Arquivo de fevereiro de 2007

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Opção e responsabilidade

Quando mais jovem, eu sempre imaginei que não hesitaria em abortar uma gravidez indesejada. E imaginava isso com a tranquilidade de quem tomava todas, absolutamente todas, as providências para não se ver diante de tal dilema. Mas surpresas aconteciam, volta e meia, entre meu grupo de amigos e conhecidos – de modo que eu não excluía por completo a possibilidade.

Talvez porque nunca tenha sido obrigada a tomar esta decisão, ao longo dos últimos 20 anos acabei mudando: hoje eu não interromperia uma gravidez inesperada. É uma decisão pessoal, fruto de alguns princípios de fé misturados à certeza de que seria um peso ficar convivendo com a eterna pergunta “será que foi uma decisão acertada?” Não perco de vista, porém, o fato de que assim penso hoje porque hoje tenho uma vida bem mais estável sob o ponto de vista emocional e financeiro.

Como podem ver, é uma decisão pessoal, de foro íntimo, que exponho aqui apenas para melhor ilustrar minha opinião sobre o tema. E o que eu penso é que todos devem ter o direito de decidir pessoalmente sobre isso. Pouco importa se vão fazê-lo com base em questões econômicas, religiosas ou morais. Esta é uma decisão que não cabe ao Estado. Decidir que, uma vez que tenha engravidado, uma mulher seja obrigada a ter o filho é tão invasivo quanto obrigar à ligadura de trompas àquelas que já tenham dois ou três filhos. Da mesma forma, pois, que eu não aceito o controle compulsório de natalidade chinês, não posso aceitar a intervenção sumária do Estado, obrigando que se leve adiante uma gravidez indesejada. E assim como não acho que o Estado deva assumir nossos filhos, não acho que ele deva nos obrigar a ter filhos quando nós não os desejamos. A questão ética aí envolvida deve ser resolvida por cada um, de acordo com a sua consciência e, se quiserem, com a sua fé.

Vejam a causa da paternidade responsável, que foi tema dos posts de ontem. Como exigir responsabilidade se, no final das contas não se dá opção? Uma ação pela paternidade consciente e responsável, que mostre a seriedade da tarefa – e que cobre responsabilidade daqueles que a ela se aventuram – deve não apenas trabalhar pela prevenção da gravidez indesejada. Deve vir, também, acompanhada da liberdade de opção, dando chances para que os futuros pais decidam se querem ou não assumir tal responsabilidade.

Se a religião “a” ou”b” prega que isto é inaceitável, pode fazer o que já faz hoje: orientar seus fiéis no sentido de que eles se afastem de tal prática. Mas o Estado é laico e, como tal, deveria contemplar a todos – e, aqui, devo dizer que quem é contra o aborto tende, no geral, a tratar a questão como se, ao legalizá-lo, o Estado o estivesse impondo. Não é verdade. O Estado apenas estaria permitindo a liberdade de escolha numa questão, não me canso de repetir, de foro íntimo.

Outro argumento, bastante infantil e superficial, trata a legalização do aborto como se, a apartir dela, este passasse a ser o método contraceptivo por excelência. Não é verdade – principalmente se vier acompanhado de uma campanha de conscientização nos moldes que defendi ontem. Aliás, se tal camapanha de fato fosse realizada, arrisco dizer que os índices de gravidez indesejada diminuiriam muito. Mas o extremo escatológico é, no geral, o argumento dos fanáticos – sejam eles esquerdistas, direitistas, cristãos, islâmicos, ou judeus. Sabemos que todos estes clubinhos têm lá seus extremistas – e que é preciso que nos façamos de surdos às acusações que eles tão facilmente nos dirigem para que possamos discutir de forma séria e profunda determinados temas. Caso contrário, ficaremos naquelas discussões apaixonadas que levam a lugar algum: de um lado, eles nos acusando de assassinos covardes; de outro, nós dizendo que é fácil decidir pela manutenção de uma gravidez quando não vai se arcar pessoalmente com a responsabilidade sobre a mesma.

O que importa, aqui, é diferenciar, e bem, o fato de que eu posso resolver, amanhã, integrar uma “liga anti-aborto”. Posso fazê-lo com a convicção de que estarei defendendo questões morais, éticas ou religiosas. Posso fazê-lo com intuito de conquistar mentes e corações pela “defesa da vida”. Ao Estado, porém, cabe a tarefa de permitir que aqueles que porventura não me dêem ouvidos tenham, de fato, opção. Caso o contrário, minha causa é falsa e eu nada estarei conquistando. Estarei apenas reforçando uma imposição do Estado sobre a vida privada – o que, para o caso em questão, significa fornecer mais um culpado coletivo, a quem os pais relapsos poderão sempre apontar na hora de justificar seus fracassos.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Empurrando com a barriga

Ontem me perguntaram por qual razão eu desembestei a escrever artigos maiores, desvinculados das notícias.

Primeiro, não é verdade que estejam desvinculados – e a própria citação da coluna do Clóvis Rossi, num artigo de ontem, evidencia que não. São artigos que buscam respostas – de forma um pouco mais complexa, concordo – para questões que andam saltando aos olhos. Segundo, porque este blog sempre esteve ao sabor dos acontecimentos. E quando nada realmente importante acontece, quando o país inteiro está empurrando com a barriga no aguardo da tal reforma ministerial, prefiro aproveitar o tempo para refletir.

Como tenho um blog, reflito por escrito. E é muito bom ver que não o faço sozinha mas, sim, com a ajuda dos leitores – pelo menos, com a ajuda daqueles que me escrevem ou comentam. Estes últimos, em especial, colaboram para aprofundar e/ou expandir, a depender do caso, os temas aqui tratados.

É o caso do último artigo, que suscitou a questão do aborto. Já declarei aqui, no passado, que sou a favor. Não tenho, porém, tempo para me debruçar sobre o tema agora. Mas voltarei a ele tão logo me seja possível – creio que hoje à noite. Este é, definitivamente, um tema que não dá para empurrar com a barriga.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Crescei e multiplicai-vos

Este, só pelo título, já vai dar encrenca. Mas vamos em frente, pois há muito a ser dito – e um tanto mais de hipocrisia a ser combatida.

Se o ômega da crise de responsabilidade a que me refiro no post anterior é João Hélio sendo trucidado ao longo de infernais sete quilômetros, seu alfa é aquele facilmente identificável, mas raramente debatido: a irresponsabilidade primeira, que consiste no nascimento daquela antiga “célula social”, a família.

“Crescei e multiplicai-vos” é a expressão bíblica que, na gestação desta crise, teve sua primeira e providencial palavra esquecida. Deixemos de lado a escatologia e vamos diretamente à sua mais simples interpretação: “crescei e multiplicai-vos”. Notem que não é ” multiplicai-vos e crescei”. Também não é só “multiplicai-vos”. Está claro como a água do mais puro lago: a paternidade só deve vir quando houve crescimento, ou seja, quando aqueles que se apresentam para a tarefa de dar seguimento à espécie já atingiram determinado grau de maturidade para tanto – e, o que é mais importante, quando dispõem das condições psicológicas e materais mínimas exigidas para dar conta do fardo.

Na sociedade que culpa “aos outros” porém, o tema da paternidade responsável raramente encontra espaço para discussão. Hoje, abundam as matérias a respeito da gravidez na adolescência. Paradoxalmente, raríssimas são as ocasiões em que nossa produção cultural se dedica a discutir algo tão simples e elementar: o que é preciso para ser pai e mãe? Muito ao contrário, já há algum tempo se aceita como normal, se estimula e se comemora como correto e certo, o fato de que a figura do pai seja plenamente dispensável. “Produção independente”, é o que dizemos, como se falássemos de um curta-metragem colegial ao invés da séria e complexa tarefa de criar uma criança. Não se trata aqui de condenar, desde cedo, aos filhos das mães solteiras como futuros contraventores – já que teríamos de condenar, de antemão, também aos filhos das jovens viúvas. Trata-se apenas de perceber o quanto nossa cultura estimula a idéia de que criar filhos é algo absolutamente fácil e simples – quando há muito deixou de sê-lo.

Por mais que tenha avançado do ponto de vista tecnológico, político e – vá lá – cultural, a humanidade continua encarando a procriação como algo meramente instintivo. Mais do que qualquer coisa, neste novo quadro cultural que dispensa os deveres, a procriação é um direito – direito assegurado, inclusive, pelo Estado, que em alguns casos se preocupa em disponibilizar, aos menos favorecidos, aqueles sofisticados tratamentos para infertilidade. É o mesmo Estado, notem bem, que não consegue ter um programa decente e eficaz de planejamento familiar.

Planejamento familiar, sim, senhores. Não o compulsório, no molde chinês. Mas um planejamento familiar com acesso fácil a métodos contraceptivos – principalmente a vasectomias e ligaduras de trompas, hoje praticamente irrealizáveis no sistema público de saúde, por conta de trâmites burocráticos que beiram à insanidade. Um planejamento familiar com um grande esforço de mídia, mostrando, em primeiríssimo lugar, que ter um filho é tomar para si – e para o resto da vida, fique bem claro – uma série de d-e-v-e-r-e-s. E, curiosa coisa que agora me ocorre, dentre estes deveres estão a realização de exames pré-natais e a amamentação – ambos alvos de campanhas estatais milionárias, que têm por fim remediar os efeitos da maternidade inconseqüente, mas que muito colaboram para difundir a idéia de que a coisa toda é uma maciota: ” Faça o pré-natal, É de graça.” (pode engravidar que o Estado banca o médico). “O leite materno é o único alimento que a criança precisa até o sexto mês” (viu? só dá despesa depois do sexto mês).

Até aqui, porém, pode parecer que o problema é apenas das classes sociais menos favorecidas, Não é. Basta ver os índices de adolescentes grávidas entre as classes média e alta para entender que também ali prolifera uma total falta de consciência a respeito do tema. Por óbvio que estas meninas e suas proles pouco ou nada pesarão para o Estado. Mas podem vir a pesar, e muito, para a sociedade se seus filhos forem criados sem a necessária disciplina – resultado direto da culpa que persegue pais e mães que, por obrigação ou opção, dedicam mais tempo às suas carreiras do que às pequenas criaturinhas que colocaram no mundo. É óbvio que também aqui a noção de paternidade responsável é frágil. Ora é porque os pais resolvem se eximir do papel que lhes cabe para – suprema sombra e água fresca – serem “os melhores amigos dos filhos” – e os professores e a sociedade em geral que se virem depois para suportar o janotinha mimado; ora porque eles simplesmente não sabiam muito bem onde estavam se metendo. Para estes últimos, o supra-sumo da novidade são as “brinquedotecas”, depósitos onde os abastados podem largar os filhos nos finais de semana – aqueles dois dias terríveis em que a escola permanece fechada e as babás estão de folga.

É claro que há muitas crianças que, nascidas em lares que não estavam inicialmente preparados para recebê-las, acabaram encontrando ali condições plenas para o seu desenvolvimento – a saber, amor, disciplina e suporte material mínimo para garantir-lhes uma vida decente. Mas, por outro lado, se olharmos para cada delinqüente juvenil, veremos que a grande maioria nasceu e se criou em estruturas familiares destroçadas. Logo se conclui, pois, que é preciso encarar a paternidade responsável como a grande e principal causa a ser hoje defendida. Sem ela, jamais haverá Conselhos Tutelares, escolas, lei ou polícia suficiente.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Os outros

Hoje, em sua coluna para a Folha de S.Paulo, Clóvis Rossi, traz o depoimento de um professor do ensino público que reclama, entre outras coisas, da não participação dos pais na educação formal dos filhos – os pais não apareceram na escola para reclamar o baixíssimo rendimento da criançada em um concurso de matermática.

A coisa só pode surpreender a quem pouco convive com professores de ensino médio e fundamental. Não é o meu caso. Até bem pouco tempo, eu convivia quase que diariamente com eles. E posso lhes afirmar que os relatos do dia-a-dia dessa gente são o testemunho de que o desleixo dos pais não é apenas com o ensino formal: é com a educação em geral – com aquilo que, em última instância, nossas crianças deveriam aprender em casa.

Não vou nem listar aquelas questões que, vez por outra, recebem destaque da mídia: alunos armados, professores ameaçados etc e tal. Esta é só a ponta do iceberg. Vamos ao rés do chão, aquela instância que a mídia não costuma mostrar. Porque é lá, penso eu, que o problema começa. E o que temos? Temos alunos psicologicamente abalados, incapazes de apreender qualquer coisa, porque o pai, bêbado, passou a noite batendo na mãe. Alunos perturbados porque a mãe, prostituta, recebe cinco ou seis clientes por noite no casebre de um só cômodo. Alunos sem noções de higiene, que precisam ser apresentados ao chuveiro e à escova de dentes pela professora. Alunos, enfim, simplesmente abandonados por aqueles que os geraram.

Mas não se engane o leitor achando que o problema é meramente social. Nas casas onde o banho é quente porque nunca falta dinheiro para a conta de luz ou de gás, há também abandono: ou porque pai e mãe trabalham muito para manter um padrão de vida decente, ou porque estão envolvidos demais com seus próprios umbigos – e não raro com suas próprias bebedeiras, entorpecentes e promiscuidade. Ali, onde tudo cheira a limpeza, estão também os filhos daqueles que procriam sem a exata noção da responsabilidade exigida pela tarefa. Com sorte e com dinheiro, porém, eles podem contar com um serviçal que lhes substitua a presença – mas não, fique bem claro, a autoridade.

Voltemos à reclamação do professor apresentada por Rossi: como esperar que este pessoal, que não dá conta nem do que deveria fazer em casa, vá à escola reclamar do ensino recebido pelos filhos? Antes de mais nada, seria preciso que eles aparecessem para apanhar o boletim da garotada, certo? E, ao darem o ar da graça em tão jocoso evento, esperaria-se que não viessem alcoolizados – ou com o propósito de quebrar os dentes daquela professora que insiste em dar zero ao menino. Sim, porque a postura da grande maioria dos pais, de todas as classes socias, que ainda se dão ao trabalho de ir a escola discutir o desempenho de seus filhos, é simplesmente colocar toda a carga de culpa sobre os ombros do professor.

As péssimas condições do ensino no Brasil – e a forma como a mídia constantemente repercute este tema – colaborou para uma inversão de valores. Encontrou-se, pois, a desculpa ideal: o problema é sempre da escola e do professor. Mais adiante, quandos estas crianças estiverem reclusas em celas, terá sido ” culpa da sociedade”. E mais: se, porventura, um destes meninos ou meninas, num futuro próximo, for pego tentando ingressar ilegalmente em algum país do hemisfério norte, a culpa será do “capitalismo selvagem” ou da globalização.

O quadro da educação, já se vê, é apenas uma faceta de uma questão muito maior. Estamos vivendo uma crise que é menos fruto de questões socias e mais, muito mais, resultado de uma mudança cultural: há sempre um culpado, um “outro”, no geral coletivo e não facilmente individualizável, a quem podemos culpar por nossos fracassos. Se esta crise pode ser resumida em um só termo, eu diria que ela atende pelo nome de “crise de responsabilidade”. É nos braços dela que chegamos a este quadro geral de impunidade, no qual todos querem ter direitos e poucos, muito poucos, reconhecem que eles devem vir acompanhados de deveres.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Não foi equecida

No último dia 6, quetionei aqui no blog a quantas andava a CPI das ONGs.

Há poucos minutos, o senador Heráclito Fortes subiu à tribuna para dar satisfações a respeito da mesma: diz o senador que já possui mais de 60 assinaturas para solicitar a abertura da CPI das ONGs- e que se ainda não entrou com o pedido para a sua instalação é porque aguarda a definição dos quadros ministerias. Fortes teme que, na atual conjuntura – em que ninguém sabe se sai ou se fica – , os ocupantes de determinados quadros, que porventura sejam chamados a colaborar, aleguem que estão, no momento, apenas cumprindo provisoriamente suas funções. Segundo o senador, isto prejudicaria, mais uma vez, o cumprimento do prazo estabelecido para que a CPI encerre seus trabalhos.

Então tá. Aguardemos a distribuição ministerial de Lula. Dizem que sai só depois de 19 de março.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Lá vem a sela…

Amanhã a OAB e o Planalto se reunem para tentar fechar a proposta de reforma política que Arlindo Chinaglia prometeu, na última sexta-feira, colocar em pauta. Se Chinaglia cumprir a promessa, o projeto deverá chegar ao Legislativo em algumas semanas – tempo hábil para que seja apreciado por todos os partidos.

A OAB não gostou do tom do presidente da Câmara, que deixou claro que as propostas da entidade eram meras sugestões. Mas esfregou as mãozinhas de satisfação ao ver que a discussão está prestes a se tornar realidade.

Já eu não gostei foi do tilintar de sela e buçal que ouço sempre que alguém falar em “voto em lista”. Juntamente com fidelidade partidária e o financiamento público de campanhas, o voto em lista integra aquilo que o governo tem como tripé fundamental da reforma.

Paradoxalmente, o pacote da OAB traz, também, a tal proposta para a convocação de plebiscitos e referendos pela sociedade, sem a mediação do Legislativo. Confuso, não? Por um lado, a sociedade brasileira já estaria suficientemente madura para decidir diretamente a respeito de determinados temas. Por outro, não tem discernimento para decidir diretamente sobre quem merece ou não seu voto – no que precisa ser tutelada pelos partidos. Me parece que estão é a nos oferecer espelhinhos e contas de vidro: “divirtam-se aí decidindo sobre a eutanásia, enquanto nós decidimos o orçamento da saúde”.

O voto em lista, como vocês devem saber, é aquele subterfúgio através do qual os partidos escolhem quais políticos gostariam de ver eleitos – e o eleitor se limita a votar na legenda. Quer dizer, lá pelas tantas, quem simpatiza com o programa do PSDB pode se ver obrigado a engolir um Eduardo Azeredo, simplesmente porque o partido resolveu que ele deve encabeçar a lista dos candidatos à Câmara Federal – e que a maioria dos votos da legenda serão direcionados para ele. Vale o mesmo para o PFL e Roberto Brant. Já o PT dispensa exemplos. Primeiro porque a lista ficaria longa demais para um só post. Segundo, porque os petistas já têm o hábito de acatar qualquer coisa que o partido lhes enfie goela a baixo – de modo que o governo está apenas querendo estender a todo o quadro político nacional aquela burra procuração em branco que a militância costuma passar ao PT.

Há coisa de três anos, quando a proposta do voto em lista começou a ser mais dicutida por conta da apresentação de um projeto de lei da lavra de Ronaldo Caiado, Miro Teixeira alertava para o fato de que a disputa pela presença ou não em listas futuras coagiria os deputados a serem sempre fiéis às decisões de seus partidos – e, o principal, observava que o impeachment de Fernando Collor não teria ocorrido em tal conjuntura.

E é exatamente este o perigo. Se, por um lado, é verdade que o modelo atual, por ser personalista, enfraquece a importância dos programas partidários no processo de decisão do eleitor, também é verdade que, com o voto em lista, os deputados ficam mais desobrigados (ainda!) de prestar contas à população. Esta é a queixa corrente na Argentina e na Espanha – para citar dois países que usam o sistema. O referencial dos deputados passa a ser somente o partido – o único que lhes pode garantir presença na lista da eleição seguinte. Não é difícil concluir, pois, que no Brasil a corrupção apenas passará a se dar nas entranhas – sempre bem protegidas dos olhos e ouvidos populares – partidárias. Alguém aí se arrisca a imaginar a que peso será negociado o primeiro lugar da lista?

Finalmente, se nenhum destes argumentos lhe parecerem suficientemente fortes, lembre-se que o voto direto é um direito constitucional, prestes a ser derrubado porque gente como Zé Dirceu, que quer dar os partidos – estas instâncias tão probas da nossa representação política – o direito de limitar nossas escolhas. É a sela que vem, tilintando, na nossa direção. Logo, logo eles vão querer montar.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Uma nação “dimenor”

Na Folha de S. Paulo de hoje, Eliane Cantanhêde comenta a varredura que autoridades dos EUA e da União Européia estão promovendo para capturar imigrantes ilegais. Nos avisa, também, que na Europa, segundo matéria da BBC, o alvo principal são os sulamericanos. Em seguida, conclui :

E a educação, como vai? De acordo com o Enem (ensino médio) e o Saeb (ensino básico), vai de mal a pior. E o índice de desenvolvimento? É, disparado, o menor entre todos os emergentes. Um vexame. Vida dura, essa de brasileiro. Se fica, o bicho da violência, do desemprego e da desesperança pega. Se corre, o bicho da arrogância do Primeiro Mundo come – e devolve.”

Boa fruta latinoamericana, dona Eliane não cai longe do pé: em surto de vitimismo explícito, comete aquele pecadilho tão comum por estas playas. Reclama ela, com razão, da violência que escorre pelas abertas veias desta nuestra América. Sem reflexão, porém, acusa de arrogância aqueles países onde a violência não grassa justamente porque a lei se faz cumprir.

Dona Eliane parece não atentar para o óbvio: imigração ilegal é crime e deve ser tratada como tal. Mais: é esta rigorosa observação da lei, não importando a qualidade do delito, que lhe permite andar tranqüilamente, sem medo de balas perdidas ou seqüestros relâmpagos, pelas ruas de Paris, Madri, New York ou Boston.

Confesso que fiquei surpresa. Não imaginava que uma jornalista de tal expressão pudesse padecer tão cronicamente deste banzo colonial – este, que nos joga de volta ao alvorecer do século XIX, que nos condena à eterna condição de povo-criança e prega que devemos receber, por parte do hemisfério norte, um tratamento diferenciado e condescendente.

Enquanto prevalecer este banzo, a educação e o índice de desenvolvimento podem continuar um vexame. Afinal de contas, somos as vítimas de um sistema perverso, que nos exclui e nos empurra para a criminalidade. Somos um povo imberbe, incapaz de resolver seus problemas ou de assumir suas infrações. Somos, no quadro mundial, aquele trombadinha de nariz escorrendo e olhar inocente. Queremos bater a carteira dos ricos arrogantes, entrar em sua casa, usufruir de seu desenvolvimento sem pagar impostos, sem respeitar suas leis ou arcar com qualquer responsabilidade. Mais do que tudo, queremos o eterno direito de gritar, toda vez que a polícia dos ricos arrogantes apanhar um de nós, aquele malandro bordão “Sou dimenor !”

sábado, 24 de fevereiro de 2007

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” Integrantes do MST se enterram em Caxias do Sul. Foto: Daniela Xu / Agência RBS

Acabo de lembrar de uma piada muito velha, mas perfeita para a ocasião.

Acho que era mais ou menos assim: depois de morrer, Fidel foi para o inferno. Lá chegando, foi colocado ao lado de Stalin, numa piscina cheia de merda. Vendo que o nível dos excrementos chegava apenas até o pescoço, o cubano comentou: ” Até que a coisa não é tão terrível”. Mas o companheiro limitou-se a gritar: ” Não fala! Mergulha, que lá vem a foice!”.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Salvando o dia

O clima de pega-chuta-lincha que vem se espalhando por aí, depois dos últimos episódios de violência urbana, está ótimo para propostas de “democracia radical”. Como se sabe, democracia com adjetivo é um perigo.”

(…)

Esse é o caldo de cultura típico, perfeito, inconfundível para a apoteose do populismo. E ele explodirá neste segundo mandato de Lula, podem aguardar, com potência sem igual na história do Brasil pós-ditadura militar. Seu codinome é reforma política.”

É Guilherme Fiuza salvando esta sexta-feira modorrenta com um excelente artigo. Corra lá para ler na íntegra.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Notícias bombásticas

Uma lula gigante de 450 quilos (Deus me livre… toc, toc, toc) foi capturada ontem, em águas antárticas. A ameaçadora criatura simplesmente emergiu ante o incrédulo olhar dos pescadores neozelandeses.

E hoje, jornais do mundo inteiro noticiam que, nas savanas do Senegal, fêmeas de chimpanzés estão fabricando lanças para caçar – salto evolutivo muito parecido com aquele realizado pelos nossos ancestrais, há cerca de 6 milhões de anos.

Como vocês podem ver, o reino animal está bombando.

Devo, pois, me comover com a nova virada discursiva de um Pedro Simon que, contariado com a lentidão de Lula em distribuir ministérios ao PMDB, ocupou a tribuna do Senado, na manhã de hoje, para retomar as críticas ao governo? Ou quem sabe deveria me dedicar à Marta Suplicy, que anda às vésperas de entrar para a história política brasileira com o justo epíteto de “aquela que foi sem nunca ter sido”?

Esqueçam. Prefiro os chimpanzés.