Me enviaram, ontem, um link para uma dissertação de mestrado defendida, em 2008, na Universidade Federal de Minas Gerais. O autor é Ivan Satuf Rezende e o título “A emergência da rede: dinâmicas interativas em um blog jornalístico“.
Rezende elegeu o Blog do Noblat como objeto empírico para “(…) compreender como o blog age simultaneamente sobre o trabalho jornalístico e as participações dos internautas que publicam comentários“, etc e tal.
Tudo muito bom, tudo muito bem… Exceto que, ao falar deste blog e sua titular, Rezende comete alguns erros e omissões. E como dissertação é um trem que fica para a posteridade, achei por bem esclarecer tais equívocos.
Vamos, pois, a eles.
I
(…) “Uma das maiores polêmicas do Blog do Noblat ocorreu com uma leitora que assina Nariz Gelado. Ela nunca revelou o verdadeiro nome, tem seu próprio blog sobre política e Noblat também a convidou a participar regularmente como colaboradora. O motivo era o mesmo que atraiu o jornalista em relação a Maria Helena Rubinato: Nariz Gelado escrevia bem e sempre participava das discussões com bons comentários. Mas a participação dela não durou mais que dois artigos“. (…)
Errado. Foram três artigos: “O Chavismo entre Nós“, “Sai o militante, chega o cidadão” e um terceiro, do qual falo mais adiante, cuja omissão – involuntária, quero acreditar – acabou por avalizar uma série de equívocos.
II
(…) “Não foi o dono do blog quem decidiu “rebaixa-la” novamente à condição de leitora. A derrocada teve início quando outro colaborador, um jornalista, decidiu questionar a assinatura de Nariz Gelado em um post publicado no dia 28 de novembro de 2005 “.(…) [ Rezende se refere a Luiz Cláudio Cunha, inserindo, após este parágrafo, alguns trechos de seu artigo publicado naquela data no Blog do Noblat]
O erro aqui está em atribuir um poder que Luiz Cláudio Cunha jamais teria sobre um blog que não é seu – e me admira que alguém que esteja a dissertar sobre blogs não entenda que os mesmos, jornalísticos ou não, são absolutamente pessoais. Noblat poderia ter ignorado o artigo de Cunha. Se não o fez foi porque não quis. A decisão de, nas palavras de Rezende, me “rebaixar” à condição de leitora foi, sim, sem qualquer sombra de dúvida, do próprio Noblat. Com um adendo apenas: ele me deu a opção de revelar minha identidade e prosseguir como articulista. Como eu disse que preferia sair – resposta que, desconfio, Noblat já esperava – ele, e somente ele, acatou a minha decisão.
III
“Para se chegar ao veredicto de que Nariz Gelado não poderia mais escrever artigos, foi necessário que todos os três tipos de atores presentes no blog participassem do debate: o jornalista Ricardo Noblat, um colaborador (o jornalista Luiz Cláudio Cunha) e os leitores-comentaristas.(…) O caso foi levado à tona e “julgado” em poucas horas, sendo que e o dono do blog abriu o caso para debate e ponderou os argumentos antes de anunciar a decisão final que foi dirigida a todo o público leitor.”
Não sei de onde Rezende tirou essa bobagem. Porque foram apenas três os “atores” envolvidos naquele debate.
Vamos repetir para que fique bem claro: assim que recebeu o artigo de Luiz Cláudio Cunha, Noblat fez contato comigo, me enviou o texto e perguntou se eu aceitaria abrir minha identidade para prosseguir como articulista. Respondi que não e decidimos, eu e Noblat, que eu faria um artigo de despedida, a ser publicado juntamente com o de Luiz Cláudio Cunha. E foi exatamente assim que aconteceu. Este artigo de despedida, intitulado “Papo em Off” é exatamente o meu terceiro artigo para o Blog do Noblat, cuja existência Rezende parece desconhecer.
Ou seja: no dia 28 de novembro de 2005, quando Noblat publicou, na mesma hora (às 11:44 o meu e às 11:47 o de Cunha), ambos os artigos, a decisão já estava tomada. O caso jamais foi “julgado” pelos comentaristas, o dono do blog não “abriu o caso para debate“ e muito menos “ponderou argumentos antes de anunciar a decisão final“.
Naquele dia, foi apresentado aos leitores um fato consumado: um post no qual Noblat anunciava os dois artigos e a minha despedida (aqui). Os leitores opinaram muito sobre o tema – é verdade. Mas jamais houve espaço para que eles participassem da decisão. Ela havia sido tomada dias antes.
Isto significa que o episódio nunca, nem mesmo em um trabalhinho do ensino médio, poderia servir de exemplo para comprovar que “o jornalista de fato dá importância para os debates travados no interior do blog” ou, ainda, que “as conversas entre os participantes e as opiniões dos colaboradores são realmente levadas em conta nas decisões que influenciam os rumos do blog“, como quer Rezende. Há inúmeros exemplos de que tais coisas são importantes para o Blog do Noblat. Mas o episódio que me envolve, definitivamente, não é um deles.
O que me espanta é que todas estas distorções da realidade tenham aparecido numa dissertação que era requisito parcial para a obtenção do título de mestre em Comunicação Social – e que não se tenha respeitado, ali, um princípio básico do jornalismo: o fato. Tivessem, mestrando e orientador, lembrado de fazer o feijão-com-arroz do jornalismo – entrevistar os envolvidos, por exemplo – o desastre seria menor.