Quando mais jovem, eu sempre imaginei que não hesitaria em abortar uma gravidez indesejada. E imaginava isso com a tranquilidade de quem tomava todas, absolutamente todas, as providências para não se ver diante de tal dilema. Mas surpresas aconteciam, volta e meia, entre meu grupo de amigos e conhecidos – de modo que eu não excluía por completo a possibilidade.
Talvez porque nunca tenha sido obrigada a tomar esta decisão, ao longo dos últimos 20 anos acabei mudando: hoje eu não interromperia uma gravidez inesperada. É uma decisão pessoal, fruto de alguns princípios de fé misturados à certeza de que seria um peso ficar convivendo com a eterna pergunta “será que foi uma decisão acertada?” Não perco de vista, porém, o fato de que assim penso hoje porque hoje tenho uma vida bem mais estável sob o ponto de vista emocional e financeiro.
Como podem ver, é uma decisão pessoal, de foro íntimo, que exponho aqui apenas para melhor ilustrar minha opinião sobre o tema. E o que eu penso é que todos devem ter o direito de decidir pessoalmente sobre isso. Pouco importa se vão fazê-lo com base em questões econômicas, religiosas ou morais. Esta é uma decisão que não cabe ao Estado. Decidir que, uma vez que tenha engravidado, uma mulher seja obrigada a ter o filho é tão invasivo quanto obrigar à ligadura de trompas àquelas que já tenham dois ou três filhos. Da mesma forma, pois, que eu não aceito o controle compulsório de natalidade chinês, não posso aceitar a intervenção sumária do Estado, obrigando que se leve adiante uma gravidez indesejada. E assim como não acho que o Estado deva assumir nossos filhos, não acho que ele deva nos obrigar a ter filhos quando nós não os desejamos. A questão ética aí envolvida deve ser resolvida por cada um, de acordo com a sua consciência e, se quiserem, com a sua fé.
Vejam a causa da paternidade responsável, que foi tema dos posts de ontem. Como exigir responsabilidade se, no final das contas não se dá opção? Uma ação pela paternidade consciente e responsável, que mostre a seriedade da tarefa – e que cobre responsabilidade daqueles que a ela se aventuram – deve não apenas trabalhar pela prevenção da gravidez indesejada. Deve vir, também, acompanhada da liberdade de opção, dando chances para que os futuros pais decidam se querem ou não assumir tal responsabilidade.
Se a religião “a” ou”b” prega que isto é inaceitável, pode fazer o que já faz hoje: orientar seus fiéis no sentido de que eles se afastem de tal prática. Mas o Estado é laico e, como tal, deveria contemplar a todos – e, aqui, devo dizer que quem é contra o aborto tende, no geral, a tratar a questão como se, ao legalizá-lo, o Estado o estivesse impondo. Não é verdade. O Estado apenas estaria permitindo a liberdade de escolha numa questão, não me canso de repetir, de foro íntimo.
Outro argumento, bastante infantil e superficial, trata a legalização do aborto como se, a apartir dela, este passasse a ser o método contraceptivo por excelência. Não é verdade – principalmente se vier acompanhado de uma campanha de conscientização nos moldes que defendi ontem. Aliás, se tal camapanha de fato fosse realizada, arrisco dizer que os índices de gravidez indesejada diminuiriam muito. Mas o extremo escatológico é, no geral, o argumento dos fanáticos – sejam eles esquerdistas, direitistas, cristãos, islâmicos, ou judeus. Sabemos que todos estes clubinhos têm lá seus extremistas – e que é preciso que nos façamos de surdos às acusações que eles tão facilmente nos dirigem para que possamos discutir de forma séria e profunda determinados temas. Caso contrário, ficaremos naquelas discussões apaixonadas que levam a lugar algum: de um lado, eles nos acusando de assassinos covardes; de outro, nós dizendo que é fácil decidir pela manutenção de uma gravidez quando não vai se arcar pessoalmente com a responsabilidade sobre a mesma.
O que importa, aqui, é diferenciar, e bem, o fato de que eu posso resolver, amanhã, integrar uma “liga anti-aborto”. Posso fazê-lo com a convicção de que estarei defendendo questões morais, éticas ou religiosas. Posso fazê-lo com intuito de conquistar mentes e corações pela “defesa da vida”. Ao Estado, porém, cabe a tarefa de permitir que aqueles que porventura não me dêem ouvidos tenham, de fato, opção. Caso o contrário, minha causa é falsa e eu nada estarei conquistando. Estarei apenas reforçando uma imposição do Estado sobre a vida privada – o que, para o caso em questão, significa fornecer mais um culpado coletivo, a quem os pais relapsos poderão sempre apontar na hora de justificar seus fracassos.