A Folha de S. Paulo traz , hoje, dois artigos que indicam que aquele rótulo inaugurado por Cláudio Lembo no ano passado, “elite branca”, não colou. Em substituição a ele, retorna um velho conhecido nosso – denunciador, por si só, da pobreza conceitual que tão bem carateriza a esqueda latino-americana.
Ao comentar artigo de Reinaldo Azevedo e o caso do Rolex de Luciano Huck, Zeca Baleiro classifica a revista Veja como “notório reduto da ultradireita caricata” e avisa que “nem por isso” ela é “menos perigosa“.
Já em artigo sobre a impossibilidade de um terceiro mandato para Lula, Fernando de Barros e Silva chama de “extrema direita alvoroçada“, àqueles que insistem “em projetar a sombra do chavismo sobre os atos e rumos do governo Lula“.
Não que o Brasil esteja livre de uma direita caricata. Longe disso. Há, de fato, alguns exemplares da dita cuja circulando pela vida política nacional. – e já os apontei em pelo menos duas ocasiões.
Classificar, porém, a Veja como porta-voz deste pequeno a insignificante segmento da sociedade brasileira revela um desespero argumentativo próprio de uma esquerda que, uma vez tendo chegado ao poder, naufraga na incompetência e na falência moral de seus representantes. O problema de gente como Zeca Baleiro não é a decadência ética do quadro político nacional. O problema é de quem denuncia tal coisa – pouco importando se, no passado, denunciou, para deleite das esquerdas nacionais, os escândalos do governo Collor e do governo FHC.
Da mesma forma, declarar que a associação entre o chavismo e o lulismo é coisa de uma “extrema direita alvoroçada” é querer levar o debate para um campo polarizado e maniqueísta – o único no qual a nossa esquerda se sente à vontade para debater. Ali ela pode criar constrangimentos – e tentar calar, mediante a rotulação rasteira, aqueles que percebem as simpatias de setores importantes do governo Lula à estratégia chavista. Pode, inclusive, fazer de conta que a retórica de Baleiro e Barros não apresentam o mesmo bolor demagógico daqueles infindáveis discursos que Chávez profere contra o “imperialismo norte-americano”.
Desconfio que, nos próximos dias, assistiremos a um aumento deste tipo de ataque – apressado, dicotômico e sem qualquer fundamentação que possa sugerir uma renovação por parte da esquerda nacional. Por razões que já expliquei outro dia, nossa esquerda está um tantinho apavorada. Foi pega de surpresa por um movimento espontâneo, nascido da própria decepção com o governo de seu mais emblemático representante: graças a Lula, o brasileiro perdeu a paciência com aquele discurso padrão da esquerda.
Que o Secretário de Segurança do Rio se sinta a vontade para solicitar “não me venham com discursos acadêmicos” é um sinal. Que um consagrado autor de novelas declare que “ter carteirinha do PT” autoriza a tudo é outro. A esquerda sabe disso – e, incapaz de gerar uma argumentação inovadora, está recorrendo às velhas fórmulas.