Arquivo de dezembro de 2005

sábado, 31 de dezembro de 2005

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Ah! Os relógios!

Mário Quintana

Amigos, não consultem os relógios

quando um dia eu me for de vossas vidas

em seus fúteis problemas tão perdidas

que até parecem mais uns necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:

não o conhece a vida – a verdadeira –

em que basta um momento de poesia

para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna

somente por si mesma é dividida:

não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados

quando alguém – ao voltar a si da vida –

acaso lhes indaga que horas são…

Ps.: Que em 2006 a gente aprenda a olhar menos para o relógio. E a valorizar cada segundo como se fosse único. Pois é exatamente assim que é. Feliz Ano Novo. N.G.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Resoluções de Ano Novo

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Fazer aquele passeio de escuna em torno da ilha.

Ir dormir mais cedo para acordar mais cedo.

Passar algumas madrugadas papeando com os amigos na web.

Bater no governo Lula.

Aprender a beber carménère sem fazer careta.

Ir a New York para um café da manhã no Odessa da Avenue A.

Ouvir mais.

Bater no governo Lula.

Conseguir uma cópia legendada de Le Roi Danse para trabalhar em sala de aula.

Comer mais verduras.

Papear longamente com o seu Lobo, lá da Praia do Forte.

Cerveja, em maio ou junho, no Bairro Santa Cruz, em Sevilla.

Bater no governo Lula.

Arrumar mais tempo para beijar meus sobrinhos.

Ir a São Paulo para abraçar alguns amigos.

Ensinar minha mãe a usar o MSN.

Bater no governo Lula.

Aprender a falar mais baixo.

Comprar uns CDs de bossa nova.

Descobrir uma nova receita de salmão.

Ir a Brasília para a posse de Serra ou Alckmin.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Quem não te conhece que te compre.

“Quem tratou de maneira mais correta e republicana os movimentos sociais, sejam eles de empresários ou de trabalhadores?”

A frase acima integra o artigo de Tarso Genro para a edição de hoje da Folha de São Paulo. Ensaiando uma análise da atual crise política – ao mesmo tempo em que tenta sugerir,ao PT, uma estratégia de debate para a futura campanha presidencial – Genro busca evidenciar pontos positivos que, devidamente explorados, podem levar Lula à reeleição.

Embora se esforce para manter um tom moderado, o ex-ministro da Educação derrapa na ladainha que tem perpassado todo o discurso petista desde que eclodiram os primeiros escândalos de corrupção no governo Lula: acusar a imprensa de golpismo – esta imprensa que, segundo ele, “é predominantemente apoiadora do PSDB ou do PFL”.

Eu sei que acabo batendo sempre na mesma tecla. Mas é impossível não fazê-lo quando o outro lado insiste em repetir à exaustão, um mesmo e falso argumento – como se isto pudesse transformá-lo em verdade. Basta ler os jornais de 2003 para ver que a maior parte da imprensa esteve em lua de mel com Lula e com o PT. O problema é que a imprensa não é partido – e não pode se negar a investigar e divulgar determinados fatos simplesmente porque eles são desfavoráveis ao governo.

Não que o governo não tenha tentado tal façanha.

Lembrem-se da tentativa de expulsar o jornalista norte-americano que escreveu sobre os hábitos etílicos do presidente. Recordem o empenho em nos fazer engolir o Conselho de Jornalismo. Busquem na memória a reação agressiva do presidente que, ao ver fracassada esta última tentativa, chamou aos jornalistas de “covardes”.

Daí me respondam se podemos confiar na “maneira correta e republicana” de Tarso Genro.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

O desastre Lula e a situação de emergência

Em 2000, quando Fernando Henrique Cardoso instituiu o Plano Nacional de Defesa Civil, que estabeleceu que, a exemplo dos países desenvolvidos, o foco seria a redução de desastres, já parecia antever a catástrofe Lula.

Lula, por sua vez, ao sancionar o Decreto Lei 5.376, em 17 de fevereiro de 2005, regulamentando o Plano e criando o SINDEC, Sistema Nacional de Defesa Civil, não imaginava que estaria no meio de um furacão no final do ano.

O Decreto estabeleceu que “situação de emergência é o reconhecimento pelo poder público de situação anormal, provocada por desastres, causando danos superáveis pela comunidade afetada”. Nada a ver com o atual desastre de gestão das estradas brasileiras.

O Decreto criou o SINDEC, Sistema Nacional de Defesa Civil, que sob coordenação do Ministério da Integração Nacional, não tem entre as suas prerrogativas consertar buracos em rodovias, a não ser buracos causados pela queda de estrelas ou de meteoros. O Artigo 15, Inciso V, é transparente: “ao Ministério dos Transportes cabe adotar medidas de preservação e de recuperação dos sistemas viários e terminais de transportes terrestres, marítimos e fluviais, em áreas atingidas por desastres, bem como controlar o transporte de produtos perigosos”.

O mais interessante: o Decreto Lei 5.376 deixa claro que não compete ao Governo Federal decretar uma situação de emergência.

A decretação é feita pelo Município, homologada pelo Governo Estadual e somente posteriormente reconhecida pelo Governo Federal, quando isto é solicitado pelo Governo do Estado em função de falta de recursos para atendimento ao desastre.

Logo, o Desastre Lula vai realmente ter que enfrentar outra situação de emergência: terá que licitar, pela velha e boa Lei 8666 os R$ 200 milhões que pretendia despejar nos buracos das estradas brasileiras – coisa que possivelmente pretendia fazer sem licitação, pelas mãos caridosas de empreiteiras amigas, em pleno ano eleitoral.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

Eu, FHC, Delcídio e Serraglio

O jornalista Jorge Bastos Moreno está promovendo, desde a semana passada, uma enquete em seu blog. Moreno quer saber quem foi a “Personalidade do Ano em 2005″. Às vésperas do Natal, passei por lá para votar no Noblat – faz tempo que escolhi um lado nesta pseudo batalha que os dois encenam.

Pois hoje, para meu completo espanto, recebo um e-mail comunicando que também estou no páreo.

Na prévia publicada ontem, apareço com três votos. É uma posição e tanto, se considerarmos que eu a estou dividindo com Fernando Henrique Cardoso, Osmar Serraglio, Delcídio Amaral, Bento XVI e o senador Mão Santa. É verdade que também empatei com o Touro Bandido – mas considerem que ele não deixa de ser uma estrela global.

Não pedirei votos. Já acho demais ter chegado a tanto. Apenas agradeço aos três leitores – cujos nomes é impossível recuperar no sistema do Moreno – a carinhosa lembrança.

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

Desapego

Encerrado o prazo para os deputados abrirem mão dos R$25 mil correspondentes a convocação de janeiro, temos um total de 28 nomes que se negaram a receber o dinheiro. Alguns optaram apenas por não receber. Outros, fizeram doações a entidades filantrópicas. Há, ainda, aqueles que se atrasaram ao requerer o cancelamento do valor junto à diretoria-geral da Câmara, mas que pretendem doar o dinheiro – caso de Luciana Genro (PSol-RS) e Raul Jungmann (PPS-PE).

No Senado, o prazo para a desistência de recebimento do salário extra encerra em duas semanas – e é prováel que a atual lista, que conta com apenas quatro nomes, venha a crescer.

Este é um daqueles momentos em que a gente não sabe se comemora ou emite impropérios. Porque, por mais que concordemos que o pagamento de extras a parlamentares é um absurdo, sabemos que muitos irão se aproveitar da situação para fazer demagogia. É, por exemplo, sintomático que o PT – após passar o ano envolvido em denúncias de corrupção – esteja liderando a lista dos parlamentares que abriram mão de receber o dinheiro. De qualquer forma, parece que há um estatuto do Partido dos Trabalhadores que proibe o recebimento deste tipo de vantagem – o que diminui o impacto dos que já abriram mão, ao mesmo tempo em que nos obriga a questionar sobre o silêncio dos demais parlamentares petistas.

Numa situação como essa, o ideal é que a súbita demonstração de desapego pudesse ser cruzada com outras informações a respeito dos parlamentares. Então, talvez, o eleitor pudesse separar o joio do trigo, identificando quais são os nomes realmente sérios destas listas. Mas, em um país com baixíssimos índices de escolaridade e leitura, informações mais detalhadas são artigo de luxo. Logo, o que restará destas listas é o de sempre: artilharia para jocosos discursos de campanha.

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

Uma boa surpresa

No dia de ontem, a despeito da convocação extraordinária, os corredores do congresso nacional estavam vazios. A debandada dos parlamentares foi geral e até o deputado Ricardo Izar, presidente do Conselho de Ética da Câmara – que batera pé pela convocação extraordinária – saiu de férias.

Contudo, pelo menos um deputado permaneceu em Brasília. E esteve trabalhando: o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) foi visto, ontem à tarde, deixando a sala da CPI dos Correios. Ele teria ido buscar o relatório divulgado semana passada pelo deputado Osmar Serraglio. Sampaio é o relator, no Conselho de Ética, do processo de cassação do deputado Pedro Corrêa (PP/PE) – e estava atrás de informações para o processo.

Não é a primeira vez que me surpreendo positivamente com o deputado Sampaio. E lamento por não votar em São Paulo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

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Síntese da felicidade

Carlos Drummond de Andrade

Desejo a você

Fruto do mato

Cheiro de jardim

Namoro no portão

Domingo sem chuva

Segunda sem mau humor

Sábado com seu amor

Filme do Carlitos

Chope com amigos

Crônica de Rubem Braga

Viver sem inimigos

Filme antigo na TV

Ter uma pessoa especial

E que ela goste de você

Música de Tom com letra de Chico

Frango caipira em pensão do interior

Ouvir uma palavra amável

Ter uma surpresa agradável

Ver a Banda passar

Noite de lua Cheia

Rever uma velha amizade

Ter fé em Deus

Não Ter que ouvir a palavra não

Nem nunca, nem jamais e adeus.

Rir como criança

Ouvir canto de passarinho

Sarar de resfriado

Escrever um poema de Amor

Que nunca será rasgado

Formar um par ideal

Tomar banho de cachoeira

Pegar um bronzeado legal

Aprender um nova canção

Esperar alguém na estação

Queijo com goiabada

Pôr-do-Sol na roça

Uma festa

Um violão

Uma seresta

Recordar um amor antigo

Ter um ombro sempre amigo

Bater palmas de alegria

Uma tarde amena

Calçar um velho chinelo

Sentar numa velha poltrona

Tocar violão para alguém

Ouvir a chuva no telhado

Vinho branco

Bolero de Ravel

E muito carinho meu

Ps.: Viajo para ver a família. Retornarei para o Ano Novo.

Que os desejos de Drummond caiam sobre nós como divinas ordens.

Bom Natal. N.G.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

De comentarista a blogueiro.

Ele, que já causava furor comentando lá no Noblat, agora tem uma casa só para si.

Blogueiros e demais amigos da web, abram alas pois o Soube pede passagem.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Pacotes

Enquanto estive às voltas com fitas e presentes, Osmar Serraglio entregou seu pacotão ao Brasil.

Nada que a gente já não soubesse: o relator da CPI dos Correios atesta que houve mensalão – quiçá um “semanadão” – e que é provável que tenha sido pago com dinheiro público advindo, principalmente, do Banco do Brasil, dos Correios, e da Eletronorte. O documento apresentado por Serraglio também confirma que há uma evidente conexão de datas entre os saques dos mensaleiros e as votações que eram do interesse do governo. Outro ponto que parece comprovado, é o pagamento para a migração de parlamentares a partidos da base governista.

Indigesto para o governo Lula e o PT, o pacote de Serraglio bate de frente com a cassação de Roberto Jefferson e a recente absolvição de Romeu Queiroz. Obviamente, ele reforça o acerto do congresso no caso de José Dirceu.

Mas o relator da CPI dos correios parece ter cometido um erro muito comum nesta época do ano: esqueceu umas lembrancinhas do lado de fora do pacote. Serraglio excluiu o seu partido, o PMDB, da relação de partidos beneficiários e não listou os deputados que teriam recebido dinheiro do caixa dois do PT. Também não incluiu irregularidades apontadas pela auditoria do Banco do Brasil em antecipações feitas pela Visanet a agências de publicidade entre 2001 e 2002.

Distraído ele, não?