Arquivo de 19 de fevereiro de 2006

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Eu juro que vi.

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Foto by Nariz Gelado

Ontem eu vi uma embarcação.

Era uma embarcação humilde, pequena, quase imperceptível em meio às potentes lanchas que descansavam no ancoradouro.

Não sei porque a notei.

Talvez pela estranha beleza – quase uma feiúra – pintada em verde, azul e amarelo. Talvez pelo nome grafado no casco.

Esperança.

Durante muito tempo, ela ficou imóvel. E havia dignidade naquela quietude, na forma singela com que Esperança exibia sua beleza feia, enquanto aguardava alguém que a fizesse singrar as águas.

Aguardei com ela.

A cada motor ligado, eu levantava os olhos na expectativa de que fosse a sua vez. Saber quem embarcaria em Esperança, tornou-se a inofensiva obsessão de uma tarde de sábado.

Não marquei no relógio. Creio, porém, que se passaram três horas antes que eu percebesse que aquele ruído suave vinha dela. Quando dei por mim, Esperança já se afastava do ancoradouro.

Pelo vidro da cabine, consegui vislumbrar o vulto de um homem. E adivinhei sua idade avançada, o rosto vincado de uma vida sob o sol e sobre a água.

Era uma imagem triste aquela. A Esperança em verde, amarelo e azul, era solitária. Tinha, por passageiro e condutor, um único amigo. E ele estava velho e cansado.

Contudo, quando ela já manobrava em direção ao canal, vi algo brilhando no convés. Um segundo depois, descobri que era a cabeleira de um menino. Ocupado em recolher uma corda qualquer, ele nem se deu conta de que alguém, em terra, esperava ansiosa por um aceno.

Não importa quão ruim as coisas pareçam hoje. A Esperança é verde, amarela e azul. O condutor pode até estar cansado. Mas eu sei que o menino está à bordo. Eu sei porque vi. Juro que vi.