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março 06, 2006

Deliciosamente terrível.

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Minha família é uma família de mulheres fortes.
Quase todas viuvaram muito cedo e jamais voltaram a casar - assumindo, assim, a responsabilidade de criar os filhos e tocar os negócios dos falecidos maridos. Quando havia negócios. Não raro, muitas delas tiveram que fazer de seus antigos passatempos, um modo de vida.

Mas de todas as mulheres da família, há uma por quem sempre tive predileção. Uma, cujas histórias eu captei aqui e alí, através de uma pesquisa somente possível porque, até meus quinze anos, a família morava toda na mesma rua.

Chamava-se tia Nena.

Não, tia Nena não era a tia-avó mais querida - estava longe disso. Pouca atenção nos dispensava quando, inadvertidamente, a criançada ousava invadir sua cozinha. Além disso, era tida, por noras, sobrinhos e cunhados como alguém de "gênio terrível".

E é exatamente aí que reside a minha secreta admiração por ela. "Gênio terrível" foi uma expressão que eu conheci bem cedo. Não se passava um único evento de família sem que alguém advertisse meus pais: "Esta vai incomodar; tem um gênio terrível".

Enfim.... Importa é que, tão logo comecei a ouvir aquele vaticínio, fiquei interessada em tia Nena e passei a fazer perguntas. E, aos poucos, conforme eu ía recebendo respostas distraídas, fui descobrindo uma personagem deliciosa, muito à frente de seu tempo.

Sem papas na língua, tia Nena provocara verdadeiras avalanches familiares por falar o que pensava. Mais de uma vez, ela foi obrigada a dormir na varanda de casa porque se atrevera a chegar mais tarde de um baile. A altura de suas saias ou a profundidade de seus decotes costumavam render-lhe algumas semanas de castigo - os quais ela burlava, saltando a janela do quarto. Lia livros probidos para moças. Nunca me disseram quais, mas sei que um deles rendeu-lhe uma surra.

Não bastasse isto, tia Nena escandalizou a cidade ao terminar dois noivados em três anos simplesmente porque deixara de amar os respectivos pretendentes. Casou-se tarde para os padrões da época mas, acredito eu, deve tê-lo feito por amor - eu não esperaria menos dela.

Para completar, ela era bonita - sim, aquelas bochechas redondas faziam sucesso no final da década de 1920. E, segundo me disse um parente cuja identidade prefiro manter secreta "era linda e sabia disso" - como se a consciência da própria beleza tivesse autorizado, por si só, as rebeldias do espírito.

Embora tenha viuvado tarde, tia Nena dirigia com mão de ferro o seu pequeno núcleo familiar. Isto, e o hábito de falar o que que lhe vinha à cabeça, fizeram com que a fama de "gênio ruim" a acompanhasse até o final da vida.

Hoje, quando abrimos a Semana Internacional da Mulher faço uma homenagem a todas as mulheres corajosas - da minha e de todas as famílias - , que jamais se deixaram dobrar frente a desafios, censuras e opressões.

Embora muita coisa tenha mudado para muitas mulheres, há muito, ainda, a ser conquistado. No Brasil, a violência física e psicológica, os salários menores, a baixa participação na esfera política e a injusta realidade de uma dupla jornada de trabalho ainda são obstáculos a serem vencidos.

Às mulheres que por aqui passaram antes de mim, deixo o meu beijo e a minha gratidão. Às que ainda virão, deixo um conselho: inspirem-se em tia Nena. Sejam deliciosamente terríveis.

Posted by Nariz Gelado at março 6, 2006 02:49 PM

Comments

NG,

Apesar de tudo, apesar de todos...

Principalmente, por acreditar que nós temos o poder de transformar as coisas...

Parabéns pra nós, mulheres do mundo!

Parabéns pra vc, amiga!

Adoro vc!

bjs

Posted by: Lorenza at março 8, 2006 11:18 AM

Tia Nena para presidente! sem brincadeira, esse país precisa de uma mulher presidente. Feliz Dia para nós todas!

Posted by: cathy at março 8, 2006 10:46 AM

A gratidão é um efeito incontestável do progresso da alma.

Posted by: Renato Martins at março 8, 2006 02:56 AM

Tia Nena (da foto?) era uma gata!

E ainda por cima corajosa como a maioria das gauchas. Parabém pelo texto super bem feito

Beijos

Posted by: MOITA at março 7, 2006 02:28 PM

Cold Noise

Toda vez que ouço falar de mulheres fortes, vem a minha cabeça minha tia Luíza, mulher tb a frente de seu tempo, um alinda morena de olhos azuis que desde a infância mostrava que o sexo frágil só é frágil na cabeça dos homens! Ela guiava arado, comandava negócios e era o núcleo de sua família.
Tia Luíza a muito se foi mas a doçura de seu olhar e falar sempre me tocam inesperadamente.
Uma mulher forte e a frente de seu tempo, esta era Tia Luíza.
Cheers
JM

Posted by: JMitchel at março 7, 2006 08:13 AM

Salve tia Nena e salve todas as Sofridas mulheres Brasileiras!

Posted by: Sérpico at março 7, 2006 07:18 AM

Nariz, uma beleza de texto, a sobrinha Nariz Gelado, veio melhor que a tia Nena, pois todos desfrutam dos textos de seu "genio terrivel"

Posted by: Muriu at março 7, 2006 06:31 AM

Nariz nosso presente e futuro sempre estará ligado a estas mulheres de fibra que estiveram ao nosso lado..um grande abraço pelo nosso dia

Posted by: Vó do Bob at março 6, 2006 10:42 PM


Nariz,

Essa sua tia me evoca tantas belas personagens libertárias e contestadoras...

Inclusive uma tia minha, que se não me desnudasse do meu nick teria satisfação em revelar quem foi...

Mas uma bela personagem essa sua, sem dúvida.

E sua narrativa, primorosa, as always.

Mas confesso, sem querer ser desrespeitoso... prefiro as mulheres terrivelmente deliciosas!

Posted by: Artemus Gordon at março 6, 2006 09:53 PM

Belo editorial, Nariz!!
Um beijo.

Posted by: Blog da Santa at março 6, 2006 09:40 PM

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