Se as críticas que a oposição anda dirigindo a Dilma Roussef não são uma cortina de fumaça – uma tentativa de arrastar o debate até abril quando, só então, a estratégia propriamente dita será apresentada – começo a me preocupar.
Antes de mais nada, eu penso que foi um erro entrar na briga agora. Não era hora ainda. E pior: tenho a sensação de que tudo está acontecendo como os governistas querem. Primeiro, Lula subiu no palanque e começou a chamar a oposição para o debate. Um canto de sereia, ignorado pelos adversários até que… Até que surgiram as primeiras pesquisas mostrando o crescimento de Dilma. Aí não resistiram mais. É verdade que estão preservando José Serra – um acerto. Mas também é verdade que aceitaram o chamado de Lula: polarizaram, criando um clima plebiscitário – que, vamos lembrar, era exatamente o que o presidente queria.
No popular: Lula tirou a oposição para dançar e ela aceitou. E o fez movida por algo que deveria ser tão esperado quanto encarado com cabeça muito fria: o crescimento de Dilma. Independentemente da fidelidade das pesquisas, qualquer um que estivesse recebendo a visibilidade da ministra apresentaria algum crescimento. Arrastada pelo país, sem qualquer fiscalização do TSE, por um presidente com altos índices de popularidade até eu cresceria nas pesquisas. No mínimo porque, sendo eu uma completa desconhecida, teria muito a crescer.
Mas o que realmente me apavora não é isso. O que me apavora é, como disse no primeiro parágrafo, o discurso da oposição. Porque ele é muito parecido com o que se viu em 2006: ignora aquilo que eu chamo de “a pirâmide de Lula” – e sobre a qual já falei outras vezes aqui.
A pirâmide
Ninguém pode negar que, entre 1989 e 2002, Lula precisou do que se usa chamar de classe média. Jornalistas, profissionais liberais, intelectuais (vá lá), artistas, professores e estudantes foram muito úteis para conferir confiabilidade ao operário. Embalados pelo sonho ‘pequeno-burguês’ de ver um operário na presidência, toda essa gente colaborou para que Lula chegasse ao poder. Dá até para arriscar que o Lulilnha Paz e Amor – criação certeira do publicitário Duda Mendonça – não foi mais do que a a perfeita transformação do discurso emitido pela classe média em campanha eleitoral.
E no entanto… No entanto, antes mesmo da eleição terminar a nova pirâmide começou a tomar forma. Com a “Carta ao Povo Brasileiro”, Lula lançou as bases de uma estrutura muito sólida, capaz de resistir até mesmo a um terremoto chamado mensalão: selou uma aliança com o topo da pirâmide, que garantiria, dali para frente, a ele e aos seus aliados, gordas verbas de campanha. Uma vez no poder, tratou de sacramentar a aliança com a base da pirâmide, que passou a lhe garantir votos. Tão simples quanto simples é o raciocínio político – “o que é que eu tenho a ganhar com isso?”
Não que tenha sido fácil. O fracasso do Fome Zero não nos deixa mentir que foi complicado encontrar uma fórmula. Mas, uma vez que reuniu todos os programa sociais iniciados no governo Fernando Henrique sob o guarda-chuva do Bolsa Família – ampliando, em muito, o seu raio de ação – Lula passou a navegar tranqüilamente. Desde então, tudo o que Lula faz e diz é dirigido ao topo e à base da sua pirâmide eleitoral.
A classe média – toda aquela gente que lhe deu credibilidade enquanto construía o mito do presidente-operário, levou um pé no traseiro. Lula não precisou mais deles. Metido em um terno Armani, ele diz que gosta de beber uma cachacinha no final do dia – figura metafórica perfeita para a sua bem sucedida pirâmide. E a verdade, já evidenciada em passado recente, é que enquanto os juros estiverem altos e o Bolsa Família estiver pingando nas contas de quem faz volume nas urnas, pouco importa que a classe média esteja se esgoelando em denúncias.
É por isso que me apavoro com o discurso que começo a vislumbrar na oposição. Porque ele está, como estava em 2006, carregado de valores que não funcionam para o topo e a base da pirâmide. Queridos: que a Dilma mentiu sobre diplomas, que Lula faz aliança com Sarney – ou até com o Diabo – e que apoia ditadores não é tema de campanha. Ética, democracia e coerência política, não são temas de campanha. E esqueçam, por favor, esse negócio de que a classe média forma opinião. Temos sete anos de evidências mostrando que, se é que forma, não forma em volume suficiente para causar impacto nas urnas. A classe média tem falado apenas, e tão somente, para si mesma. Ficamos conversando entre nós – e isto é tudo.
Para rachar
A briga vai ser difícil, portando. Mas não impossível. A aliança com o topo da pirâmide é fácil: basta garantir que tudo fica como está e não faltará dinheiro na campanha (desculpe se estou sendo pragmática demais para as almas mais sensíveis, mas é assim que funciona).
O mais importante agora, o fundamental, é entender que este argumento não é suficiente para a base da pirâmide. Pragmática, a base, aquela que garante os votos, não vai mexer em time que está ganhando. Até porque será vítima – como foi em 2006 – do terrorismo eleitoral petista. Ou não é verdade que já começaram os boatos de que, uma vez no poder, a oposição vai acabar com o Bolsa Família?
É preciso, pois, prometer mais do que a continuidade do Bolsa Família. É preciso oferecer algo que estimule, de forma muito concreta, a mudança do voto. E este algo – esta rachadura na aliança que Lula forjou, há sete anos, com a base da pirâmide – existe. Está ali, muito visível, para qualquer um que consiga manter a cabeça fria – que consiga ficar imune, pelo-a-mor-de-deus, às provocações ensaiadas de Lula para pensar no que realmente interessa. E mais: esta rachadura cai como uma luva, conferindo a necessária verossimilhança eleitoral, para o candidato preferido da oposição.
O que eu não entendo é que esta rachadura já deveria ser trazida ao debate desde agora – evidenciada pelo menos, para preparar o terreno. Isto, fique bem claro, sem que se apresente já a solução. O momento é de apontar a falha - somente isso. E o fato de que não exista qualquer movimento neste sentido me deixa temerosa de que a rachadura simplesmente não tenha sido percebida. Mas como não posso acreditar em tamanha falta de visão, vou dar mais um tempo antes de apontá-la.