Está bom para vocês?
Para nós não.
Vem mais por aí.
Ps: link explicativo para os recém-nascidos.
Tem petista dando com os costados aqui para pedir que eu comente os resultados da pesquisa CNT/Sensus divulgada hoje cedo.
Então vamos lá: Lula está em campanha pelo menos desde janeiro de 2003. Nenhum outro presidente teve mais tempo de exposição na mídia do que o ex-torneiro-mecânico. Nos últimos quarenta dias, então, na maior afronta eleitoreira já feita ao TSE, Lula percorreu todo o país com a Caravana do PAC.
Diante de tal quadro, seria um vexame se Lula apresentasse índices menores de aprovação. Para falar a verdade, eu acho os índices apresentados até baixinhos. Acredito que eu, com tanto tempo de mídia, estaria mais popular ( no mínimo porque sou mais bonitinha). Do que se pode concluir que petista que se proseia por conta desta pesquisa ou é burro ou é desonesto.
Todo mundo sabe que eles só estão ganhando o jogo porque sempre burlam – pra ficar num termo suave – as regras.
Impressionante como há hipocrisia e cara-de-pau nas opiniões emitidas sobre o andamento do caso Isabella.
Em artigo para a Folha de S. Paulo de hoje, por exemplo, Valdo Cruz apresenta a opinião de “um ministro do Supremo Tribunal Federal ” sobre o caso: polícia e promotoria estariam alimentando o “espetáculo” e, com isso, incentivando o sentimento de Justiça com as próprias mãos – lá está assim mesmo, “Justiça com as próprias mãos”, com “J” maiúsculo, como se esta fosse uma instituição reconhecida. Adiante…
Segundo Cruz, o membro não identificado do Supremo Tribunal Federal também observa o óbvio: que, estando o processo a correr em segredo de Justiça, delegados e promotor estavam obrigados a aguardar o final das investigações para divulgar detalhes das mesmas. Ao falharem nisso, permitiram que um caso como este, de forte apelo emocional, fosse usado para justificar o atropelo das leis vigentes.
Duas perguntas ao membro não identificado do Supremo Tribunal Federal :
1. Constatada tal realidade, o que o excelentíssimo pretende fazer a respeito? Vai seguir soprando impressões, anonimamente, aos ouvidos de quem pode dar visibilidade a elas, sem tomar qualquer atitude mais concreta? Não é a primeira vez que informações sobre casos que correm em sigilo chegam à imprensa. E se isto continua ocorrendo é porque aqueles que deveriam guardar a Lei agem da mesma forma que o povo reunido em torno daquela delegacia: só acordam para determinado problema quando a imprensa mantém o tema 24 horas por dia no ar. A diferença é que o povo na porta da delegacia não custa tão caro ao contribuinte.
2. Onde está este nobre representante da Justiça quando, por exemplo, o presidente da República usa a máquina do Estado para atropelar as leis vigentes? Embaixo da própria cama?
Há muitas, mas muitas, coisas ocorrendo a revelia da Lei no Brasil. Lastimo é que tais delizes só incomodem aos senhores da Justiça quando desfavorecem aos suspeitos e acusados de crimes graves. Aí estes senhores correm a assinar habeas corpus que garantam providencial silêncio aos interrogados e liberdade aos muito suspeitos – quando não, aos assassinos confessos. Esta é, aliás, uma das poucas ocasiões em que a Justiça não faz diferenciação social neste país: dos pés-rapados que mataram o menino João Hélio ao médico que esquartejou a amante, os mais cruéis criminosos brasileiros têm sempre garantidos seus direitos. Todos contam com a vigilância da Justiça para que não se tornem vítimas do “atropelo das leis vigentes”. E os hipócritas ainda têm a suprema cara-de-pau de vir à imprensa criticar a sanha do povo que berra à porta da delegacia.
Outro dia, afirmei que, ao contrário de 1968, que culminaria com o AI5, o ano a ser comemorado é 1988. Porque me parece óbvio que o retorno do país à democracia, mediante a promulgação de uma Carta Magna que nos devolveu os direitos individuais e acabou com a censura, é muito mais digno de nota.
Mas, talvez porque a Constituição de 1988 tenha, ao longo do tempo, apresentado inúmeros problemas; talvez porque tornou-se lugar-comum entre os economista falar da década de oitenta como “década perdida”, esta efeméride parece que vai passar em branco – suplantada, simbolicamente, nos meios intelectuais, pelo aniversário de 40 anos da passeata dos 100 mil.
Não neste blog.
Aqui vamos comemorar, sim, o ano em reconquistamos o Estado de Direito. Comemorar e, conforme você pode ver no selinho acima, defender a manutenção daquele que certamente é um valor maior daquela conquista: o fim da censura.
A partir de hoje, e até o final deste ano, este blog vai reviver os momentos mais significativos daquele 1988. Sem periodicidade definida, mas com muita emoção, vamos lembrar o que de mais importante aconteceu na política, nas artes, nos esportes, e nas diversas manifestações culturais.
E já que hoje é domingo, esta série começa lembrando aquela madrugada de 30 de outubro de 1988, quando Ayrton Senna conquistou, no Japão, seu primeiro campeonato mundial. De quebra, aproveito e faço uma média com minha mana, que era fã do cara. Quem não era?
Ps.: quer participar desta série? Envie sugestões de imagens, notícias, artigos, músicas ou vídeos para nariz.gelado@uol.com.br, com o título “1988″.
Na terça-feira, eu disse que a bronca – predominantemente da esquerda – com a visibilidade do Caso Isabella se dava porque a cobertura do mesmo estava roubando espaço de Lula na mídia.
Não deu outra.
Hoje, o próprio veio a público queixar-se de pirotecnia por parte da imprensa. A justificativa´foi a mesma reservada aos companheiros encrencados: aquele bom e velho, agora tão bem definido por Jabor, linchamento das evidências – nada foi provado, não podemos condenar antecipadamente, etc e tal .
Tanto quanto das outras vezes, a ladainha não me convenceu. Na verdade, ele está contrariado porque perdeu espaço na mídia.
Sim, eu sei: o nome do festival era Rock in Rio mas foi aberto por um Ney Matogrosso no seu melhor estilo Sapucaí. O clip de abertura, então, é constrangedor de tão bobinho.
Mas, ainda assim, vale a pena rever o vídeo que abre este post. Porque há nele algo de que tratamos de nos livrar nestes vinte e tantos anos. Não, eu não estou falando das cores cítricas, dos óculos brancos e do gel com glitter … Falo do selo da Censura Federal - uma censura escancarada, da qual nos livraríamos em 1988, três anos depois do Rock in Rio I. Uma censura que tem dado inúmeras mostras de querer retornar – agora não mais explícita, mas através de constrangimentos e pressões.
Como eu já escrevi em outra ocasião*, sou de uma geração que, junto com Renato Russo, perguntava-se “Que país é esse?”. A mesma geração que achou o máximo ver um Lobão algemado tocar o hino nacional num solo de guitarra. Geração que assitiu à “Wall Street Poder e Cobiça” e “Uma Secretária de Futuro” assimilando que, também no capitalismo de roupagem yuppie, o crime não compensava. “Colonização cultural” era uma expressão sem qualquer sentido para nós, posto que lotávamos tanto os shows do The Cure quanto os do Capital Inicial ou do Legião Urbana.
Não foram poucas as vezes em que nós, os jovens da década de 1980, por termos crescido sob a ditadura, fomos considerados uma “geração perdida”. Quem nos analisava por este prisma era aquela meia dúzia de gatos pingados que, tendo assumido a luta armada na década anterior, retornava beneficiada pela anistia. Não raro, eles aqui chegavam empunhando títulos de universidades mundialmente reconhecidas – o que, por si só, parecia autorizar-lhes a tecer comentários sobre uma geração cujo desenvolvimento eles não haviam acompanhado de perto.
Esqueceram-se de que, à despeito de qualquer cerceamento ocorrido em sala de aula, tínhamos uma família que nos explicava que estávamos vivendo em um regime de exceção. Projetaram pois, em nós, o isolamento e a falta de informação que pesava sobre si mesmos. E mal se deram conta de quanto o nosso deslumbramento com a liberdade de expressão e com o ingresso do país na pós-modernidade colaborou para o florescimento dos partidos que hoje os abrigam.
Sem armas ou seqüestros, estávamos – ao votar em governadores de esquerda e lotar os comícios pelas “Diretas Já” – fazendo uma revolução concreta e definitiva. Tão concreta que pudemos encerrar o mandato de um presidente mal escolhido. Tão definitiva que não hesitaremos em fazê-lo novamente, se preciso for. Louvável pensar que fazíamos isso curtindo Talking Heads – e não a mediocridade musical de um Geraldo Vandré.
Hoje estamos vendo quem é, de fato, a geração perdida. É aquela que, para cá voltando, não soube capitalizar honestamente o frescor e a disposição das jovens mentes brasileiras. Capitalizou-os maquiavelicamente, aparentando inocência e honestidade, a fim de montar um aparelhamento de fazer corar Joseph Stálin. É aquela que, hoje, a fim de se manter no poder, não hesita em implantar uma censura velada, através de terrorismo virtual, demissões e ameaças.
Não se entusiasmem, contudo. Nós somos, sim, os pacientes e tranqüilos filhos da ditadura militar. Nossa tranqüilidade nasce da certeza de que nada dura para sempre. E nossa paciência, do entendimento de que sempre há um momento certo para agir.
Por fim, enfiem em vossos respectivos rabos este 1968, que vocês tanto querem comemorar. O ano, para nós, é 1988.
* Boa parte deste post é a reedição de outro, publicado em julho de 2005.
Quando a gente acha que já viu de tudo… mais essa.
Aécio, tem recado do Serra pra você.
Erasmo Carlos e Renato Russo – A carta
E, antes que vocês me perguntem: sim, eu estou me divertindo muito.
Que se explodam os dois, são os meus melhores votos.