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fevereiro 27, 2007
Crescei e multiplicai-vos
Este, só pelo título, já vai dar encrenca. Mas vamos em frente, pois há muito a ser dito - e um tanto mais de hipocrisia a ser combatida.
Se o ômega da crise de responsabilidade a que me refiro no post anterior é João Hélio sendo trucidado ao longo de infernais sete quilômetros, seu alfa é aquele facilmente identificável, mas raramente debatido: a irresponsabilidade primeira, que consiste no nascimento daquela antiga "célula social", a família.
"Crescei e multiplicai-vos" é a expressão bíblica que, na gestação desta crise, teve sua primeira e providencial palavra esquecida. Deixemos de lado a escatologia e vamos diretamente à sua mais simples interpretação: "crescei e multiplicai-vos". Notem que não é " multiplicai-vos e crescei". Também não é só "multiplicai-vos". Está claro como a água do mais puro lago: a paternidade só deve vir quando houve crescimento, ou seja, quando aqueles que se apresentam para a tarefa de dar seguimento à espécie já atingiram determinado grau de maturidade para tanto - e, o que é mais importante, quando dispõem das condições psicológicas e materais mínimas exigidas para dar conta do fardo.
Na sociedade que culpa "aos outros" porém, o tema da paternidade responsável raramente encontra espaço para discussão. Hoje, abundam as matérias a respeito da gravidez na adolescência. Paradoxalmente, raríssimas são as ocasiões em que nossa produção cultural se dedica a discutir algo tão simples e elementar: o que é preciso para ser pai e mãe? Muito ao contrário, já há algum tempo se aceita como normal, se estimula e se comemora como correto e certo, o fato de que a figura do pai seja plenamente dispensável. "Produção independente", é o que dizemos, como se falássemos de um curta-metragem colegial ao invés da séria e complexa tarefa de criar uma criança. Não se trata aqui de condenar, desde cedo, aos filhos das mães solteiras como futuros contraventores - já que teríamos de condenar, de antemão, também aos filhos das jovens viúvas. Trata-se apenas de perceber o quanto nossa cultura estimula a idéia de que criar filhos é algo absolutamente fácil e simples - quando há muito deixou de sê-lo.
Por mais que tenha avançado do ponto de vista tecnológico, político e - vá lá - cultural, a humanidade continua encarando a procriação como algo meramente instintivo. Mais do que qualquer coisa, neste novo quadro cultural que dispensa os deveres, a procriação é um direito - direito assegurado, inclusive, pelo Estado, que em alguns casos se preocupa em disponibilizar, aos menos favorecidos, aqueles sofisticados tratamentos para infertilidade. É o mesmo Estado, notem bem, que não consegue ter um programa decente e eficaz de planejamento familiar.
Planejamento familiar, sim, senhores. Não o compulsório, no molde chinês. Mas um planejamento familiar com acesso fácil a métodos contraceptivos - principalmente a vasectomias e ligaduras de trompas, hoje praticamente irrealizáveis no sistema público de saúde, por conta de trâmites burocráticos que beiram à insanidade. Um planejamento familiar com um grande esforço de mídia, mostrando, em primeiríssimo lugar, que ter um filho é tomar para si - e para o resto da vida, fique bem claro - uma série de d-e-v-e-r-e-s. E, curiosa coisa que agora me ocorre, dentre estes deveres estão a realização de exames pré-natais e a amamentação - ambos alvos de campanhas estatais milionárias, que têm por fim remediar os efeitos da maternidade inconseqüente, mas que muito colaboram para difundir a idéia de que a coisa toda é uma maciota: " Faça o pré-natal, É de graça." (pode engravidar que o Estado banca o médico). "O leite materno é o único alimento que a criança precisa até o sexto mês" (viu? só dá despesa depois do sexto mês).
Até aqui, porém, pode parecer que o problema é apenas das classes sociais menos favorecidas, Não é. Basta ver os índices de adolescentes grávidas entre as classes média e alta para entender que também ali prolifera uma total falta de consciência a respeito do tema. Por óbvio que estas meninas e suas proles pouco ou nada pesarão para o Estado. Mas podem vir a pesar, e muito, para a sociedade se seus filhos forem criados sem a necessária disciplina - resultado direto da culpa que persegue pais e mães que, por obrigação ou opção, dedicam mais tempo às suas carreiras do que às pequenas criaturinhas que colocaram no mundo. É óbvio que também aqui a noção de paternidade responsável é frágil. Ora é porque os pais resolvem se eximir do papel que lhes cabe para - suprema sombra e água fresca - serem "os melhores amigos dos filhos" - e os professores e a sociedade em geral que se virem depois para suportar o janotinha mimado; ora porque eles simplesmente não sabiam muito bem onde estavam se metendo. Para estes últimos, o supra-sumo da novidade são as "brinquedotecas", depósitos onde os abastados podem largar os filhos nos finais de semana - aqueles dois dias terríveis em que a escola permanece fechada e as babás estão de folga.
É claro que há muitas crianças que, nascidas em lares que não estavam inicialmente preparados para recebê-las, acabaram encontrando ali condições plenas para o seu desenvolvimento - a saber, amor, disciplina e suporte material mínimo para garantir-lhes uma vida decente. Mas, por outro lado, se olharmos para cada delinqüente juvenil, veremos que a grande maioria nasceu e se criou em estruturas familiares destroçadas. Logo se conclui, pois, que é preciso encarar a paternidade responsável como a grande e principal causa a ser hoje defendida. Sem ela, jamais haverá Conselhos Tutelares, escolas, lei ou polícia suficiente.
Posted by Nariz Gelado at fevereiro 27, 2007 03:27 PM
Comments
Meus caros,
A Nariz que me desculpe (e acho este sítio excelente), mas acho esta posição totalmente equivocada. São dois pontos relevantes.
A taxa de natalidade do país vêm despencando, inclusive entre os mais pobres, há algumas décadas. Mesmo sendo muito pobre, as mulheres têm noções claras de métodos anticonceptivos e os utilizam. Claro, isto não exclui a discussão importante sobre a imensa burocracia (quando não ocorre a simples proibição) do sistema público para ligar trompas ou coisa assim (conheço casos reais de mulheres, com 3, 4 filhos, implorando para que suas trompas sejam ligadas no sistema público e não serem atendidas).
Mesmo em países onde não existe tais políticas de controle populacional, mas não existe impunidade, não existe esta escalada brutal da violência (apesar do excelente trabalho do Levitt sobre violência e aborto nos USA). Digo isto porque acho esta discussão diversionista. NOSSO PROBLEMA É A IMPUNIDADE!!!! NOSSO PROBLEMA É O ECA!!!! O resto é muito fichinha. Não dá para o custo de se matar muitas pessoas ser, no máximo, cinco anos de cadeia. Não dá para o marginal, independente do que ele fizer até 18 anos, sair livre e de ficha limpa. É isto que temos que GRITAR todos os momentos e em todos os lugares. E esta análise implica em defender políticas públicas concretas. Agora, se eu defendo que a desagregação familiar é a culpada pela violência, eu automaticamente tiro a culpa dos efetivos responsáveis por esta calamidade que enfrentamos (o que o Estado pode fazer a respeito? Só cartilhas educativas e caminhadas pela paz).
Por fim, um último ponto. Suponhamos que, via abortos ou planejamento familiar, nossas prostitutas deixassem de ter filhos, eu pergunto, ONDE ARRANJARÍAMOS NOSSOS POLÍTICOS?
Saudações.
Posted by: Zé das Couve at fevereiro 28, 2007 01:58 PM
"discordo totalmente da posiçao retrógrada da igreja católica a respeito de sexo: sexo é uma parte importante da vida adulta afetiva".
Nariz, não vou entrar nessa de clichê, você é mais inteligente do que isso...
Apenas quis ser prático. E eu não falei que sou contra o sexo na vida adulta afetiva, muito pelo contrário. E nem a Igreja é contra. Você está bem desatualizada sobre a Igreja...
Quando você fala em vida, eu penso em Deus, quando você fala em adulto, eu penso em responsabilidade e quando você fala em afeto eu penso em amor e casamento.
Você pensa diferente?
Na minha opinião, qualquer procedimento adotado sobre o sexo desenfreado não vai dar algum resultado prático. Vira um círculo vicioso...(quanto mais "seguro/controle" -> mais sexo, quanto mais sexo -> mais "controle/seguro") Haja imposto...
Não acho justo gastar o dinheiro dos impostos que nós recolhemos, para sustentar a falta de controle das pessoas que não conseguem se dominar e nem aos seus órgãos sexuais.
No meu entender é uma questão de evolução da espécie humana...
Posted by: Soube? at fevereiro 28, 2007 11:53 AM
Esta não... A Nariz falou de crise de responsabilidade, depois de crise de valores e então chegou-se a controle de natalidade e planejamento familiar. Era inevitável: O assunto aborto veio à tona. E já tem até site dedicado a defender um libera geral para isto! Muito triste.
Posted by: Ângelo da C.I.A. at fevereiro 28, 2007 07:50 AM
Nariz, O Editor,
A distinção que eu faço entre Controle de Natalidade e Planejamento Familiar é pensada sobre o seguinte: Quando uma mãe pede ao vereador uma ajuda para ligar as trompas no parto do quarto rebento porque "os meninos dão muito trabalho" isso é Controle da Natalidade, independentemente de onde tenha partido a iniciativa ou os recursos.
Quando uma mãe trabalhadora de 1,5 SM, grávida do primeiro filho procura uma creche pública e diante das condições do ambiente, decide que colocará seu futuro filho num maternalzinho de bairro mesmo tendo que arcar com despesas altas para os seus ganhos, isso é Planejamento Familiar.
Quando fiz o paralelo com Agrotóxico x Defensivo foi exatamente para mostrar que o termo "controle" quando utilizado em relação à natalidade está impregnado de preconceito, pensa-se logo em Controlador e Controlado, nos exemplos, Governo e Povo Chinês, porém ainda existe o autocontrole, apesar de ser um valor das sociedades cada vez mais em desuso.
Posted by: Adalberto Braga at fevereiro 28, 2007 06:27 AM
Olá,
Queria dizer que jamais haverá "planejamento familiar" ou "Controle de Natalidade" no Brasil enquanto não for descriminalizado o aborto. Em países civilizados (não se preocupem, o Brasil não está nem perto de ser) o aborto não só é permitido como é fornecido de graça pelo Estado a quem pedir, muitas vezes sem consentimento ou conhecimento de familiares. Só com o aborto permitido é que o governo vai investir em outras alternativas de planejamento familiar, só por serem mais baratas.
Dê um pulo em http://brasilpeloaborto.blogspot.com/
e deixe sua opinião
Posted by: Zappi at fevereiro 28, 2007 12:01 AM
Nariz!!!
Perfeita sua análise.
Posted by: Cristal at fevereiro 27, 2007 10:32 PM
Tenho um post engatilhado que não estou conseguindo postar no blogger agora.
Vamos lá, já que você tocou no assunto.
É sobre um estudo americano que vincula o sexo precoce à delinquencia.
http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI1441756-EI8141,00.html
Estou defendendo uma mundança de valores. Entre eles a preservação da infância/adolescência através da castidade.
O que adianta "sexo seguro"?
O que adianta controle de natalidade?
Me perdoe, mas você tá qual a cartilha dos lulo-petistas, faça sexo que depois resolveremos.
Eu acho que a solução é estimular os jovens à evitar o sexo. Não no sentido de torná-lo feio, mas explicar as vantagens de se fazer sexo unitivo e procriativo (casamento), isso cria muita responsabilidade.
Eu sei da dificuldade daquilo que estou falando e da reação que isso causa, mas tenho a impressão que não tem outra maneira.
De outra forma continuamos "fazendo sexo" desenfreadamente e tentando resolver o problema depois, através do faça "sexo seguro" e "controle a natalidade".
Responsabilidade, direitos e deveres!!!
Vixe, mais um pouco e escrevo um tratado...
(N.G.: Soube, querido, antes de mais nada, devo dizer que respeito qualquer posição que alguém queira adotar, privadamente, em sua vida, movido pela fé. Mas sou totalmente contrária a transformar os conceitos de uma religião específica - seja ela qual for - em política de Estado.
Depois, não vejo como uma campanha pela paternidade consciente possa ser comparada com uma cartilha que estimula a meninada a registrar suas "ficadas". Concordo com você sobre não se estimular o sexo precoce. Mas, queira me desculpar, discordo totalmente da posiçao retrógrada da igreja católica a respeito de sexo: sexo é uma parte importante da vida adulta afetiva - e desviar-se disso, como bem demonstram os casos de pedofilia entre padres, pode trazer seqüelas. De resto, sexo seguro, em tempos de aids, é uma questão de sobrevivência. Controle de natalidade, por sua vez, é um tema que deveria ser discutido seriamente, longe de dogmas religiosos. Finalmente, penso que uma das coisas que nos diferenciam dos animais é que fazemos sexo também por prazer - e não apenas para procriação. Um abraço)
Posted by: Soube? at fevereiro 27, 2007 09:41 PM
Suzy Tude,
Não esquenta. Dá pra ver que a NG se sente extremamente incomodada e tocada por este assunto.
Vai abaixo o que eu acho que ela quis dizer com lares destroçados (sem que seja uma lista final, mas apenas exemplos):
"Temos alunos psicologicamente abalados, incapazes de apreender qualquer coisa, porque o pai, bêbado, passou a noite batendo na mãe. Alunos perturbados porque a mãe, prostituta, recebe cinco ou seis clientes por noite no casebre de um só cômodo. Alunos sem noções de higiene, que precisam ser apresentados ao chuveiro e à escova de dentes pela professora. Alunos, enfim, simplesmente abandonados por aqueles que os geraram.
Mas não se engane o leitor achando que o problema é meramente social. Nas casas onde o banho é quente porque nunca falta dinheiro para a conta de luz ou de gás, há também abandono: ou porque pai e mãe trabalham muito para manter um padrão de vida decente, ou porque estão envolvidos demais com seus próprios umbigos - e não raro com suas próprias bebedeiras, entorpecentes e promiscuidade. Ali, onde tudo cheira a limpeza, estão também os filhos daqueles que procriam sem a exata noção da responsabilidade exigida pela tarefa."
E pra finalizar:
Pô Adalberto, espero que a tua intenção tenha sido a de dizer que "pobre só tem CONDIÇÃO DE FAZER controle de natalidade", referindo-se à falta de estudos e de dinheiro que não permite uma maior instrução quanto ao Planejamento Familiar.
Porque senão, teu comentário foi bem "chinês" mesmo.
Abraços,
O Editor!
Posted by: O Editor! at fevereiro 27, 2007 06:48 PM
Planejamento Familiar 10 x 0 Controle da Natalidade
Agrotóxicos 10 x 0 Defensivo agrícola.
Pobre só tem direito a controle de natalidade,
planejamento familiar é coisa de remediado para cima, tipo assim 3,5 salários mínimos.
Até ministro da agricultura não sabe mais o que é defensivo agrícola, agora é todo trans para reduzir a utilização de agrotóxicos.
(N.G.: "pobre só tem direito a controle de natalidade", Adalberto? Onde? Só se for na China.)
Posted by: Adalberto Braga at fevereiro 27, 2007 05:55 PM
Nariz, concordo com você em muitas coisas, mas não consigo engolir essa de que " se olharmos para cada delinqüente juvenil, veremos que a grande maioria nasceu e se criou em estruturas familiares destroçadas." Existe sim uma crise de valores, ou da falta desses mesmos valores. Mas eu gostaria de conhecer as estatísticas nas quais você se baseou para fazer uma afirmação dessas. Eu conheço muitos lares "destroçados" que produziram grandes cidadãos. Em tempo: não seria melhor que você definisse antes o que são os lares "destroçados" a que você se refere? Talvez eu pudesse compreender melhor a que você se refere. Porque o "destroçado" lar pode ser simplesmente aquele em que pais se divorciam, e, se for assim, então estaremos literalmente perdidos dado o número crescente de divórcios. Se bem que não acredito ser essa a sua colocação, assim também como não seria a minha.
Um abraço
(N.G.: Suzy, a questão é fácil de se resolver. Basta ler o post abaixo, "Os outros", para entender o que eu encaro como um lar destroçado. Não por acaso, eu começo este post que você está comentando com a observação "Se o ômega da crise de responsabilidade a que me refiro no post anterior..." - sinal claro de que é preciso ler o post anterior para melhor entender este. Mas se porventura eu achasse que separação denota "lar destroçado", teria dito com todas as letras. Confesso que tal coisa nem me passou pela cabeça - talvez porque eu conheça pais e mães separados que exercem plenamente seus papéis de pais e mães, muitas vezes com mais sucesso do que aqueles que dividem o mesmo teto. De resto, o fato de que "muitos lares destroçados tenham produzido grandes cidadãos" não invalida o fato de que a maioria dos delinqüentes venham, sim, de estruturas familiares destroçadas. Converse com o pessoal que atua nos conselhos tutelares ou com as assistentes sociais. Só vá munida de outro conceito de "lar destroçado" pois, embora você negue, me parece, pela forma imediata como assumiu esta interpretação sem que nada disso tivesse sido dito, que é você que tem "lar destroçado" como sinônimo de separação dos pais.)
Posted by: Suzy Tude at fevereiro 27, 2007 05:14 PM
Aplausos. De pé.
Posted by: O Editor! at fevereiro 27, 2007 04:17 PM