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fevereiro 27, 2007
Os outros
Hoje, em sua coluna para a Folha de S.Paulo, Clóvis Rossi, traz o depoimento de um professor do ensino público que reclama, entre outras coisas, da não participação dos pais na educação formal dos filhos - os pais não apareceram na escola para reclamar o baixíssimo rendimento da criançada em um concurso de matermática.
A coisa só pode surpreender a quem pouco convive com professores de ensino médio e fundamental. Não é o meu caso. Até bem pouco tempo, eu convivia quase que diariamente com eles. E posso lhes afirmar que os relatos do dia-a-dia dessa gente são o testemunho de que o desleixo dos pais não é apenas com o ensino formal: é com a educação em geral - com aquilo que, em última instância, nossas crianças deveriam aprender em casa.
Não vou nem listar aquelas questões que, vez por outra, recebem destaque da mídia: alunos armados, professores ameaçados etc e tal. Esta é só a ponta do iceberg. Vamos ao rés do chão, aquela instância que a mídia não costuma mostrar. Porque é lá, penso eu, que o problema começa. E o que temos? Temos alunos psicologicamente abalados, incapazes de apreender qualquer coisa, porque o pai, bêbado, passou a noite batendo na mãe. Alunos perturbados porque a mãe, prostituta, recebe cinco ou seis clientes por noite no casebre de um só cômodo. Alunos sem noções de higiene, que precisam ser apresentados ao chuveiro e à escova de dentes pela professora. Alunos, enfim, simplesmente abandonados por aqueles que os geraram.
Mas não se engane o leitor achando que o problema é meramente social. Nas casas onde o banho é quente porque nunca falta dinheiro para a conta de luz ou de gás, há também abandono: ou porque pai e mãe trabalham muito para manter um padrão de vida decente, ou porque estão envolvidos demais com seus próprios umbigos - e não raro com suas próprias bebedeiras, entorpecentes e promiscuidade. Ali, onde tudo cheira a limpeza, estão também os filhos daqueles que procriam sem a exata noção da responsabilidade exigida pela tarefa. Com sorte e com dinheiro, porém, eles podem contar com um serviçal que lhes substitua a presença - mas não, fique bem claro, a autoridade.
Voltemos à reclamação do professor apresentada por Rossi: como esperar que este pessoal, que não dá conta nem do que deveria fazer em casa, vá à escola reclamar do ensino recebido pelos filhos? Antes de mais nada, seria preciso que eles aparecessem para apanhar o boletim da garotada, certo? E, ao darem o ar da graça em tão jocoso evento, esperaria-se que não viessem alcoolizados - ou com o propósito de quebrar os dentes daquela professora que insiste em dar zero ao menino. Sim, porque a postura da grande maioria dos pais, de todas as classes socias, que ainda se dão ao trabalho de ir a escola discutir o desempenho de seus filhos, é simplesmente colocar toda a carga de culpa sobre os ombros do professor.
As péssimas condições do ensino no Brasil - e a forma como a mídia constantemente repercute este tema - colaborou para uma inversão de valores. Encontrou-se, pois, a desculpa ideal: o problema é sempre da escola e do professor. Mais adiante, quandos estas crianças estiverem reclusas em celas, terá sido " culpa da sociedade". E mais: se, porventura, um destes meninos ou meninas, num futuro próximo, for pego tentando ingressar ilegalmente em algum país do hemisfério norte, a culpa será do "capitalismo selvagem" ou da globalização.
O quadro da educação, já se vê, é apenas uma faceta de uma questão muito maior. Estamos vivendo uma crise que é menos fruto de questões socias e mais, muito mais, resultado de uma mudança cultural: há sempre um culpado, um "outro", no geral coletivo e não facilmente individualizável, a quem podemos culpar por nossos fracassos. Se esta crise pode ser resumida em um só termo, eu diria que ela atende pelo nome de "crise de responsabilidade". É nos braços dela que chegamos a este quadro geral de impunidade, no qual todos querem ter direitos e poucos, muito poucos, reconhecem que eles devem vir acompanhados de deveres.
Posted by Nariz Gelado at fevereiro 27, 2007 09:25 AM
Comments
Querida Nariz,
Como esperar que pais que não ensinam seus filhos a se comportarem em locais públicos (cinemas, igrejas, etc...) se preocupem com sua educação formal?
(N.G.: exatamente, Paulo...como eu pergunto no post: "como esperar que este pessoal, que não dá conta nem do que deveria fazer em casa, vá à escola reclamar do ensino recebido pelos filhos?" Um abraço. )
Posted by: Paulo at fevereiro 28, 2007 10:39 AM
OK, Nariz, está claro que você está falando do quanto as famílias são responsáveis pelo quadro atual no Ensino, independente se do público ou privado. O que quis ressaltar, e não o fiz completamente, é que espalhou-se um caldo de cultura em que não reprovar o aluno é normal. Isto somado à displicência com que os pais de muitos alunos tratam a questão da Educação, hoje até mesmo as classe mais esclarecidas estão relaxadas e largaram mão de cobrar com rigor o bom desempenho dos alunos por motivos que você aqui citou bem.
No post seguinte você avança no tema e vai corretamente: O problema está na moral familiar, na estrutura familiar! Em pessoas que não estavam prontas mas também não aprenderam a lidar com a árdua tarefa de educar sua prole.
E eu sei que, lá pelos anos 60, Roberto Campos abordava o tema de Planejamento Familiar e controle de Natalidade. ALém da Igreja e da esquerda de então, até mesmo os militares foram contra a idéia ( era uma época em que acreditava-se que, quanto mais habitado o país, mais teríamos controle sobre a Amazônia, maiores seríamos, mais cresceríamos ), que foi "abortada" antes de vir à luz.
Já me alonguei demais. O que importa dizer é que você está coberta de razão.
Abraços,
Ângelo
(N.G.: Ângelo, pessoas inteligentes nunca se alongam demais.)
Posted by: Ângelo da C.I.A. at fevereiro 27, 2007 04:18 PM
Nariz Gelado,
Muito bom seu texto.
Um dos grandes problemas em nossa sociedade esquerdista e' nao perceber a parcela de responsabilidade que cabe a nos, cidadaos, pais, eleitores, etc.
Posted by: Ranzinza at fevereiro 27, 2007 02:30 PM
Muitas pessoas próximas a mim são professoras. Nariz, aqui o problema é ainda mais grave: Acredite, até mesmo as escolas particulares estão contaminadas pela desatenção ao Ensino. Aqui é muito comum os pais trocarem os filhos de escola caso sejam reprovados. Em muitas escolas particulares os professores, por este motivo, devem dar notas boas mesmo a alunos que mal sabem ler e que já estão na 5ªsérie ( não adianta, não adotei ainda as novas nomenclaturas ).
Não sei se aí em Santa Catarina é assim, mas aqui no Estado de São Paulo, em escolas públicas, alunos são avaliados apenas na 4ªsérie e 8ª. E na maioria das escolas os professores são também pressionados por diretores para que aprovem a todos os alunos. É uma merda só. E, acredite: A Progressão Continuada foi instalada pelo governo tucano de Mário Covas sob inspiração do governo da cidade de São Paulo que inaugurou a prática na época de Luiza Erundina. Ah, lógico: O secretário de Educação dela era o próprio, Paulo Freire. Deu na desgraça atual.
(N.G.: Angelo, não creio que você tenha lido com atenção - ou, talvez, eu não tenha sido clara. Meu texto fala tanto das escolas públicas quanto das particulares - conheço bem ambas as realidades. Um abraço. )
Posted by: Ângelo da C.I.A. at fevereiro 27, 2007 02:18 PM
Belo comentario!
Posted by: Rodrigo R. Pedroso at fevereiro 27, 2007 02:15 PM
Quando o assunto é educação eu gosto muito de comentar sobre uma escola mantida pela Embraer em São José dos Campos. No ENEM de 2006 ela ficou em terceiro lugar no Estado de São Paulo e em décimo quinto no Brasil. Dos 200 alunos que ele forma todo ano no Ensino Médio, a grande maioria entra em faculdades da USP, Unicamp e Unesp. Esta escola é destinada a alunos carentes da região. Prestam um "vestibulinho" e devem ter feito o ensino fundamental em escola pública e serem carentes. A escola é em período integral, fornece transporte, alimentação, uniforme e material escolar. Esta escola é uma gota d'água neste oceano de problemas sociais em que vivemos.
Que tal se nossas estatais deixassem de patrocinar times de futebol, duplas de volei de areia, torneios de futebol de praia e jogos panamericanos (quinta divisão dos Jogos Olímpicos) e passassem a patrocinar escolas nestes moldes?
Posted by: Zanco at fevereiro 27, 2007 01:56 PM
Ora, ora, ora...
Nada como uma professora que sabe das coisas para puxar as orelhas dos pais.
Parabéns pelo comentário.
Pena que os pais que mais precisariam ler esse texto não o lêem.
Posted by: Soube?q at fevereiro 27, 2007 01:04 PM