Gustav Klimt, “The Kiss”, 1908
“Não há experiência de corpo que não seja também experiência de alma, o contrário sendo também verdadeiro”.
(Gilberto Freyre)
Gustav Klimt, “The Kiss”, 1908
“Não há experiência de corpo que não seja também experiência de alma, o contrário sendo também verdadeiro”.
(Gilberto Freyre)
Para além das cuícas e pandeiros, duas notícias vão garantir algum barulho político durante o feriado de Carnaval.
Nos EUA, a Justiça autorizou que a CPI tenha acesso às movimentações financeiras de Duda Mendonça no exterior.
Aqui, o TCU quer explicações sobre a compra de bebidas alcoólicas e alimentos “refinados” para a Granja do Torto e o Palácio da Alvorada. Entre janeiro de 2004 e julho de 2005, estes itens consumiram R$ 608 mil dos cofres públicos.
Se o segundo turno fosse hoje, Lula venceria Serra por 5 pontos percentuais. É o que diz a pesquisa da Datafolha realizada entre segunda e terça-feira desta semana.O resultado é preocupante sobretudo porque, contabilizado às pesquisas anteriores, mostra que Lula vem crescendo.
Noto que a maioria dos articulistas políticos têm associado esta ascensão do presidente com a “indecisão” do PSDB em apontar um candidato.
Discordo.
Esta recuperação de Lula é um resultado direto do péssimo desempenho da oposição nas CPIs. Próximas do fim, as comissões que deveriam apurar os escândalos do atual governo mal conseguem manipular o grande volume de informações que receberam. Passado o período circense, dos depoimentos bombásticos, ficamos todos esperando os resultados do tal “trabalho de formiguinha” que Osmar Serraglio tanto alardeou. E eles não vieram.
Os processos de cassação dos envolvidos no esquema de Marcos Valério se arrastam ao vergonhoso ritmo da Câmara dos Deputados. Para completar, a oposição articulou descaradamente a fim de salvar as cabeças de Brant e Azeredo. Não se acanhou, nem mesmo, em usar um segundo depoimento de Duda Mendonça como moeda de troca.
Agora, a mesma oposição faz corpo mole em relação à lista de Furnas: o lobista ameaça, ganha cada vez mais espaço na mídia, e ninguém tem coragem de enfrentá-lo. A Controladoria-Geral da União começa a encontrar indícios de que há problemas sérios em Furnas, mas a oposição continua se fazendo de morta.
Esta postura – condenável sob vários aspectos – já começa a mostrar o seu preço na escalada eleitoral. E ele é salgado. Na melhor das hipóteses, reforça a teoria esdrúxula de que o PT foi vítima de perseguição política. Na pior, demonstra que todos, absolutamente todos, os políticos e partidos são iguais. E qualquer uma dessas hipóteses irá beneficiar a Lula – que é, afinal de contas, quem detém a máquina governamental para alavancar votos.
Volto a dizer o que tenho dito nos últimos meses: ou a oposição promove uma limpeza em praça pública, ou Lula se reelege.
Furnas é a última chance. É pegar ou largar.
Lider da bancada do PT no Senado, a senadora Ideli Salvatti levou uma rasteira ontem: foi obrigada a desistir de sua alardeada candidatura ao governo de Santa Catarina.
Motivo: o prazo final para a inscrição nas prévias foi antecipado, de surpresa, do dia 26 para ontem – e a senadora não consegui reunir as 21 assinaturas necessárias para inscrever-se.
O episódio – que, num passe de mágica, transformou José Fritsch em candidato único – demonstra bem o quanto é ilusório o processo democrático com o qual o PT vive a iludir sua militância. A exemplo do que já acontecera em São Paulo, por ocasião da escolha do candidato às eleições municipais de 2004, o descumprimento das regras estatutárias acabou eliminando a necessidade de prévias.
Mentira é despesa de campanha não contabilizada. Fantasia é não contabilizar a barriguinha do homem amado.
Mentira é não quebrar o sigilo do Paulo Okamotto. Fantasia é quebrar o micro na cabeça do chefe.
Mentira é o presidente dizer que ninguém é mais ético do que ele. Fantasia é acreditar que você é a mais bonita da festa.
Mentira é afirmar que a cueca carrega os lucros da feira. Fantasia é imaginar que a cueca carrega o Mel Gibson.
Mentira é declarar que este governo não rouba nem deixa roubar. Fantasia é você acreditar que ama só para transar.
A fantasia é uma mentira que nasce para nos fazer feliz.
Foto by: Capitão.
A foto acima é da última quinta-feira, durante o seminário promovido pelo Instituto Teotônio Vilela, em associação com o IEDI e a Comissão Executiva Nacional do PSDB, em São Paulo.
Não saiu na imprensa. E nem sairá.
Harmonia não vende jornal.
Imagine uma sociedade civil, sem fins lucrativos, cuja receita – que gira em torno de uns R$ 840 milhões – seja oriunda da contribuição de empresas privadas, recolhida pelo INSS, sobre a folha de pagamento.
Agora imagine que o presidente desta sociedade, por um motivo qualquer, seja convidado a abrir seu sigilo bancário e se negue a fazê-lo. Imagine, inclusive, que ele vá às últimas instâncias da Justiça para não fazê-lo.
O que você pensaria deste presidente?
Pois pode parar de imaginar porque o caso em questão existe.
A sociedade sem fins lucrativos é o SEBRAE. E seu presidente é Paulo Okamotto.
Foto by Nariz Gelado
Ontem eu vi uma embarcação.
Era uma embarcação humilde, pequena, quase imperceptível em meio às potentes lanchas que descansavam no ancoradouro.
Não sei porque a notei.
Talvez pela estranha beleza – quase uma feiúra – pintada em verde, azul e amarelo. Talvez pelo nome grafado no casco.
Esperança.
Durante muito tempo, ela ficou imóvel. E havia dignidade naquela quietude, na forma singela com que Esperança exibia sua beleza feia, enquanto aguardava alguém que a fizesse singrar as águas.
Aguardei com ela.
A cada motor ligado, eu levantava os olhos na expectativa de que fosse a sua vez. Saber quem embarcaria em Esperança, tornou-se a inofensiva obsessão de uma tarde de sábado.
Não marquei no relógio. Creio, porém, que se passaram três horas antes que eu percebesse que aquele ruído suave vinha dela. Quando dei por mim, Esperança já se afastava do ancoradouro.
Pelo vidro da cabine, consegui vislumbrar o vulto de um homem. E adivinhei sua idade avançada, o rosto vincado de uma vida sob o sol e sobre a água.
Era uma imagem triste aquela. A Esperança em verde, amarelo e azul, era solitária. Tinha, por passageiro e condutor, um único amigo. E ele estava velho e cansado.
Contudo, quando ela já manobrava em direção ao canal, vi algo brilhando no convés. Um segundo depois, descobri que era a cabeleira de um menino. Ocupado em recolher uma corda qualquer, ele nem se deu conta de que alguém, em terra, esperava ansiosa por um aceno.
Não importa quão ruim as coisas pareçam hoje. A Esperança é verde, amarela e azul. O condutor pode até estar cansado. Mas eu sei que o menino está à bordo. Eu sei porque vi. Juro que vi.
Estou há horas fugindo deste programa.
Hoje não teve jeito: o dia está lindo e eu caí na besteira de dizer que não tinha planos para o sábado, antes de saber qual era o convite.
Almoço na Costa da Lagoa.
Vamos de barco.
Eu costumo enjoar.
Rezem por mim.
No mesmo dia em que foi tomada uma decisão histórica para acabar com o nepotismo no Judiciário, surgem novas suspeitas de que o filho do presidente Lula anda usufruindo de favorecimentos.
Agora descobre-se que, além daquele capital inicial de R$ 5 milhões, a Gamecorp – empresa de Fábio Luis Lula da Silva -, recebe da Telemar outros R$4,989 milhões anuais em patrocínio para a produção dos seus programas de televisão.
Eu tenho quase certeza de que toda esta negociação entre a Telemar e a Gamecorp foi formalizada dentro dos limites da lei. Para além da incômoda suspeita de favorecimento, nada será encontrado.
Mas – vejam, vocês, como são as coisas – eu também tenho certeza de que há muitos parentes de membros do Judiciário que, por seu preparo e competência, merecem os cargos de confiança que ocupam. Ontem, porém, o Supremo decidiu que esta relação não é correta – e que, portanto, eles devem ser demitidos.
A situação é a mesma para o caso do filho do presidente: por mais que a negociação entre a Telemar e a Gamecorp se dê nos limites da lei, todos sabem que ela fere a ética e a moral que deveriam permear as relações entre o poder público e a iniciativa privada.
Todos sabem. Todos menos Lula. Ele nunca sabe.