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fevereiro 28, 2007

Opção e responsabilidade

Quando mais jovem, eu sempre imaginei que não hesitaria em abortar uma gravidez indesejada. E imaginava isso com a tranquilidade de quem tomava todas, absolutamente todas, as providências para não se ver diante de tal dilema. Mas surpresas aconteciam, volta e meia, entre meu grupo de amigos e conhecidos - de modo que eu não excluía por completo a possibilidade.

Talvez porque nunca tenha sido obrigada a tomar esta decisão, ao longo dos últimos 20 anos acabei mudando: hoje eu não interromperia uma gravidez inesperada. É uma decisão pessoal, fruto de alguns princípios de fé misturados à certeza de que seria um peso ficar convivendo com a eterna pergunta "será que foi uma decisão acertada?" Não perco de vista, porém, o fato de que assim penso hoje porque hoje tenho uma vida bem mais estável sob o ponto de vista emocional e financeiro.

Como podem ver, é uma decisão pessoal, de foro íntimo, que exponho aqui apenas para melhor ilustrar minha opinião sobre o tema. E o que eu penso é que todos devem ter o direito de decidir pessoalmente sobre isso. Pouco importa se vão fazê-lo com base em questões econômicas, religiosas ou morais. Esta é uma decisão que não cabe ao Estado. Decidir que, uma vez que tenha engravidado, uma mulher seja obrigada a ter o filho é tão invasivo quanto obrigar à ligadura de trompas àquelas que já tenham dois ou três filhos. Da mesma forma, pois, que eu não aceito o controle compulsório de natalidade chinês, não posso aceitar a intervenção sumária do Estado, obrigando que se leve adiante uma gravidez indesejada. E assim como não acho que o Estado deva assumir nossos filhos, não acho que ele deva nos obrigar a ter filhos quando nós não os desejamos. A questão ética aí envolvida deve ser resolvida por cada um, de acordo com a sua consciência e, se quiserem, com a sua fé.

Vejam a causa da paternidade responsável, que foi tema dos posts de ontem. Como exigir responsabilidade se, no final das contas não se dá opção? Uma ação pela paternidade consciente e responsável, que mostre a seriedade da tarefa - e que cobre responsabilidade daqueles que a ela se aventuram - deve não apenas trabalhar pela prevenção da gravidez indesejada. Deve vir, também, acompanhada da liberdade de opção, dando chances para que os futuros pais decidam se querem ou não assumir tal responsabilidade.

Se a religião "a" ou"b" prega que isto é inaceitável, pode fazer o que já faz hoje: orientar seus fiéis no sentido de que eles se afastem de tal prática. Mas o Estado é laico e, como tal, deveria contemplar a todos - e, aqui, devo dizer que quem é contra o aborto tende, no geral, a tratar a questão como se, ao legalizá-lo, o Estado o estivesse impondo. Não é verdade. O Estado apenas estaria permitindo a liberdade de escolha numa questão, não me canso de repetir, de foro íntimo.

Outro argumento, bastante infantil e superficial, trata a legalização do aborto como se, a apartir dela, este passasse a ser o método contraceptivo por excelência. Não é verdade - principalmente se vier acompanhado de uma campanha de conscientização nos moldes que defendi ontem. Aliás, se tal camapanha de fato fosse realizada, arrisco dizer que os índices de gravidez indesejada diminuiriam muito. Mas o extremo escatológico é, no geral, o argumento dos fanáticos - sejam eles esquerdistas, direitistas, cristãos, islâmicos, ou judeus. Sabemos que todos estes clubinhos têm lá seus extremistas - e que é preciso que nos façamos de surdos às acusações que eles tão facilmente nos dirigem para que possamos discutir de forma séria e profunda determinados temas. Caso contrário, ficaremos naquelas discussões apaixonadas que levam a lugar algum: de um lado, eles nos acusando de assassinos covardes; de outro, nós dizendo que é fácil decidir pela manutenção de uma gravidez quando não vai se arcar pessoalmente com a responsabilidade sobre a mesma.

O que importa, aqui, é diferenciar, e bem, o fato de que eu posso resolver, amanhã, integrar uma "liga anti-aborto". Posso fazê-lo com a convicção de que estarei defendendo questões morais, éticas ou religiosas. Posso fazê-lo com intuito de conquistar mentes e corações pela "defesa da vida". Ao Estado, porém, cabe a tarefa de permitir que aqueles que porventura não me dêem ouvidos tenham, de fato, opção. Caso o contrário, minha causa é falsa e eu nada estarei conquistando. Estarei apenas reforçando uma imposição do Estado sobre a vida privada - o que, para o caso em questão, significa fornecer mais um culpado coletivo, a quem os pais relapsos poderão sempre apontar na hora de justificar seus fracassos.

Posted by Nariz Gelado at fevereiro 28, 2007 04:10 PM

Comments

Conforme solicitado, informo que se trata de um substitutivo da relatora dep (ex) Jandira Feghali (eu sabia que era dela mas queria dar a informação completa) ao Projeto de Lei nº 1.135/91. Apesar de o substitutivo falar em "assegurar a interrupção voluntária da gravidez" (isto é, direito ao aborto) até a 12ª semana em qualquer caso, até a 20ª semana em caso de gravidez resultante de crime contra a liberdade sexual, sem limites em caso de risco à saúde da gestante e em caso de caso de diagnóstico de malformação congênita incompatível com a vida ou de doença fetal grave e incurável, o seu último artigo revoga os artigos 124, 126, 127 e 128 do Código Penal, o que implica na prática da legalização ampla do aborto, sem qualquer limite.
Tenho um arquivo contendo o substitutivo, mas não sei como enviá-lo.
abraços
Ana Luiza

Posted by: Ana Luiza at março 6, 2007 06:38 PM

Ana Luiza,

Você tem razão quanto ao debate ser intenso, concordo plenamente. E não poderia ser diferente. É um tema muito controverso, e que nos faz pensar.

Quanto ao aborto em sí, creio que deva existir um limite de tempo rígido e definido segundo critérios lógicos e científicos. Aborto a qualquer tempo, eu também não concordo. Isso porque sou completamente favorável ao seu argumento: Não podemos admitir o assassinato de uma pessoa. E acho que o aborto só deva acontecer enquanto aquele embrião é apenas um ajuntado de células e, como eu disse antes, não pode suportar vida.

Com relação aos avanços da medicina conseguir manter a vida de bebês de apenas 20 semanas, pelo que lí a respeito do aborto, muitos países assumem como limite o período de 12 semanas após a concepção (caso eu esteja errado, peço que me corrijam). E tal limite deve ter alguma explicação médico-científica (e se algum médico souber, por favor, me ilumine).

Já quanto a questão da falta de respeito à lei, isso é um problema de fiscalização, e não da Lei. Não podemos pensar em legislar de uma forma que as leis não sejam atingidas pelo descumprimento, mas sim lutar para que as leis sejam cumpridas.

Por fim, acredito que esse seja o artigo ao qual você se referiu: http://www.presbiteros.com.br/Moral/Bio%E9tica/A%20origem%20da%20vida%20do%20ser%20humano%20e%20o%20aborto.htm

Abraços,

O Editor!

Posted by: O Editor! at março 6, 2007 05:59 PM

Prezados, enquanto procurava aqueles dados que ainda estou devendo, encontrei esse artigo bastante interessante e oportuno, da Dra. Alice Teixeira Ferreira, que tomo a liberdade de transcrever:

A origem da vida do ser humano e o aborto

( N.G.: Ana Luiza, desculpe, mas não permito a publicação de texto integral na área de comentários. Isto se dá por duas razões: primeiro, por uma questão de direitos autorais; segundo, porque fica massante. Se você descobrir um link para este artigo, por favor, não deixe de divulgá-lo aqui. Caso o contrário, teremos que nos contentar apenas com a autoria e o título. Um abraço.)

Posted by: Ana Luiza at março 6, 2007 03:44 PM

Ok, vou procurar os dados exatos nos textos e artigos que tenho arquivados e informo posteriormente.
Ana Luiza

Posted by: Ana Luiza at março 6, 2007 02:51 PM

Prezado Fernando - o Editor!
Obrigada por suas palavras e por sua manifestação.
Em relação ao que você comentou sobre o início da vida, obviamente eu não tenho conhecimentos científicos suficientes ou competência para me manifestar, mas tenho conhecimento que os debates sobre quando se dá esse exato momento em que aquelas células iniciais e as divisões que se seguem deixam de ser um "amontoado de células" e se tornam um ser humano são muito intensas, e já vêm ocorrendo de longa data. Mas parece que estamos longe de qualquer consenso sobre o momento em que o feto em formação pode sentir emoções, dor, pode sofrer.
Observem essas recentes notícias a respeito da sobrevivência de bebês prematuros, de pouco mais de vinte semanas, que em razão de progressos tecnológicos estão tendo possibilidades de sobrevivência que antes não poderiam ser sequer imaginadas para bebês tão prematuros.
Mas parece que há indícios de um certo consenso a respeito do início da vida a partir da concepção em si, já que após a união do espermatozóide e do óvulo dá-se o início ao processo de formação de um indivíduo, um ser humano que não se detém mais, se não for obstado por causas externas naturais ou não, formando-se um feto, um bebê, que depois nasce e se torna uma criança, e depois um jovem, um adulto, um velho, até a sua morte. No momento da fecundação cria-se um patrimônio genético diferente daquele do pai e da mãe, e nesse patrimônio genético se contêm toda a força do desenvolvimento sucessivo.
Pensando nisso, dá para concluir que abortar mesmo nas primeiras semanas implica em impedir uma vida humana de ter o seu natural desenvolvimento, impede o normal transcorrer desse processo da vida, já existe um ser humano desde o início, das primeiras divisões celulares, mesmo porque daquela união de células não resultará nada além de um ser humano, não existe outra possibilidade. Assim, mesmo nas primeiras semanas, por decisão de uma outra pessoa, elimina-se nada mais nada menos do que uma vida humana. Temos direito a isso?
Eu afirmo que não.
Além disso, veja bem um ponto para reflexão com base na nossa realidade, já que nós vivemos no Brasil e não na Alemanha. Vocês imaginam que teríamos aqui as mínimas condições para que em caso de liberdade para prática do aborto até um limite de semanas de gestação, esse limite seja mesmo respeitado?
E vocês sabem que o projeto de lei que está em tramitação no Congresso Nacional, em razão de um substitutivo que foi apresentado por uma deputada, prevê a possibilidade de liberação do aborto em qualquer tempo, mesmo nos últimos meses de gestação?
Há muitos estudos sérios sobre essas questões, que podem ajudar em nossas reflexões, possibilitando a formação de convicções com fundamento em critérios sérios e responsáveis.
Cada um de nós pode dizer que tem o mesmo valor desde o primeito dia até hoje. Se alguém tivesse decidido por uma ação que me eliminasse mesmo nas minhas primeiras semanas de vida, aquele embrião não estaria aqui hoje, debatendo a respeito dessas questões, e procurando defender a vida humana acima de qualquer outro interesse ou valor.
abraços
Ana Luiza

(N.G.: Ana Luiza, você poderia nos informar qual é o subtitutivo e quem é a deputada?)

Posted by: Ana Luiza at março 6, 2007 11:19 AM

Ana Luiza,

Em primeiro lugar quero me desculpar pela forma grosseira com a qual me dirigí a você. Relí meus textos e precebí que fui mais ríspido do que deveria ou seria necessário.

Adiante.

Com relação à diferença entre o feto na barriga da mãe e o bebê nascido com vida, a única diferença que vejo estaria na fase de sua formação. Explico-me:

O aborto, quando é permitido, tem uma "janela de oportunidade" para que seja feito. Fora desse período já temos um feto plenamente formado e que pode sustentar sua própria existência, mesmo que de forma precária, ou com a ajuda de equipamentos especificos.

Mas antes desse período, o que existe no ventre da futura mãe é um ajuntado de células que não poderia continuar sua existência, exceto em um tubo de ensaio. O que existe é um apêndice, incapaz de suportar a vida e, também, incapaz de conter uma "alma". É uma coisa (ou criatura, se preferir), que não tem nem seu sistema nervoso completo e, no meu entender, não consegue identificar "dor" enquanto algo inteligível.

Assim, durante tal período, onde temos algo que não pode manter sua vida em um ambiente externo (mesmo com a ajuda de equipamentos específicos), que não pode comportar uma alma ou algo similar e que não tem as estruturas necessárias para assimilar ou identificar "dor", temos apenas um organismo vinculado à mulher e que está sujeito à sua discricionariedade.

Passado tal período, onde temos um feto que é efetivamente um ser, que está sujeito a sensações e pode permanecer vivo idependentemente de outro ser, concordo com você. Este é uma pessoa que está protegida por toda a gama de direitos resguardados a todos nós.

Isso porque, no meu entender, a vida se inicia na concepção (uma vez que as células estão vivas), mas a pessoa somente existe quando pode ser identificada como tal, quando for um feto capaz de manter sua vida (e aí incluo todos os fetos, inclusive aqueles nascidos sem cérebro, pois muito embora eles acabem morrendo rapidamente, eles podem sustentar tal vida durante algum tempo, nem que seja apenas 1 segundo).

Já com relação à legislação, nada a argumentar. Com a legislação atual, inclusive a Constitucional, é impossível que o aborto seja legalizado. Assim como a prisão perpétua. Mas isso não impede que eu considere que a própria Constituição está errada, e que talvez devesse ser modificada.

Abraços,

O Editor!

Posted by: O Editor! at março 5, 2007 05:21 PM

N. G., em relação ao meu comentário sobre os crimes de aborto e incitação ao crime, a sua ironia com o "teje preso" está mal endereçada, não fui eu quem ameacei ninguém por causa das opiniões aqui expressadas...foi apenas a minha reação ao comentário anterior do Editor! que havia dito que eu deveria ter cuidado com o que falo (ok, Fernando, eu entendo que foi uma maneira de expressar)aliás eu é que deveria ter me manifestado assim em relação a você, já que o seu tom comigo é sempre bem ameaçador, basta você reler todas as suas réplicas.
E vocês falam e falam, reclamam e acusam-me de um montão de coisas (tudo bem, o que importa é o mérito da questão)mas não responderam até agora aquela pergunta "que não quer calar"...qual a diferença entre um ser que está há algumas semanas, ou mesmo meses, do nascimento, e de outro que acabou de nascer, de modo a autorizar o extermínio de um, mas proibir que se mate o outro?
E já que, apesar dos muito mal entendidos, a minha intenção verdadeira é somente levar à reflexão séria, aí vão mais alguns pontos que julgo oportunos:
- A Constituição Federal assegura o direito à vida, e o Brasil é signatário do Pacto de São José da Costa Rica que declara que o início da vida se dá a partir da concepção;
- O art. 2º do código civil brasileiro declara que a personalidade civil tem início a partir do nascimento com vida, ressalvando em alto e bom som: "mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro". Ora, qual é o primeiro dos direitos, do qual decorrem todos os demais, se não o direito à vida?
- fala-se em liberdade de opção (da mulher em relação à vida do filho já concebido), mas sem considerar que a liberdade de escolher deve ser exercitada num momento anterior (ao decidir por praticar o ato sexual, de como praticá-lo, com quem, etc - e também por isso a prática sexual pressupõe a maturidade física e emocional da pessoa).Quando já há uma outra vida humana envolvida, não há mais como exercer essa liberdade de escolha. É por isso que, como bem abordou o Luiz F, a legislação penal não estabelece punição quando o aborto é realizado no caso de gravidez resultante de esturpo, justamente por que, nestes casos a mulher não pode exercer sua liberdade de escolha quanto à relação sexual (embora eu pessoalmente entenda que também nestes caso há violação à Constituição Federal que garante o direito à vida, mas no ponto em que estamos neste debate acho conveniente considerar assim, pois assim está estabelecido no Código Penal);
- nós não podemos sair por aí atirando e matando aqueles que decidirmos considerar criminosos sem julgamento prévio e válido(por favor, peço encarecidamente que ninguém sinta-se atingido por essa colocação, faz parte do desenvolvimento do raciocínio, estou falando só em termos genéricos, não é pessoal, não é dirigido a ninguém), a pretexto de resolver o problema da violência, da criminalidade; e também não podemos resolver os problemas decorrentes da miséria, matando os miseráveis, etc, não é mesmo? Então também não podemos matar os nascituros a pretexto de resolver os problemas da falta de planejamento familiar, da gravidez precoce e/ou não desejada, da miséria e da pobreza, etc. A solução a estes problemas deve ser dada por outros meios, obrigatoriamente passando pela educação.
(Bem, eu li e reli meu comentário, acho que não estou ofendendo ninguém -se por acaso alguém se sentir atingido, peço desculpas desde já e reafirmo expressamente que não houve qualquer intenção, estou só falando em termos genéricos, é apenas a maneira de desenvolver o raciocínio, ok?)
abraços
Ana Luiza

Posted by: Ana Luiza at março 5, 2007 10:33 AM

Nariz,

O feto não é um ser humano? Se não for um ser humano, que se legalize o aborto em qualquer circunstâncias, pronto. Não é preciso justificativa nenhuma. Se é um ser humano, ele tem direito a viver, mesmo que o Estado precise cuidar dele para isso. Mesmo que a mãe tenha mil problemas por causa disso.

Posted by: jorge nobre at março 5, 2007 09:27 AM

Muito bem, Nariz Gelado, muito bom post. Vejo claramente como o assunto é encarado de uma maneira dogmática por muitos brasileiros, sem nenhum tipo de raciocínio lógico. Se você quiser participar do blog que abri, brasilpeloaborto.blogspot.com, por favor me avise e mando um convite por e-mail. A proposta desse blog é defender a legalização do aborto com argumentos coerentes, e vejo que você está com vontade de batalhar este assunto.

Um abraço australiano
Zappi

Posted by: Zappi at março 5, 2007 07:11 AM

Caros NG e demais,

o debate pode ir muito longe, sobretudo quando as opiniões ficam mais, digamos, fortes. Mas é um debate excelente.
Infelizmente, sou obrigado a ler o blog de forma "acumulada", nos finais de semana e com isso, os comentários são lidos sem o tempo de intervalo regular entre uma opinião e outra. Li todas, e também gostaria de compartilhar a minha, sem querer "fazer a cabeça" de ninguém. Em frente.
O post original da NG defende a "decisao de abortar" como um assunto de foro íntimo, e o é, na minha opinião. Seus argumentos são os que eu usaria se alguém quisesse o meu rim em doação, por exemplo. Decisão minha, somente minha (antes que digam algo, sei que um rim não é um feto, mas se uma mãe morre por um filho, posso também morrer pela falta do meu rim, então qual a diferença conceitual?). Tão de foro íntimo como quando duas pessoas juntas, em comum acordo, resolvem que seus óvulo e espermatozóide vão compartilhar um espaço comum. Para falar de aborto, discutimos então o "início" e o "final". A coisa esquenta ao se discutir se o Estado deve ou não ter alguma ingerência sobre ambas as decisões. Está visto que quanto ao "início" o Estado não se mete, ou então, se omite ... ao menos desconheço alguma lei regulando ou criando algum "protocolo" para o sexo (digo aquele entre quatro paredes, sei lá, "normal" ... se for o caso, em havendo, desculpem-me a ignorância). Planejamento familiar parece ser tabu. O Estado, nas escolas, mostra sua "sabedoria" meia-boca optando pelo caminho simplista de distribuir camisinhas para crianças (omissão da grossa, na minha opinião) e não por ensinar. Claro, entre tantas outras bobagens do tipo ao se falar de educação. Daí ser minha crença que ele não é capaz de prover para a sociedade o conhecimento sobre o melhor caminho relativo ao sexo (leia-se sobre o "início").
Sobre o aborto: não existe aborto sem a concepção e a gravidez. Estas são consequencias da tal parte "final", de que falo acima. Sexo sem conhecimento (de biologia) e/ou falta da responsabilidade necessária para encarar o que o "início" gerou, bem, aí a história muda. A única intervenção da lei visa justamente os casos em que o "inicio" não foi por via no mínimo consensual (concepção e gravidez oriundas de estupro tem aborto assegurado por lei, não é mesmo? além do caso de risco de vida da mulher). As consequencias são conhecidas.
Eu penso que o maior problema quanto à decisão abortar versus não abortar é não existir a lei que faça uma definição clara de quando em diante o resultado do óvulo+espermatozóide deve ser (ou é)legalmente uma pessoa. Daí em diante, de forma simplista e, reconheço, até meio tacanha é como uma viagem: voce decide que vai, mas a decisão não implica automática e instantaneamente no deslocamento. Precisa da passagem, passaporte, sala de espera e tudo mais que cerca uma viagem. Mas, embarcou no avião, ele não vai mais parar porque voce mudou de idéia. Até a hora em que fecham a porta, voce tem chance de sair dele. Por que não?
Antes que eu seja mal interpretado na minha opinião: sou favorável à que a mulher (e o "outro" junto!) decidirem se terão o filho ou não, mas somente até um certo ponto. Acho que este ponto não deve ser maior do que o prazo em que a mulher possa correr algum risco maior. Não concordo com o Estado bancando a despesa do aborto. Eu, que pago meus impostos, não tenho _nada_ com a decisão deles dois (ou dela só, se for o caso). Sou pela liberdade de escolha, pura e simples, mas se for irresponsável, dane-se, é o preço que qualquer um de nós tem de pagar quando comete alguma burrice.

Abraço,
LuizF

Posted by: LuizF at março 4, 2007 01:50 AM

Para que o aborto seja considerado algo de foro íntimo, é fundamental uma excelente resposta para a pergunta extremamente pertinente feita pela Ana Luiza: qual a diferença entre um ser com 6, 9, 18 ou 96 meses de vida? O que existe num e não existe no outro que faça com a morte de um seja de foro íntimo e a do outro um ato condenável?

Eu não vejo diferença entre eles e é por isso - só por isso - que eu sou contra o aborto. Não tem nada a ver com religião. No dia em que me provarem, de forma incontestável, que o feto somente se torna um ser humano ao sair do ventre da mãe, serei o mais ardoroso defensor do aborto.

Abraços

Posted by: Claudio at março 3, 2007 09:54 AM

Ana Luiza,

Em primeiro lugar, quero dizer que não há em minhas colocações nenhum interesse em lhe massacrar. Quero apenas demonstrar minha opinião, que diverge da sua.

Em segundo lugar, não falei em nenhum momento que sua vida seja fácil ou que você não cumpra com suas obrigações. Se você entendeu isso do meu texto, peço-lhe desculpas.

Em terceiro lugar, concordo com você que seu trabalho e como você o realiza é um problema seu (sem ofensas). Mas você deve estar ciente que você colocou seu trabalho como o motivo de você escrever do jeito que escreve, e com isso permitiu que esse mesmo trabalho fosse objeto de discussão quanto a isso. Ponto parágrafo.

Agora com relação às suas colocações sobre o aborto:

Em generalizações, sempre que você fala a respeito de uma categoria (seja de pessoas, seja ideológica, seja profissional), os membros daquela categoria tem o direito de se sentirem ofendidos. Assim, ao falar da sua "odiosa" profissão, e que "os que defendem o aborto querem enfiar goela abaixo suas opiniões", sentí-me duplamente atacado, pois sou advogado e sou favorável à permissão do aborto. Só isso. Não sou paranóico.

Quanto a estarmos em um "Tribunal do Juri", devo também discordar. Não estamos julgando um crime doloso contra a vida, mas estamos apenas exercendo nosso direito divino de emitir uma opinião a respeito da modificação ou manutenção de uma lei. Este é um foro de discussão e não um tribunal, onde sairá uma decisão que passará a pautar a vida dos brasileiros.

Quanto à incitação ao crime, não me preocupo. Nem eu, e pelo que relí, nenhum dos outros comentaristas defendeu a realização, nos dias de hoje, de um aborto. O que foi defendido (e atacado) foi a possibilidade de se modificar a lei. Foi uma discussão de opiniões. E por mais que a incitação ao crime seja também um crime, já fazem alguns anos que não existe mais o "crime de opinião".

Por fim, peço novamente desculpas. Me expressei mal. Não foi uma ameaça, um aviso, um alerta ou qualquer tipo de crítica velada. Foi apenas a colocação de alguém que já sofreu algumas conseqüências negativas (graças a Deus pequenas) por emitir opiniões fortes ou impensadas no calor de uma discussão. Foi apenas uma dica de um anônimo (eu) que só quer argumentar, e que não deseja que aqueles com quem conversa sejam penalizados por um deslize.

Cordialmente,

O Editor!

P.S.: Caso deseje se referir a mim pelo meu nome, me chamo Fernando.

Posted by: O Editor! at março 2, 2007 06:50 PM

E vejam também a ironia, a que ponto as coisas chegaram: As pessoas se declaram, aberta e publicamente, favoráveis à prática do CRIME de aborto (art. 124 do código penal - aborto é CRIME no Brasil), muitas inclusive defendem a prática desse crime com bastante veemência, até em aulas em cursos de direito, em artigos publicados em jornais, revistas, na internet, etc. E ninguém fica preocupado por estar defendendo a prática de um crime, nem muito menos com a eventual, mas concreta, possibilidade de serem investigados por prática de incitação ao crime, que também é crime conforme art. 286 do Código Penal. E eu, que afirmo que o aborto é o que é, um crime contra a vida, que causa a morte de um ser humano indefeso e desprotegido, e que por isso não pode ser tolerado, em total consonância com a legislação penal vigente, eu é que tenho que me preocupar com o que digo!
Não é demais?!
Ana Luiza

(N.G.: bem, Ana Luiza...acho que agora ficou claro como é que você argumenta. Todo mundo debatendo e você abana o código penal, ameçando enquadrar o povo por incitação crime...coisa feia. Qual vai ser a próxima? Um "teje preso"? Me poupa, vai.)

Posted by: Ana Luiza at março 2, 2007 04:04 PM

É bom ler textos que abordam a questão do aborto fazendo uma ligação com paternidade responsável. Principalmente se o autor do texto for muito mais jovem que este leitor. A patrulha anti-moral tem dificultado muito, nesses últimos anos, manifestações pró moralidade, respeito, responsabilidade e bons costumes. Parece que para se falar nessas virtudes humanas tem que ser santo se não, não vale.
E lá vem a fulminante “que atire a primeira pedra...” Ora bolas, não se trata de apedrejamento, mas não é melhor defender o bom que fazer apologia do mau ou duvidoso? Quem já mentiu nessa vida está impedido de aplaudir a verdade e condenar a mentira? E enquanto os “moralistas” ficam acuados e sem voz a degradação da sociedade vai se espalhando, a promiscuidade crescendo e a pobreza se tornando cada vez maior. Tudo porque se querem encontrar causas “carimbadas” como a tal “desigualdade social” como se essa não fosse, na verdade, a conseqüência de educação de péssima qualidade, falta de responsabilidade paterno/materna e maus exemplos despejados, às pencas, pelos mais velhos e mais poderosos na cara das crianças e adolescentes. E não estou querendo que o Estado, que é sempre pior que a sociedade, venha obrigar ninguém a fazer nada, mas Nós mesmos, indivíduos, retomarmos o apreço por normas de conduta sadias praticando-as e estimulando as crianças a tanto.
O que de bom pode trazer à auto-estima de uma moça ou mesmo do seu namorado ela se estatelar de costas sobre a tampa do motor de um carro enquanto ele se joga entre as pernas dela, abertas, e lhe aplica um voluptuoso beijo de língua enquanto se movimenta numa demonstração de quase sexo explícito à luz do dia e em plena via pública? Será
que essa atitude a engrandece ou a ele? E aquele pai que altas horas sentado na mesa de um barzinho carrega consigo o filho pequeno, às vezes de colo e que deveria estar no berço, enquanto se encharca de cerveja e ouve e conta piadas de gosto discutível até para um adulto, na presença do filho que não raro é estimulado a dar uma bicada no copo do pai? Será isso responsabilidade paterna? E a menininha que é estimulada a dançar na ‘boquinha da garrafa’ para os aplausos dos marmanjos? É uma contribuição ao seu desenvolvimento e auto-estima? Cenas como essas, corriqueiras hoje em dia, entendo que transmitem mais deselegância e brutalidade do que respeito e consideração com o próximo. Creio, sem ‘carolices’, sem fanatismos, que se as pessoas forem criadas e educadas à vista de atitudes sadias como respeito, verdade, honestidade, pudor (normal) e responsabilidade pelos atos principalmente, ficaria mais fácil então a discussão de temas reconhecidamente complexos como aborto ou maioridade penal. Não estou dizendo que não se deva discuti-los já, só acho que é mais difícil.

Posted by: J.Rodrigues at março 2, 2007 01:12 PM

É, é mesmo difícil essa arte, confesso que estou arrependida e com certeza não pretendo voltar tão cedo a comentar em blogs. Mas tenho que responder mais essa vez, já que parece que estou sendo massacrada por força de mal entendidos. Parece que todos agora se acham que vítimas diretas de minhas colocações, que em nenhum momento foram pessoais.
Usei a expressão "odiosa" a respeito da minha profissão, em razão da maneira com que ela é vista por grande parte de pessoas. Foi apenas força de expressão, só isso, nada mais...daí a colocar palavras que não utilizei e inventar interpretações como vocês estão fazendo, é demais. Também não estou me manifestando aqui para que julguem meu trabalho profissional, isso não é da conta de vocês, isso é problema meu, ninguém aqui paga minhas contas. Também sou uma trabalhadora que pago meus impostos e enfrento todas as dificuldades que todos os brasileiros enfrentam todos os dias para sustentar suas famílias, não tenho qualquer privilégio e minha vida não é moleza não.
Outra coisa, quando mencionei "enfiar goela abaixo" referi-me à campanha patrocinada por alguns grupos da sociedade, dizem até que com contribuições de entidades estrangeiras, para aprovação de projeto de lei cujo objetivo é a descriminalização do aborto, será que vocês estão desinformados a esse respeito? Há o sério risco dos representantes no Congresso aprovarem um projeto que não corresponde à vontade do povo brasileiro, já que todas as pesquisas de opinião já realizadas revelam que a imensa maioria do povo brasileiro é contra o aborto. Só isso, não me referi a nada mais do que isso, e lá vem o outro ofendido achando que eu estou me referindo a ele, pessoalmente!
Parece que todos são tão sensíveis a qualquer colocação que se faça nesses comentários, é engraçado que vocês mesmo admitem que podem mudar o modo de pensar a respeito do assunto, então é isso, reflitam! Até agora ninguém respondeu: qual a diferença entre um ser que está há algumas semanas, ou mesmo meses, do nascimento, e de outro que acabou de nascer, de modo a autorizar o extermínio de um, mas proibir que se mate o outro?
Como podemos ser a favor de um suposto "direito de escolha", quando essa escolha importará em eliminar a vida de uma outra pessoa? O direito de um não pode pressupor a violação do direito do outro, não é óbvio? A maneira que faço essas colocações é uma maneira de provocá-los à reflexão, mas obviamente não tem qualquer conotação pessoal, será que é mesmo tão difícil perceber isso?!
E estamos aqui sim, como num Tribunal do Juri, já que estamos julgando o suposto "direito" de cometer homicídios, crimes contra a vida.
E essa ameaça final: peço que tome cuidado com o que escreve, pois isso pode lhe causar sérios dissabores...que quer dizer? Não sei porque lembrou-me um gostinho por censura...e eu nem mesmo cuidei de me proteger com um pseudônimo como tantos outros...
abraços
Ana Luiza

Posted by: Ana Luiza at março 2, 2007 10:24 AM

Aproveitando que já comecei a escrever, quero finalizar com o que penso:

Como bem disse o Ângelo, eu também rejeito a minha inclusão na "sociedade criminosa, que mata milhares de crianças".

Em primeiro lugar, porque Sociedade não mata. Atos matam. Pessoas matam. "Sociedade" não mata ninguém.

Em segundo lugar, porque rejeito totalmente a idéia de que a "sociedade" no geral, e eu em particular, sou culpado pelos meninos de rua, pela morte de crianças ou velhos, pela escravidão dos povos africanos. Não sou culpado pelos meninos de rua, não sou culpado pela morte de crianças ou velhos, não sou culpado pela escravidão dos africanos. Rejeito todas essas pechas imbecis.

Querem socializar a culpa? Comigo não, violão! Não tenho culpa nenhuma nisso. Não piloto barco de escravos. Não sou corrupto. Trabalho como um louco para ganhar o dinheiro que tenho. Pago meus impostos. Aprendí e tento ensinar para quem eu posso os valores de honestidade, respeito e trabalho duro. Espero um dia poder ensinar isso aos filhos que terei.

Elegí e elejo governantes para cuidar da sociedade. Para que eles façam justiça social. A sociedade deve fazer justiça social cumprindo as regras. Sendo honesta. Trabalhando. Auxiliando o próximo. O resto é trabalho dos governantes.

Não espero que ninguém faça o meu trabalho. Ele é meu. Mas também não vou carregar os outros nas costas só porquê são preguiçosos e não querem fazer seu trabalho.

Eu sou culpado das coisas que fiz e do que me omiti. Só. Não sou culpado pela falta de coragem, trabalho ou hombridade de terceiros.

O Editor!

(N.G. Obrigada, Editor! Você se expressou, nas duas colocações que fez, mil vezes melhor do que eu.)

Posted by: O Editor! at março 1, 2007 07:54 PM

Ana Luisa,

Iniciei este post já umas quatro vezes hoje. E em todas eu apaguei pois achei que não era necessário escrever um post desses e que não faria sentido levar uma interpretação pessoal (minha) de suas palavras a discussão.

Mas agora preciso escrever. E vou começar do final de seus textos.

Em primeiro lugar, não desejo "enfiar goela abaixo" de ninguém os meus julgamentos e/ou opiniões. Quero a possibilidade de discussão dos assuntos. Não gosto de generalizações. Assim como acredito que você não goste.

Em segundo lugar, você afirma "somos obrigados a concluir que não, não é possível ser favorável ao aborto". E você já havia dito que "espero uma posição no mínimo responsável sobre essa questão, que não pode ser tratada com leviandade e superficialidade". Recuso ambas as análises. É possível ser favorável ao aborto. Eu sou. A favor da livre escolha. E a favor de que quem assim procede assuma todas as conseqüencias físicas, psicológicas e espirituais de tal escolha. E não trato isso com leviandade, de forma irresponsável. Você pode ter se expressado mal na primeira vez. Teve outra chance e não se retratou pela expressão equivocada. E agora repete que "não é possível ser favorável ao aborto", deixando antever a hipótese de quem é favorável ou é um inconsequente ou está mal-intencionado. Não sou inconsequente. Não estou mal-intencionado. Tenho o meu ponto de vista e ainda não decidi mudar. Talvez mude um dia. Ou não. Mas não sou inconsequente nem irresponsável por isso.

E em terceiro lugar, quero dizer o seguinte: Por todos os sesu comentários, pelo jeito que escreve, acredito que você seja advogada (ou formada em direito). E como advogada, você tem a obrigação de escrever de forma clara, objetiva, e buscando sempre um entendimento, e não uma disputa. É isso que faz o advogado (salvo em casos específicos no tribunal do juri). Logo, não procede seu argumento de que sua resposta tenha sido interpretada por causa de sua "odiosa" profissão.

Aliás, você pode muito bem odiar sua profissão e querer fazer outra coisa de sua vida. Isso é um direito (e também um problema) seu. Mas com certeza sua profissão não é odiosa. Existem advogados odiosos? médicos? engenheiros? Sim. Mas Advocacia, Medicina e Engenharia não são odiosas por isso. Não sou um profissional odioso, e minha profissão não é odiosa. Odioso é ser Assassino. Traficante. Sequestrador.

Peço que você tome cuidado com o que escreve, pois isso pode lhe causar sérios dissabores, e não apenas reclamações de um desconhecido em um blog.

Abraços,

O Editor!

Posted by: O Editor! at março 1, 2007 07:14 PM

Nariz,
Continuando com o meu acompanhamento do Placar.
N.G. 2 x 1 Adalberto. Apesar do 2 a 1 eu não considero um aderrota. A sua argumentação está provocando verdadeiras "brain storms", instigando muitos dos seus bloggers a rever aquelas certezas "universitárias".

Posted by: Adalberto Braga at março 1, 2007 05:15 PM

NG,
Tenho calafrios quando leio alguém defender a intervenção do Estado em assuntos de foro íntimo. De duas uma: ou ignoram, ou não entendem que está escrito.
Gosto de seus argumentos. Belo post.

Posted by: Debora at março 1, 2007 04:00 PM

Não, N.G., não fiquei ofendida não, só mesmo chateada, pois a idéia inicial era de contribuir para uma evolução do pensamento nessa matéria. Infelizmente errei no modo de argumentar (acho que em razão de cacoetes desta minha odiosa profissão) escolhi mal as palavras, e deu no que deu, o que foi mesmo uma pena.
Pois quando eu era mais jovem, há muitos anos atrás (e imagino que você seja bem mais jovem do que eu), eu também pensava (pensava, não, repercutia as idéias em voga) que o aborto é uma questão de opção pessoal da mulher, quem não quer, que não faça, mas que deixem os que quiserem fazer que façam, blá, blá, blá. Até que um dia (um determinado dia, lembro-me perfeitamente do exato momento) resolvi refletir de verdade, por mim mesma, sobre o assunto, e me dei conta do óbvio: aborto implica em tirar a vida de um outro ser humano, sem direito a nada, nem qualquer tipo de defesa, nem sequer através do choro.Tão simples e tão evidente assim, e tão óbvio, como eu não enxergava isso antes? Como as pessoas não enxergam isso? Que diferença há entre um ser humano com poucos dias ou semanas de vida, e de outro com alguns meses a mais, e de outro com mais de nove meses, já nascido? Qual a diferença que autoriza um tipo de raciocínio em favor da defesa intransigente do direito à vida de um, e outro raciocínio totalmente contrário, oposto, inverso, em prejuízo da vida do outro?
De repente isso ficou tão claro para mim, como a luz do dia, e não houve mais qualquer dúvida. De lá para cá,muitos anos, dois filhos a mais (hoje são quatro, infelizmente tão poucos, se eu não tivesse sido tão estúpida poderiam ser seis ou mais - eles são o sol da minha existência) tudo é cada vez mais claro. E quando a gente toma conhecimento dos detalhes sórdidos envolvidos nos procedimentos abortivos realizados nas clínicas, nos países em que a prática é legal, mais ainda somos obrigados a concluir que não, não é possível ser favorável ao aborto. É admissível ser a favor da pena de morte, que implica em conceder direito de defesa a adultos acusados de crimes, mas ser a favor do aborto, não, não dá, com perdão dos que pensam o contrário.
E como cidadãos, por que deveríamos nos calar diante da campanha velada, subreptícia, que apesar da opinião contrária da imensa maioria dos brasileiros, quer nos "enfiar goela abaixo" a descriminalização do aborto?
Bem, era só isso que eu queria acrescentar.
um grande abraço, e mais uma vez desculpe-me pelo mau jeito.
Ana Luiza

Posted by: Ana Luiza at março 1, 2007 02:37 PM

Uau!
Desculpe-me por tudo, não quis provocá-la assim, acho que você está muito da defensiva, N. G., parece que esse assunto mexeu muito com suas emoções. Não está mais aqui quem falou...
"covarde defensora de crimes bárbaros, assassina dos problemas sociais e petistas"?!!!...ora, ora, que imaginação fértil!
bem, depois dessa, claro que a porta da rua é a melhor opção.
um grande abraço, e boa sorte!
Ana Luiza

(N.G.: Não, Ana Luiza...Não foi com as minhas emoções que o assunto mexeu. Não sei se mexeu com as suas - não gosto deste subterfúgio para driblar a falta do que dizer. Mas é fato que você, ao ler a minha declaração inicial favorável à legalização do aborto - e meu aviso de que falaria mais tarde sobre o tema - , não esperou para fazer um comentário enorme no post intitulado "Empurrando com a barriga". O comentário e as acusações, estão lá, disponíveis, para quem quiser comprovar que não sou eu que tenho imaginação fértil. É você que é rápida em rotular. A porta se manterá aberta para você. Não tenho problemas em receber críticas. Apenas me dou ao direito de respondê-las no mesmo tom que as recebo. Não raro, nestas ocasiões, quando são confrontados com o mesmo nível de agressividade com que se dirigiram a mim, os leitores se sentem ofendidos e vão embora. Como diz o velho ditado, "pimenta nos olhos dos outros é refresco".)

Posted by: Ana Luiza at março 1, 2007 10:43 AM

Nariz, você diz que não há sentido "comparar" aborto com pedofilia. Eu digo que há sentido sim. Não faz sentido "equiparar" os dois crimes ( sim, pois ainda é crime o aborto, exceto nos casos em que envolvem riscos físicos e psicológicos à gestante ).
Você também diz que o usuário de drogas pode se tornar um inútil e dar gastos ao sistema de saúde. Vamos lá, os casos que citei são diferentes: Não estou falando de miseráveis que usam a droga como fuga da desgraça, estou falando dos que usam droga como até questão de status em certos círculos sociais. Estes de que falo jamais entrariam num hospital público. Podem se degenerar no vício ao ponto de não se recuperar? Sim, é verdade. E o que dizer de uma mãe que se arrepender do aborto? E o que dizer de um casal que, num momento de dificuldade financeira, recuse-se a dar à luz um bebê e, tempos após, recuperados, lamentem-se e culpem um ao outro pela escolha?
Vou deixar uma pergunta aqui para todos: Vocês conhecem alguém que já matou outra pessoa? Já conversaram sobre o assunto? Pois todos nós falamos "Ah, se eu pego tal bandido eu mato". Não duvido que a maioria de nós faria isto. Porém, qual de nós teria estrutura para conviver com este ato pelo resto da vida? Repito de outra forma: Perguntem a algum policial que já teve que matar alguém. Ou então, perguntem a alguém que se envolveu em acidente de trânsito com vítima fatal.
O aborto não é uma decisão sem consequências. Fisica e psicologicamente a mulher ou o casal o carregarão para o resto da vida. Assim como no caso da droga, pessoas podem ficar irrecuperáveis por tal escolha.
Eu acompanhei com especial interesse o referendo sobre Descriminalização do aborto em Portugal. Nas últimas semanas, quando era inevitável a vitória do "SIM", uma das heroínas da esquerda portuguesa, em um canal de televisão, tratando dos efeitos psicológicos em quem aborta chegou ao cúmulo de falar que abortar provoca reações semelhantes às de quem termina um namoro: Sofre-se no começo mas depois a vida segue adiante. Eu duvido que vocês todos a favor do aborto pensem desta forma, não é mesmo?
Insisto na questão principal: A Lei deve se guiar pelo que uma sociedade, em seu tempo, considera certo e errado. E o Estado, neste caso, deve sim "invadir" a individualidade. Aceitamos que as pessoas bebam, não é mesmo? Os países muçulmanos não. Por outro lado, lá eles aceitam que um homem tenha várias esposas. Se vamos legalizar o aborto, então devemos pensar: É uma coisa certa? É uma coisa boa? É uma coisa aceitável? Minha resposta é não.

(N.G.: Ângelo, só para lembrá-lo que, hoje, os hospitais públicos que fazem o aborto permitido por lei - em caso de estupro ou de risco de vida para a mãe - dispõem de assistência psicológica para as pacientes a fim de auxiliá-las tanto na tomada de decisão quanto nos efeitos dela advindos. Respeito a sua posição. Mas acho que você deve tomar um certo cuidado em não aceitar tão facilmente a idéia, muito utilizada por quem não aprova o aborto, de que quem é a favor está a pregar um "liberou geral" desmiolado e inconseqüente.)

Posted by: Ângelo da C.I.A. at março 1, 2007 10:12 AM

Prezada NG,
Bastou eu comentar que as pessoas deveriam refletir mais a sério sobre o que está envolvido no aborto, para você vociferar contra os meus comentáros, dizendo que eu estou sugerindo que você emite opiniões sem refletir pelo fato de que suas opiniões vão contra as minhas. Ora, eu não sugeri nada disso, não mesmo, falei em termos gerais, e não estou errada sobre isso, basta conversar um pouco com as pessoas para você ver quantas coisas sem fundamento são ditas a respeito desse e de outros assuntos que deveriam ser tratados com maior seriedade. Mas quem disse que estamos num país que trata qualquer coisa que não seja carnaval com seriedade? Bem, esse já é outro problema.
Obviamente quando falamos do direito à vida, ou do suposto "direito" de tirar a vida de outras pessoas, não se trata de matéria que está sujeita a uma mera opinião pessoal, não se trata da "minha verdade" ou da "sua verdade".
Aliás, você é que parece não aguentar uma opinião contrária aos seus sacrossantos pontos de vista. Engraçado é que você mesmo disse que já mudou de opinião sobre a possibilidade de vir a praticar um aborto, e admitiu que pode avançar ainda mais!
Ok, está tudo bem, o blog é seu mesmo.
Mas você falou, falou e não respondeu à questão: qual a diferença entre um bebê que acabou de nascer, e deve obrigatoriamente ter sua vida protegida pelo Estado, e aquele que ainda não nasceu?
A diferença está somente em que um bebê já nascido pode ser visto e desperta as reações emocionais, de proteção, dos outros, e aquele que está no ventre de sua mãe ainda não pode ser visto, e assim, não desperta a nossa sensibilidade?
Não sei se você vai querer responder, nem precisa.
Eu só queria entender melhor isso...
abraço
Ana Luiza

(N.G.: Ana Luiza, as opiniões a respeito deste tema são muitas. Por esta razão, onde o aborto não é criminalizado, há um limite de tempo para realizá-lo. De resto, já vejo a hora em que o Estado vai passar a exigir certidão de uterina, a fim de melhor garantir os direitos daqueles que ainda não vieram ao mundo. Talvez os pais já possam até receber salário família por conta da promessa de um filho. Enquanto isso, o mesmo Estado pode ir se dando ao luxo de negar o direito de dipôr sobre o próprio corpo àquelas que já nasceram e se tornaram mulheres. Poderá, também, se dar ao luxo de manter o caos social advindo da maternidade indesejada. Mas quem se importa com as vidas que aí estão, quando há tantas, sempre tão disponíveis, por nascer? Quanto a "vociferar", sugiro que você releia, prestando muita atenção ao tom com o qual se dirigiu a mim, o seu primeiro comentário de ontem. Para usar uma expressão que você usou: "Qualquer pessoa medianamente inteligente" sabe que aquele seu comentário, dirigido pessoalmente a mim, não era um convite ao debate. Era um ataque preventivo, uma tentativa de intimidação recheada de pré-conceitos: "covarde defensora de crimes bárbaros, assassina dos problemas sociais e petista", foram algumas das gentilezas que você me dirigiu antes mesmo de ler a minha opinião )

Posted by: Ana Luiza at março 1, 2007 09:37 AM

Ultimamente o ser humano anda tão desprezível, que até tomatinhos e abobrinhas me sensibilizam mais. Mas, claro que é uma bobagem isso que eu disse, afinal eu sou um "serumano" também, logo sou desprezível. Ninguém , repito, ninguém é a favor do aborto. Ninguém chega e diz: "oba hoje vai ter aborto, que bacana". Apenas tem que ser um direito para o "serumano" escolher, não o Estado. O que o Ruy disse faz sentido, mas tentando sair do sofisma, questiono não só o subsído ao MST, mas também as pensões para quem "combateu" a ditadura. E, Maria Helena, estou com você.

Posted by: j at março 1, 2007 09:26 AM

O Governador do Rio também está querendo descriminalizar, ou seja, liberar o uso de drogas para combater a violência. Então está fácil resolver todos os problemas:
1) Controle de natalidade: libera o aborto
2) Tráfico de drogas: libera o uso de drogas
3) Problemas habitacionais: libera as invasões (já estão liberadas)
4) Violência no trânsito: descriminaliza os atropelamentos
5) Corrupção de políticos: já está descriminalizada
É fácil. Só não sei aonde iremos parar...

(N.G.: assim fica difícil. Nenhum dos temas que aqui se discute é um crime deliberado, sem um efeito positivo que possa sustentar a argumentação em seu favor. Estamos discutindo saídas para problemas - todas em vigor em alguns países desenvolvidos.

Posted by: Zanco at março 1, 2007 07:44 AM

Esse é um tema que só interessa ao casal envolvido ou à mulher, se não tiver um companheiro ao seu lado.

Ao governo cabe fornecer clínicas especializadas na saúde da mulher, com bons médicos e terapeutas.
Clínicas que atendam às mulheres, lhes ensinando como evitar filhos, se esse é seu desejo. E ajudando-as, caso engravidem e não queiram levar a termo essa gravidez, seja por que motivo for.

Não cabe a nenhum governo determinar coisa alguma a esse respeito, como também não é direito dos governos cederam à pressão das religiões.

Quem professa uma religião, segue seus preceitos. Quem não professa, será obrigado a respeitar os postulados nos quais não acredita?

A hipocrisia nessa área nos trouxe para o beco sem saída em que estamos...

Posted by: maria helena rubinato rodrigues de sousa at março 1, 2007 12:28 AM

Olá NG, é um tema polêmico esse! O aborto é assunto para discussão infinita. Até onde eu sei a legislação permite o aborto terapêutico como resultado de crime hediondo de estupro.

Mas, se a pessoa adulta (na minha opinião, após 16 anos) teve relação voluntária o Estado deve sim interferir em sua liberdade de poder ou não abortar por um motivo muito simples: para evitar que uma indústria se construa em torno disso. Você fala no lado pessoal, como mulher. Mas é preciso pensar como Estado. E uma das funções do Estado é desencorajar indústrias que sejam nocivas à sociedade. A indústria do aborto sería ruím para o Brasil. Argentinos, Uruguaios, Paraguaios viriam aqui para abortar. Havería menos cuidado com o sexo, enfim....

É mais barato liberar as drogas. Mas é ruím pro país. A Holanda é um exemplo disso, quem já passou naquela praça e viu o horror daquilo alí passa a ser contra a legalização das drogas. Então o Estado gasta uma fortuna no combate aos narcóticos. Mas pessoalmente penso como o Gabeira, libera já. O problema é que só 1 em 1000 brasileiros tem a cabeça do Gabeira.

E 1 em 1000 tem a sua cabeça. Portanto acho legal você se manifestar quanto a isso, mas discordo respeitosamente. Acho que o Estado tem que interferir em certas coisas, e essa é uma delas. Num futuro, tomara próximo, poderemos liberar tudo. Mas hoje, com a educação que nosso povo tem, com o consumo de coisa vagabunda como esse big brother, esse povo atual não tem condições de decidir sobre esse tipo de coisa. Converse com gente simples na rodiviária, converse com moradores de rua que tem 8 filhos...pergunte se eles tem noção alguma de qualquer coisa... Não tem. Entao o Estado tem obrigação de ter...

Essa é uma das mazelas do capitalismo, se é legal então haverá uma indústria para acompanhar tudo o que é legal. É assim que os EUA avançam tão rápido em tudo... A questão é mais mercadológica do que humana.

Abraço. Zé

PS >> Quando se dá preview no comentário o campo numérico some e se torna imposível postar!

(N.G.: Melo, éste problema do código numérico é um mistério até agora insolúvel. Mas eu acho que você não entendeu muito bem o que eu escrevi. Aquilo que você chama de minha "opinião pessoal, como mulher" é a de que eu, pessoalmente, não faria aborto. Então você diz: " mas é preciso pensar como Estado". Sim, foi justamente o que fiz, Melo - e acho que minha condição de mulher não não me incapacita para a tarefa, certo? Pois é justamente quando penso numa questão de Estado que me torno favorável à legalização. Quanto às drogas, respondi abaixo ao Ângelo: comigo não tem "pacotão" - não é porque sou a favor da legalização do aborto que preciso sê-lo também das drogas. Já pelas suas colocações a respeito da falta de consciência, me parece que você passou batido pelo fato de que eu venho pregando, há dois posts, uma campanha de conscientização a respeito de paternidade - e que só por isso chegamos a questão do aborto. Porque se vamos falar de "indústrias" precisaremos admitir que a de miseráveis vai de vento em popa. Um abraço.)

Posted by: Zé Melo at março 1, 2007 12:04 AM

Vamos lá. Resumindo sua idéia, você acha que o Estado não deve se meter em uma questão de foro íntimo. Eu penso diferente: O Estado deve sim nos privar de muitas perversões "de foro íntimo". Exemplos: Há pessoas que cheiram cocaína e não fazem mal a ninguém pois têm dinheiro bastante para comprá-la. Há outros que usam heroína. É uma decisão pessoal degradar sua vida nestes vícios, não é mesmo? Se me permita o exagero absoluto e grotesco: Pode o Estado se meter na vida de um pai que, por alguma bizarrice, decide ter relações com sua filha menor de idade? Afinal de contas, é uma questão familiar e o Estado não deveria se meter em questões familiares.
Citei dois casos distintos para tentar definir quando o Estado deve intervir, por via das Leis, em questões individuais. No caso da droga, questão absolutamente individual. No caso do pai pedófilo, uma questão que envolve outro ser humano que, na maioria dos casos, não tem condições de se defender. Tanto para um caso como outro, o Estado cria regras baseadas no norte moral de uma época e população. Hoje, ainda achamos um "crime" alguém cheirar cocaína. Já não somos mais assim com relação a quem fuma maconha, que nem mais fica na cadeia ( Parêntese: Você pode fumar, mas não pode vender ou comprar. Logo, uma Lei perfeita e congruente deveria obrigar todos pegos com maconha a provar que plantaram e colheram sua própria erva, não é mesmo? ). A evolução humana nos mostrou que o sexo entre familiares é errado, tanto no campo moral quanto biológico. Entre pais e filhos crianças então, a questão é de uma violência intolerável para nossa época.
Hoje não toleramos o racismo. Em outras épocas, o conceito de raças era muito bem difundido e assimilado. Hoje qualquer ato racista é crime.
Tudo isto para dizer: Se um ato é considerado "errado", ele deve sim ser considerado um crime. O Estado tem sim, neste caso, o direito de intervir na decisão do indivíduo. O Aborto, que você acharia errado para você, é um ato de foro íntimo mas que envolve uma outra vida. Ou todos aceitamos o aborto como uma prática normal, tolerável, até mesmo indicada e portanto liberada em clínicas públicas, ou que continue a ser tratado como crime.

P.S.: Sou fã e sempre respeitei as opiniões do "Coronel". Mas, o que ele escreveu agora "Aborto é uma decisão de foro íntimo e, nesta hora, Deus que vá para o inferno!" é de uma grosseria desnecessária. No mais, neste meu comentário falo sobre foro íntimo. Repito: Cheirar cocaína é questão de foro íntimo também. Outra coisa: Me exclua por favor desta " sociedade criminosa, que mata milhares de crianças de fome e guerra todos os anos, ". E tome cuidado com o Ruy Goiaba, dia desses ele escreveu sobre a consulta que fez ao advogado dele para processar todos aqueles que culpam a "sociedade" pelos crimes graves que nos têm acometido.

(N.G.: Desculpe, Ângelo, mas comparar aborto com pedofilia não tem cabimento - só se for para cobrar àqueles que parecem ótimos na hora de defender crianças que ainda não nasceram mas se fazem de cegos quando as crescidinhas sofrem este tipo de abuso em suas sagradas instituições. Quanto a liberação das drogas, sou contra na medida em que não é uma questão de foro íntimo, ao contrário do querem dar a entender por aí: pelo comprovado efeito degenerativo das mesmas, o cara se não pesar ao social porque se torna um inútil improdutivo, acabará, cedo ou tarde, pesando - no mínimo para o sistema de saúde, no maximo por provocar acidentes. Já temos o alcool fazendo seus estragos, não precisamos de mais drogas liberadas.)

Posted by: Ângelo da C.I.A. at fevereiro 28, 2007 11:53 PM

Nariz, desculpe, mas sua resposta é ruim (só não chamo de "sofisma" porque minha intenção não é ser ofensivo, nem de longe). Você está comparando coisas que não podem ser comparadas.

Em primeiro lugar, porque a gente subsidia estradas e escolas para que elas existam, o que é óbvio. E às vezes, veja só, isso até acontece: eu mesmo fiz quatro anos de universidade pública. De todo modo, você está tratando o desvio -subsidiar estrada que não existe- como se a norma fosse pagarmos impostos por não-estradas (e não é, por mais freqüentes que sejam os desvios). Isso é uma distorção. Imagine o Congresso, por mais pulha que seja, votando um imposto oficialmente destinado à não-escola. :) Não dá, acho.

Em segundo lugar, a gente subsidia a Justiça -e nem há como ser diferente, acho; o serviço tem de ser público-, não a decisão fortuita de um juiz que soltou o futuro assassino do João Hélio. De novo: você está argumentando como se a exceção fosse regra. Por fim, tudo isso é diferente de uma pessoa subsidiar o que considera assassinato -e isso, explicitamente, como REGRA (o governo passará a fazer abortos na rede pública e seus impostos financiarão essas operações). Vale o mesmo, evidentemente, para os contrários à pena de morte no caso de ela ser adotada um dia. Veja, eu não estou defendendo nem condenando nada aqui: só estou apontando o que vejo como problema.

O único exemplo realmente análogo que você deu na sua resposta é o subsídio ao MST -que, afinal, é um bando de bandidos. E eu sou contra, acho um escândalo. :) Beijos.

(N.G.: Ruy, você tem razão: sofismei feio - e jamais me sentiria ofendida por ser flagrada derrapando. Mas aí, neste caso, nem ao MST se aplica, já que o mesmo não existe legalmente e recebe nosso dinheiro por... por quê mesmo? Beijo)

Posted by: Ruy at fevereiro 28, 2007 11:36 PM

Nariz: como sempre, seu post está ótimo. Aliás, um artigo de primeira. Mas eu sou completamente favorável ao aborto e ao controle da natalidade absoluto. E esta é uma questão que os arautos do apocalipse, por conta do efeito estufa, não colocam em pauta. Só o controle rigoroso da natalidade será capaz de conter a produção dos gases que provocam o efeito estufa. Mas devo assinalar também que não dou a mínima importância para esse tal efeito estufa. Como não levo a sério nenhum ambientalista, pois os considero os maiores picaretas que já apareceram no planeta.

Posted by: Aluizio Amorim at fevereiro 28, 2007 10:25 PM

NG,
Antes de tudo quero expressar meu apoio aos dois últimos posts.

O que tenho a comunicar talvez não seja passível de publicação como comentário mas gostaria de colocar p/vc o que acabo de encontrar no site do Olavo de Carvalho.
Diz respeito a um pedido de doações que Olavo faz, para expandir seu trabalho nos EUA.
Estamos tão acostumados a tocar nossa vidinhas e nada mais que manifestar pela internet nossa repulsa pelo que estamos vivendo, que talvez a grande maioria não entenda o que Olavo propõe.
Olavo de Carvalho já incorporou a cultura americana e lá o seu pedido é absolutamente natural, diferente de nosso meio que já olha com desconfiança qualquer atitude como a que ele expressa.
Portanto, gostaria de convida-la a ler o que ele escreveu em www.olavode carvalho.org/donation.html
Caso seja possível, ajude-me a divulgar.
Um grande abraço.
Precisamos de mais, muito mais do que estamos fazendo.

Posted by: Bee at fevereiro 28, 2007 07:57 PM


Bueno, a decisão dos assassinos do menino João também foi de "foro íntimo" e nem por isso pedimos que sejam "liberados"...

Por uma questão de lógica, se liberarmos o aborto para o "foro íntimo" devemos liberar a pena de morte, de preferência também para "foro íntimo".

Pobre feto, que já ganha até causa de torturado político na justiça, mas não é capaz de se proteger contra a própria mãe e o pai, que não puderam segurar a perereca e o pinto... O feto vai ter que pagar pela falta de cuidado dos pais? Sempre a culpa é dos outros. Ninguém quer assumr suas responsabilidades.

Eu não vejo diferença entre matar um concebido na barriga da mãe ou depois que sair...

Posted by: Soube? at fevereiro 28, 2007 07:22 PM

Nariz, querida,

acho que a questão está muitíssimo bem colocada no seu post. Mas faltou um aspecto que me parece fundamental.

Não se trata apenas de o Estado permitir que a pessoa decida (e esse já é um ponto importante: a "pessoa" não pode "decidir" se assassinato é crime ou não, ou se uns assassinatos são "mais crime" do que outros. Apenas "o Estado permitir que a pessoa decida" já significa, na prática, dizer que aborto não é assassinato. Mas nem é esse meu ponto principal aqui. Adiante).

Se o aborto for descriminalizado, seja quais circunstâncias forem, isso implica uma coisa: gastos públicos. Ou seja, implica que os hospitais da rede pública possam fazer esse tipo de operação -e suponho que a demanda por isso neles será grande, se a medida acontecer. Os contribuintes contrários ao aborto, seja por que motivo for, vão subsidiar o que para eles é assassinato?

Questão espinhosa, como se vê. Beijo grande.

(N.G.: é da natureza da vida social que subsidiemos coisas com as quais não concordamos, Ruy. Eu subsidio estradas que não existem, subsidio escolas que não ensinam; subsidio o MST até o fdp do juiz que liberou o assassino do João Hélio. Beijão prucê também)

Posted by: Ruy at fevereiro 28, 2007 06:56 PM

Nariz:

Está na hora de escrever sobre liberdade, no sentido mais amplo da palavra. Liberdade de idéias, de expressão, de opinião, de análise, liberdade, liberdade, liberdade. O blog de repente ficou estranho. Bastou falar e calar um pouco mais fundo, saindo da escrotidão da política brasileira, e sobraram poucas pessoas para dizer: "respeito a sua opinião,Nariz, mas penso diferente, da seguinte forma...". Ao contrário,tem muita gente optando por abortar o livre pensar dos outros. Em nome de Deus. Em nome da tradição, família e propriedade. Em nome da sua formação judaico-cristã.
Aborto é uma decisão de foro íntimo e, nesta hora, Deus que vá para o inferno! Aborto tem hora para fazer - tanto fisica quanto psicologicamente, e ninguém está pregando enfiar uma agulha na cabeça de um ser humano, indefeso no ventre materno. Aborto por estupro. Aborto por stress. Aborto por medo. Aborto por insegurança. Aborto por decisão individual ou do casal. Antes de se erguer contra o aborto, que esta sociedade criminosa, que mata milhares de crianças de fome e guerra todos os anos, que vá rever os seus valores.Comecem condenando os milhares de padres pedófilos que fazem sexo sagrado com criancinhas. Porque é muito fácil vomitar moral e bons costumes em cima da barriga de uma mulher indefesa, fraca, desesperada,sem futuro, sem amor, sem carinho, sem família. Quero ver terem coragem para enfrentar baionetas, injustiças, explosões de bombas, para salvarem criancinhas raquíticas, famélicas, esqueléticas, mortas diariamente pela fome e pela peste nas áfricas brasileiras, que poderiam encher valas e mais valas de cadáveres, vítimas de verdadeiros crimes contra a humanidade. Existem crianças nascendo para morrer, todos os dias. Milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares. Ah, mas possivelmente elas vão para o céu!!!

Um beijo aí, Nariz!!!

Posted by: Coronel at fevereiro 28, 2007 06:29 PM

Não há como deixar de observar que muitas pessoas se declaram favoráveis ao aborto como um ato que depende apenas da consciência pessoal de cada um, sem fazer uma reflexão um pouco mais aprofundada sobre o que isso significa realmente.
A partir da concepção, do encontro do espermatozóide e óvulo, e suas primeiras divisões, temos um novo ser humano. Não estará sendo gerado uma abobrinha, nem um tomate, ou qualquer outro tipo de criatura. Dali só resultará um ser humano. E como um ser humano, não interessa qual estágio de seu desenvolvimento, é sujeito de direitos desde a concepção. E qual o primeiro dos direitos, o direito por excelência, senão o direito à vida? Para que serviriam os demais direitos, se o primeiro deles não estiver assegurado? Felizmente, apesar desses posicionamentos apressados e superficiais de tantos que consideram a questão do direito à vida dos nascituros algo que possa estar sob a decisão de sua genitora que o abriga temporariamente em seu ventre, recentemente o Poder Judiciário tem se posicionado claramente em favor do reconhecimento dos direitos dos nascituros, inclusive quanto a sua legitimidade para ajuizar ações em defesa de seus interesses, como recentemente decidiu o Tribunal de Justiça de São Paulo, reconhecendo a capacidade postulatória de nascituros. Em outra decisão, o tribunal de justiça gaúcho reconheceu o direito a alimentos ao nascituro, a partir da data provável de sua concepção.
Assim as iniciativas de descriminalização do aborto e de implantação dessa ignominiosa prática em qualquer tempo de gestação felizmente não prosperarão em solo pátrio, já que em evidente violação ao princípio constitucional que garante o direito à vida a todos, mesmo aqueles que se encontram na fase de vida intra-uterina. Pergunto: se todos concordamos que não podemos matar um bebê que acabou de nascer, porque alguns acham que pode ser considerado legal tirar a vida de um bebê alguns momentos antes do nascimento, ou alguns dias ou até meses antes? Qual a diferença conceitual que autoriza o entendimento favorável à eliminação de uma vida momentos antes do nascimento, mas não logo após?
Nesses tempos de tanta violência e de tantos absurdos, precisamos refletir sobre o significado do respeito incondicional à vida humana, da dignidade do ser humano que não depende de mais nada, somente disso: ser humano. Nenhum ser humano vale mais do que outro, a dignidade do ser humano não depende de sua capacidade produtiva nem de qualquer outro atributo. Um ser humano deve ser respeitado integralmente somente por se tratar de um ser humano. Se queremos uma sociedade melhor, devemos começar a refletir a sério sobre essas questões.
Cordiais saudações
Ana Luiza

(N.G.: Ana Luiza, é a segunda vez que você sugere que eu emito opiniões sem refletir pelo simples fato de que as minhas opiniões vão contra as suas. Isto é uma demonstração clara de que você não quer debater. Você quer impor a "sua" verdade. Com este posicionamento não há debate. Portanto, se o nível de argumento é esse, vamos lá: abobrinhas e tomatinhos podem crescer abandonados sem causar danos a sociedade. Crianças não. E nem é justo - ao contrário, me parece tremendamente hipócrita - condená-las a tal coisa. )

Posted by: Ana Luiza at fevereiro 28, 2007 05:16 PM

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