valeria a pena correr na locadora. Mas A Cidade Perdida é, do início ao fim, cinema de qualidade, que a patrulha política, por canina fidelidade ideológica, transformou em fracasso fincanceiro. A mesma patrulha que aclamou Irreversível, - obra do "polêmico" Gaspar Noé, que traz a bela Mônica Belucci sendo currada por intermináveis 12 minutos, enquanto seu algoz repete: "está gostando, burguesinha?"

Ps: a foto do Andy está ai, é claro, também para alegrar a sexta-feira das leitoras.

Posted by Nariz Gelado at fevereiro 9, 2007 10:31 AM

Comments

Temos muito o q conversar, pessoal do nariz gelado!Adorei o comentário sobre o trabalho do Andrea, quero dizer, Andy Garcia.

Posted by: Dani Loyola at janeiro 18, 2008 03:18 PM

Achei ótima a narrativa sobre o filme de Andy Garcia, é isso mesmo, ele falor /mostrou a verdade, que muitos tentaram econder, uma política comunista e terrorista. Acho o Andy um ator excepcional, lindo, charmoso, talentoso, elegante e por aí vai... amei o filme e recomendo à todos. Valeu pela foto do Andy Garcia, ele está de arrasar, né !

Posted by: marcia mara at julho 13, 2007 01:17 PM

este filme do andy garcia me fez lembrar do chico buarque, nosso propagandista da revolucao cubana.
ele passou anos visitando cuba, e pelo visto nao
encontrou aqueles musicos velhinhos magistrais do
buena vista social club. deviam ser algum lixo pre-revolucao. foi preciso um gringo cheio de preconceitos chamado ry cooder para ressucita-los.

Posted by: paulo at fevereiro 21, 2007 03:43 PM


Nariz,

Filmaço!
Só você, pra me fazer ir a uma locadora!

Posted by: Kika Albuquerque at fevereiro 11, 2007 12:49 PM

Nariz, a explanacao do contexto historico eh tudo o que se espera de ninguem menos do que Mestre - voce.

A Cuba de hoje continua igual, ou pior. Brasileiros que cursam medicina nos pedem pra enviar lapis e caneta. Nem disquete nem CD. Um simples lapis. O Coronel tem razao. Fidel ficaria muito bem numa foto tal qual a de Che.

Partindo para a critica cinematografica (apesar de nao me surpreender por suas conhecidas qualidades intelectuais e sua sensibilidade natural)essa me encantou. Maluca por cinema, espero contar com mais esse brilho de suas muitas facetas no seu blog. Que tal brindar-nos de vez quando com um passeio desses...

Ah (suspiro) o Andy. Tal como Sean Connery e Al Pacino, o charme aumenta, sempre aumenta com o tempo.

Fico pensando naquele filme pipoca (tbem eh bom de vez em quando) em que o badalado mas pra mim sem sal Richard Gere resolve bailar. Andy Garcia em seu lugar, que show, assim como o Pacino cego naquele tango em Perfume de Mulher.

Vou aproveitar, sozinha em casa, som alto, acho que vou tirar o micro - com a foto do Andy - para dan;ar...

(Probleminhas de teclado de sempe, que minha touperice digital nunca consegue resolver, exceto por mero acaso)

Beijo pra minha querida, e sucesso sempre.

Posted by: Nina at fevereiro 10, 2007 01:24 PM

Seu post está magistralmente perfeito. Abs Aluizio Amorim

Posted by: Aluizio Amorim at fevereiro 10, 2007 05:15 AM

Nariz

Meu repúdio ao ato insano dos três bandidos que acabaram com a vida do João Fernandes de 6 anosno Rio de Janeiro, que foi arrastado por 7 Km até a morte...
Sou contra a pena de morte mas acho que está na hora de pessoas que não sabem viver em sociedade serem definitivamente isoladas...se em presidios, hospicios ou numa ilha cercada por tubarôes, dependerá da gravidade do delito.Deixo aqui um xingo para os politicos fazedores de leis e para o judiciário cumpridor dessas leis para que façam desse pais um país decente, não esse nojo que está aí.Lamento muito que os políticos estejam cuidando do próprio bolso à toda hora.
Sobre os três fascínoras, que a casa deles seja derrubada, e que os presos nas cadeias cumpram a lei da cadeia para bandidos deste naipe.

Posted by: pepino at fevereiro 9, 2007 05:17 PM

quanto ao ator, não só assistí, como tenho muitos filmes em que representou.

quanto ao tema, já era esperado que a massa manipulada iria manifestar-se contra. independente da classe social.

em 1997 tínhamos que enviar disquetes de 5 1/4 para pesquisadores que lá estavam pois não havia drive de 3 1/2" para que pudessem acessar aos arquivos. esse é o atraso que estão querendo implantar na américa do sul, porque assim que oficialmente fidel sair, acaba mais uma ditadura comunista.

Posted by: marcelo at fevereiro 9, 2007 04:46 PM

Para os leitores, um recado: o filme é mesmo ótimo e não é só pelo Andy Garcia, que apresenta um trabalho próximo ao perfeito em roteiro, direção e interpretação. O Che Guevara de Andy Garcia é o assassino como ele é, sem a aura mítica que lhe criaram, que mata um ferido no chão, a sangue frio, e que comemora o fuzilamento de um desafeto, com um charuto no canto da boca. Por isso que eu sempre digo: a foto mais linda do Che é aquela em que ele posa deitado no tanque, com um mosca sentada na testa e um furo de bala na cabeça.

Coronel

Posted by: Coronel at fevereiro 9, 2007 02:01 PM

Nariz, Nariz... não sou bom com as palavras mas tudo que vc escreveu aí é o que sempre pensei desde a minha juventude. Os jornais hoje dizem que Castro - o queridinho do Chico Buarque, Niemeyer e que tais - está voltando à vida. Será verdade?

Posted by: Mauro at fevereiro 9, 2007 01:19 PM

Amiga!!!

Magistral!Estou sem fôlego.Você escreveu com a "alma".Que coisa mais linda !!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Posted by: Cristal at fevereiro 9, 2007 12:54 PM

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