Arquivo de março de 2009

terça-feira, 31 de março de 2009

Por que agora?

É mordomia, celular para filha, funcionário fantasma, cota de passagens usada por amigos, assessor de mentirinha, assessor do assesor, faxineira… A lista de pequenas e grandes falcatruas cometidas de norte a sul, na Câmara e no Senado, no Legislativo e no Executivo, só faz aumentar. Essas coisas que, a gente sabe, só vêm à tona quando interessam a alguém – e ressaltar isso não significa defender que elas deveriam ficar ocultas mas, apenas, deixar claro que se entende o mecanismo pelo qual tais coisas, que sempre estiveram lá, foram agora reveladas.

Para alguns, as denúncias das últimas semanas – especialmente no Senado – seriam uma espécie de segundo turno da eleição para a presidência da casa; uma guerra fria, entre partidários de Tião Viana e José Sarney.

Pode ser.

Mas também pode ser uma pré-campanha de Fernando Collor, que retornou outro dia, ocupa a presidência de uma comissão importante e sabe apropriar-se, como poucos, de discursos pseudo-moralizantes com forte apelo popular. E aí, meus amiguinhos, estaríamos diante do primeiro turno de 2010. Um primeiro turno bem menos previsível do que pareceu até agora.

sábado, 28 de março de 2009

Brasileiro acusado pelo Ministério Público Federal de praticar apologia da discriminação étnica

Para o MPF, o cidadão em tela incitou a opinião pública ao preconceito e à discriminação ao denegrir uma etnia referindo-se a ela como sendo formada por aproveitadores que “vencem” na vida à custa de outros. Conforme o autor da ação, o acusado incorreu nas sanções previstas no artigo 20 da Lei 7.716/1989, que pune com reclusão de dois a cinco anos as condutas consistentes em “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”.

A pena aumenta se o crime for praticado “por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza”.

* * *

Não. A nota acima não é sobre Lula.

Refere-se a uma ação movida, em 2007, contra o jornalista catarinense Paulo da Costa Ramos por conta de um artigo seu sobre a a comunidade indígena guarani do Morro dos Cavalos, Florianópolis.

Clique aqui para ler a nota na íntegra.

Para ver Lula processado, porém, acenda uma vela. E tente encontrar, com o auxílio dela, algum procurador disposto a tomar as dores da etnia “branca de olhos azuis”. Porque, ao que parece, a Lei 7.716/1989 só vale para negros, mulatos e indígenas.

sábado, 28 de março de 2009

Que nojo

Da coluna Painel, na Folha de S. Paulo de hoje:

Os partidos ensaiam uma justificativa-padrão para os “por dentro” e os “por fora” que aparecem nos grampos da Operação Castelo de Areia, em diálogos alusivos a financiamento de campanhas. “Por dentro” seriam doações feitas aos comitês dos candidatos. “Por fora”, aos partidos -contrariando o sentido de “caixa dois” desde sempre associado à expressão“.

Ok, digamos que a justificativa-padrão – um tremendo 171, a acreditar no que diz a coluna – venha a colar… O partido não teria que prestar contas do dinheiro que recebeu? E os valores supostamente combinados durante as ligações telefônicas não terão que bater com aqueles declarados?

É nessas horas que a condenação de Eliana Tranchesi a 94 anos de prisão fica parecendo pirotecnia, tipo quadro do Programa do Ratinho. Porque, vejam bem: enquanto os senhores juristas não fizerem uma campanha contundente para o fim da impunidade parlamentar, vai lhes faltar moral para condenar quem quer que seja por crime financeiro de qualquer ordem.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Olha a onda!

Eu não sei quem recebeu dinheiro da Camargo Corrêa – a esta altura, se fala que a lista é grande. E muitos afirmam que as doações se deram dentro dos trâmites legais.

Lá no site Às Claras, por exemplo, uma pesquisa simples mostra que o grupo sempre contribuiu em campanhas políticas. Nem sempre, é claro, com a mesma ênfase ou entusiasmo.

Em 2002, a Construções e Comércio Camargo Correa S/A, colaborou com R$ 517.000,00, distribuídos entre PSDB, PFL e PSB. Nada para o PT.

Em 2004, esta mesma empresa doou o total de R$ 4.182.050,00 para as campanhas políticas do PSDB, PT, PFL, PPS, PC do B e PP. O PT abocanhou R$ 1.560.000,00 deste bolo – R$ 77.500,00 reais a menos que o maior favorecido naquele ano, o PSDB. Já a Camargo Corrêa Equipamentos e Sistemas, empresa do mesmo grupo, entrou com R$ 1.000.000,00, distribuídos entre candidatos do PFL, PSDB e PT – ficando este último com R$ 300.000,00

Em 2006, a Construções e Comércio Camargo Correa doou um total de R$ R$ 7.313.500,00, dos quais R$ 1.300.000,00 foram para o PT. Neste mesmo ano, a Camargo Corrêa Cimentos S/A., mais uma empresa do grupo, colaborou com R$ 1.550.000,00, distribuídos majoritariamente entre PMDB e PSDB – deste montante, apenas R$ 50.000,00 foram destinados ao PSC. Já a Camargo Corrêa Equipamentos e Sistemas colaborou com R$ 491.000,00 – quantia destinada integralmente para o PT. Idem para a Camargo Correa Metais S/A, que doou outros R$ 50.000,00 para a sigla.

Infelizmente, o site ainda não disponibiliza os dados das eleições 2008. Por ora, o único recurso que encontrei é a ferramenta de prestações de contas do TSE. Ela não é muito prática – e eu não sei se os dados já estão totalmente integrados ao sistema. Mas, se estão, há algumas coisas curiosas a considerar.

Na maioria das capitais não consegui encontrar doações das empresas do grupo Camargo Corrêa. Já em São Paulo, a busca de doadores por comitê financeiro mostra que foram doados R$ 75.000,00 para o PTB, R$ 50,000 para o PR, R$ 25.000,00 para o PV e espantosos R$ 3.000.000,00 para o DEM de Gilberto Kassab.

Mais espantoso que este gordo cheque é o fato de não haver, pelo menos no sistema do TSE, qualquer doação do grupo Camargo Corrêa para a campanha da Marta Suplicy. Vamos combinar que para um PT que vinha, desde 2004, recebendo significativas contribuições do grupo, a última eleição em São Paulo foi uma decepção. Daquelas que a gente sente quando uma grande onda destrói o nosso belo castelo de areia.

Observação: os links do site Às Claras remetem ao quadro total de doações feitas pela empresa naquele ano. Para ver a distribuição por partidos, corra a página para baixo de clique em “partidos”.

quarta-feira, 25 de março de 2009

É tudo verdade

Conforme vocês já ficaram sabendo (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), ontem o Reinaldo Azevedo esteve em Floripa para o lançamento do livro O País dos Petralhas.

Vocês também já estão sabendo que o evento foi um sucesso e que, depois do dito cujo, a fina flor da blogosfera catarinense e curitibana saiu para jantar com o autor.

Vocês já sabem, inclusive, que serviram um carneiro com risoto e que o papo foi muito bom – fácil como deve ser entre amigos.

O que vocês não sabem é que a coisa se arrastou madrugada adentro e que eu – ao contrário deles, que são todos uns jovenzinhos – não estou mais acostumada com noitadas assim.

De modis que, hoje, mal dou conta de fazer o básico. Só vai dar para dizer que o Reinaldo é uma pessoa muito agradável e que foi um prazer recepcioná-lo na companhia de gente tão bacana.

terça-feira, 24 de março de 2009

Pedagogia da Altonomia

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Sobre os estudantes do ensino médio estadual de Vila Velha que foram protestar contra o “almento” da carga horária em frente ao prédio do Ministério Público, resta dizer que os erros de português cometidos na singela faixa devem ser motivos de orgulho para muita gente.

Porque eis, aí, estudantes que não foram encarados como tábula rasa no processo de alfabetização. Eis, aí, estudantes que não foram submetidos, por meros professores, às repetições mecânicas de saberes alheios à sua realidade.

Não, nada disso. Estes estudantes aprenderam com seus animadores a reconquistar o seu poder de expressão com base nas suas experiências. É por isso que eles são capazes de formar e re-formar enquanto são formados. É por isso que podem ir até o Ministério Público para exibir toda a boniteza de se estar no mundo, com o mundo e intervindo no mundo. Porque estes, meus amigos, são cidadãos críticos, salvos da opressão pela pedagogia da autonomia. Ou seria altonomia?

segunda-feira, 23 de março de 2009

Não vai

Matéria de capa da Folha de S. Paulo de hoje, a tentativa de negociar um acordo de delação premiada para Marcos Valério no processo do mensalão não vai vingar.

Por quê?

Porque embora o ministro Joaquim Barbosa, enquanto relator do caso, possa decidir sobre o pedido de delação premiada, a concessão de benefícios – que é o que torna o acordo realmente possível – dependeria dos votos dos demais ministros do STF.

sábado, 21 de março de 2009

Se não tá rasgando, tá valendo

Não adianta mandar cartinha para o presidente americano. O Protógenes vai precisar fazer bem mais do que isto para me convencer de que está maluco – coisa de que a blogosfera, em especial a blogosfera oposicionista, parece cada vez mais propensa a aceitar.

disse outro dia que este “desequilíbrio” do Protógenes é fake – uma tentativa de parecer aloprado porque a momentânea alopração vai lhe garantir a aposentadoria e livrar a cara do chefe.

Só que ele segue com o teatro e eu sou obrigada a adotar uma nova hipótese – que, não necessariamente, exclui a anterior. A alopração do Protógenes é como aquela do Silvinho Pereira – um recadinho do tipo “olha que eu falo tudo”. Não fosse isso, o delegado já teria chamado a Veja (sim, ela mesma) para contar tudo o que sabe. Mas não: ele prefere ficar lançando revelações a conta-gotas no seu site, nas palestras e em entrevistas que nada trazem de novo.

Corrupção – e corrupção na escala mais alta do executivo – é tema sério demais. Quando o assunto é este, gente realmente séria fala tudo – ou nem começa a falar. Daí que, infelizmente, a postura do Protógenes indica que ele quer negociar. Com quem? Não sei – perguntem a ele.

Mas, então, o Protógenes não é megalomaníaco, NG?

Olha, eu não sou psicóloga mas acho que ele é, sim. Ocorre que é megalomaníaco dentro de limites razoáveis de sanidade. E, como bom megalomaníaco, na hora ‘fakear’ um alopramento, Protógenes apenas potencializou um traço de sua personalidade, entendem? Se eu fosse fingir um acesso de loucura, por exemplo, sairia quebrando tudo – algo bem de acordo com a minha mania de jogar coisas e bater portas e gavetas quando estou, vamos dizer assim, levemente contrariada.

Ok… Dizem que Protógenes foi reprovado no psicotécnico da Polícia Federal. Ele também arquivou sua pseudo biografia com um nome inacreditavelmente pomposo e, agora, mandou uma cartinha para Barack Obama. Mas, como já dizia minha avó, coloquem uma grana gorda na mão dele. Vamos ver se ele rasga.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Silêncio e paciência

Abaixo, trechos de duas matérias sobre Delúbio Soares e Ricardo Berzoini.

A primeira, do Estadãoo, é de outubro de 2005. Ela foi resgatada para nos ajudar a entender a segunda matéria, que é da Folha de S. Paulo de hoje.

Os grifos são meus. A falta de vergonha na cara, o silêncio e a paciência são petistas.

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Denúncias serão esquecidas e vão virar piada de salão

O Estado de S. Paulo – 16/10/2005

Em conversa exclusiva com o “Estado”, ex-tesoureiro do PT revela que trabalhou para eleger Berzoini presidente do partido

BURITI ALEGRE – Afastado das badalações do poder, dos eventos partidários e das páginas dos jornais, o ex-tesoureiro nacional do PT, Delúbio Soares, em conversa exclusiva com o Estado, no último sábado, reavaliou a crise da qual é personagem-chave e revelou que não só trabalhou para eleger Ricardo Berzoini, como ficou muito feliz com sua eleição à presidência do PT, a despeito de o novo presidente defender a sua expulsão do partido. Ele acha que as denúncias que o atingiram e ao PT “serão esclarecidas, esquecidas e acabarão virando piada de salão”.

Eu não vou deixar de ser militante do PT. O PT não é um partido, é meu projeto de vida. Sou fundador, dirigente nacional e militante há 25 anos”, protestou. Delúbio afirmou que elegeu o tempo como aliado. “O tempo é o melhor remédio. Não é hora de falar, e sim de esperar o tempo passar e aí ficará provado que eu não errei”, previu.

(…)

Quanto ao PT, Delúbio parece admitir que sua expulsão é inevitável, mas acredita que o revés será passageiro. Nós seremos vitoriosos, não só na Justiça, mas no processo político. É só ter calma. Em três ou quatro anos, tudo será esclarecido e esquecido, e acabará virando piada de salão“, apostou.

Delúbio visita petistas no Congresso e pede para voltar ao partido

Folha de S. Paulo, 19/03/2009

Ex-tesoureiro foi expulso da legenda no auge do mensalão, em 2005; decisão depende de votação do diretório nacional

Tesoureiro do PT durante o escândalo do mensalão, Delúbio Soares pediu para voltar ao partido. A cúpula simpatiza com o retorno, que depende de votação do diretório nacional.

Em carta de três parágrafos entregue ontem ao presidente da sigla, deputado Ricardo Berzoini, Delúbio disse que sofreu uma pena dura e que merece uma segunda chance. À tarde, o ex-tesoureiro visitou gabinetes petistas no Congresso, num lobby pela sua reabilitação. Não deu declarações, só sorrisos.

Berzoini prometeu a Delúbio, expulso no auge do escândalo, em 2005, que colocará o pedido em votação na próxima reunião do diretório, em maio. O deputado preferiu não comentar ontem o assunto: “Tenho a obrigação de conduzir esse processo, portanto, não falo sobre seu mérito”.

O mensalão foi revelado pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), em entrevista à Folha, em junho de 2005. Na essência, foi um esquema de repasse de recursos do PT, coordenado por Delúbio, para deputados do partido e de legendas aliadas ao governo. O dinheiro era canalizado pelo publicitário Marcos Valério.

Há pelo menos um ano Delúbio vem pavimentando seu retorno ao PT. O ex-tesoureiro viajou para vários Estados organizando plenárias com a militância, nas quais propagandeava sua lealdade ao partido que ajudou a fundar e a suposição de que nunca se beneficiou do esquema. Nas entrelinhas, o recado era o de que assumiu o ônus da culpa calado.

quarta-feira, 18 de março de 2009

A pequena grande obra

No vídeo abaixo, temos a maior contribuição de Clodovil na Câmara Federal.

E eu estou falando sério.

Pena que ele não encarou a domesticação dos seus pares como um projeto. Talvez tenha lhe faltado tempo para perceber a importância da tarefa.

Seria uma pequena grande obra.