Quem tem medo do PSD?
E não é que aquilo que mais irrita – ou diverte – os críticos do PSD é justamente o que mais me agrada?
O ecletismo ideológico apresentado na fase inicial de gestação da legenda é uma das coisas mais francas a surgirem na política nacional na últimas décadas. Tão franca, que desconcertou a maioria habituada àquela farsa natural que costuma pautar o surgimento de novos partidos no país.
Ok… Talvez “farsa” seja uma palavra forte demais. Mas está muito perto disso aquela atitude de dar a luz a uma legenda que já tem, antes mesmo de sair do berçário, suas bandeiras bem definidas, como se partidos, ao fim e ao cabo, não fossem um aglomerado de políticos que têm suas próprias agendas, reunidos por um mínimo de interesses em comum. Como se, no Brasil, o que definisse a ida de políticos de um partido para outro não fosse a maior ou menor possibilidade de realização dos seus projetos pessoais.
O que, me parece, sempre aconteceu, é que esta realidade tem sido bem camuflada, sob o manto ideológico dos programas amarradíssimos, que já nascem antes mesmo da legenda, oferecendo um discurso pronto para quem quiser embarcar. Um discurso que, porque nunca foi realmente concreto, acaba por virar pó, ao sabor das eleições, das alianças regionais e, no caso de uma passagem à oposição, da “governabilidade”.
As primeiras reações à franqueza ideológica que permeia o surgimento do PSD – assumir que não há uma ideologia definida – não me deixam mentir: esta camuflagem é cômoda; ordena as coisas para os chamados “formadores de opinião”; permite que eles rotulem, definam e julguem, de imediato, a nova legenda.
Não pensem que reagi de forma diferente. Não, senhores. Também torci o nariz. Mas, passados alguns dias, comecei a perceber que o que o PSD fez foi, apenas, escancarar à luz do dia a mecânica, até então oculta, de um nascimento partidário. Nada mais do que isso.
Ocorre que, nisso, desconstruiu, desarrumou as coisas de tal forma que os formadores de opinião, com raras exceções, reagiram como normalmente reagem os humanos diante do desconhecido: com estranhamento, espanto e, por vezes, medo seguido de agressividade.
Não sei o que será do PSD. A adesão imediata de quase 40 deputados federais e dois senadores foi uma demonstração de força, é claro. Digo que não sei o que será sob o ponto de vista de programa partidário. Mas vou lhes confessar que a franqueza inicial, a possibillidade de uma página em branco por ser escrita, me agrada. Porque sugere que qualquer agenda, por mínima que seja, advinda desta junção eclética de políticos, será mais verdadeira do que qualquer outra que já tenha nascido pronta. No mínimo porque será gestada – e a esta altura não há outra forma de fazê-lo – às claras.
É uma boa notícia. Principalmente para quem já cansou de ver certezas ideológicas, cantadas em prosa e verso, serem abandonadas na primeira esquina eleitoral. Se a guerra santa da última eleição presidencial, aquela baixaria de “meu pastor é melhor que o seu”, não lhe embrulhou o estômago, é provável que você não entenda o que estou falando.
Por ora, o que eu espero deste PSD – que não sei se vai ou não conseguir levantar, um dia, algumas bandeiras às quais eu possa aderir – é que se mantenha aberto ao debate, como parece disposto. Que deixe surgir, com naturalidade, novas lideranças. Que chame o eleitor, o quanto antes, para ouví-lo e construir, com ele, um programa. E que não cometa um erro mortal: trazer para si medalhões que só fizeram dividir e criar feudos em outras legendas, colocando a perder três eleições presidenciais.
Aos loucos o que é dos loucos
Wellington era louco. Wellington era maluco. Wellington era lelé-da-cuca.
Não mão de um louco como Wellington, faca de cozinha é arma, isqueiro é arma, motosserra é arma, automóvel é arma.
Na cabeça de um louco como Wellington, internet é combustível, vídeo-game é combustível, bullying é combustível, religião é combustível.
Portanto, sejamos decentes para admitir a única coisa que poderia, de fato, ter evitado a tragédia de Realengo: a ação de alguém próximo a Wellington que, ao dar-se conta de que ele estava enlouquecendo, tivesse providenciado sua internação.
O resto é coisa de quem não tem vergonha de se aproveitar de uma tragédia como essa para balançar a bandeira de sua preferência.
Derrotados pela arrogância
Dilma está eleita e as razões para este fato consumado podem ser lidas abaixo, no meu último post, datado de 27 de junho. Pelo menos a maior parte delas.
Para resumir, pode-se aceitar que o cone de trânsito transmutou-se em presidente por conta de um Lula que vestiu, sem pudores, a farda de presidente-militante , por um TSE frouxo o bastante para não enquadrá-lo e, sobretudo, por uma campanha de rádio e televisão competentíssima.
Na outra ponta, aquilo que sacramenta qualquer vitória eleitoral: a campanha de Serra errou mais. Erros novos, como a tragédia anunciada de um jingle citando Lula – e, pelo-amor-de-deus, uma foto de Lula com Serra na abertura do programa. Erros irritantemente velhos, como embarcar na agenda das privatizações proposta pela campanha petista, que já havia derrotado Geraldo Alckmin em 2006. Erros inexplicáveis, como não mostrar um só corredor de hospital lotado em uma campanha de oposição que dizia ter como carro-chefe a saúde.
Não quero – e não vou – me estender no tema campanha. Em primeiríssimo lugar porque tudo o que eu tinha a dizer sobre esta última foi dito no final de junho. Depois, não sou sou eu quem tem que fazer isso. E o motivo deste post é justamente este: ninguém mais parece disposto a fazê-lo.
A contar estas primeiras 48 horas, o que se vê é o melô do – perdão pela expressão – corno-manso. No afã de não parecer derrotada, a oposição comemora, com aplauso de boa parte de sua militância, os 44% obtidos. Há os que ficam, inclusive, fazendo as contas por estado e, até mesmo, por município: “parabéns para o Cú-do-Mundo porque lá Serra ganhou com folga“.
Eu não sei se vocês se dão conta do quanto estas primeiras 48 horas evidenciam uma arrogância ímpar. Nas entrelinhas – e, às vezes, literalmente – o que esta postura demonstra é: “nós fizemos tudo certo; o povo é que não sabe votar“.
Não vou, aqui, discutir a capacidade intelectual do eleitor. Já fiz isso no passado. Não faço mais. O eleitor que realmente enche urnas é pragmático, não liga para valores abstratos como democracia e quer saber o que tem a ganhar votando em fulano ou beltrano. Ao mesmo tempo, ele acredita em milagres e tende a ser sensível à figura de um salvador, um líder carismático – desde que, é claro, os botões emocionais sejam acionados corretamente.
Certa ou errada, é assim que a coisa é. E eu só precisei perder uma eleição presidencial, a de 2006, para entender que este é o jogo. Fosse a oposição menos arrogante, a afirmação que deveria imperar nestas primeiras 48 horas é: “nós não conseguimos falar com o povo que – para ficar na linguagem corrente – não sabe votar“. Ao invés disso, preferem comemorar os altos índices obtidos em estados com melhores índices de escolaridade – como se isto não fosse uma prova vexatória de seu fracasso, de que eles, vamos de caixa alta?, NÃO SABEM FALAR COM QUEM ENCHE URNA.
Sinto em avisá-los: se a oposição não abandonar este melô do corno-manso em prol de uma discussão séria, aberta, sobre os inúmeros erros de suas últimas três campanhas eleitorais… Se insistir em apontar o dedo para o povo ao invés de apontá-lo para os que tomaram decisões – e os que escolheram os que tomaram decisões – ao longo desta campanha, nada vai mudar. Vai ser um festival de derrotas até o final dos tempos.
Hora da verdade
Alguns persistentes – obrigada pela fidelidade -perguntam por que eu parei de postar.
Antes de qualquer coisa, há a questão do tempo. Neste último ano, um ritmo mais intenso de trabalho não está me permitindo atualizar o blog como antes. Também é verdade que o Twitter caiu como uma luva para este novo momento. Aqueles 140 toques podem não permitir profundidade, mas são melhores do que o silêncio absoluto. Mais do que isso: permitem que se faça muitas coisas em pouco tempo – opinar, saber dos amigos e debater brevemente a pauta do dia.
Mas o que realmente está pegando é que eu não tenho coisas muito agradáveis para dizer. Na verdade, sei que o que eu tenho a dizer vai desagradar a grande maioria dos leitores. Medo de perder, leitores? Não. Se fosse isso, era só seguir escrevendo elogios oposicionistas feito uma matraca – e, acreditem, eu sei fazer isso como poucos. O que eu me pergunto é se vale à pena perder as raras horas de lazer para comprar briga com quem superestima o poder da internet na conquista de votos – e que, por isso mesmo, sugere que a gente dê uma de avestruz e não aponte publicamente os erros da oposição.
Eu não tenho vocação para avestruz. Criei este blog em março de 2003 para dizer o que penso. E é assim que ele vai continuar. Mais lento em épocas em que não estou com tempo ou com paciência. Mas jamais servil a qualquer linha de pensamento que não seja a minha – ou a reboque de certa militância oposicionista que, pelo que ando vendo por aí, virou torcida apaixonada. Incapaz de ver os erros do time, mesmo quando as derrotas estão se acumulando. Preferem chorar sobre o leite derramado no final do campeonato do que apontar agora os erros que poderiam mudar o destino do time.
E porque não nasci para avestruz – e, mais ainda, porque concordo com a máxima rodriguiana de que “toda unanimidade é burra” – dedico as linhas abaixo a todos os leitores: aos que reclamam do meu silêncio e aos que preferem que eu me cale.
Vamos às verdades
1 – Sem Aécio Neves na chapa, perdemos Minas Gerais. E esqueçam as histórias da carochinha. Se o PSDB não conseguiu enquadrar o mineiro para aceitar a vice-presidência não conseguirá enquadrá-lo a trabalhar por um resultado diferente daquele obtido no segundo turno de 2006: 66% dos votos daquele estado foram, então, para Lula.
2 – Sem Minas, é prioritário buscar um vice que traga votos novos. Quem é ele? Não sei. Mas Álvaro Dias não é. Quem vota em Álvaro dias já votaria em Serra de qualquer maneira. Estou dizendo isso porque quero um vice do DEM? Não. Vou repetir para que fique bem claro: quero Aécio de vice – chapa pura, pois não? Tenho algo contra Álvaro Dias? Também não. Acho que é um dos bons quadros do PSDB. Mas ele não serve para vice porque oferece uma sobreposição de votos quando é preciso conquistar votos novos. É fácil falar isso sem indicar outro nome? Não, não é fácil. É triste. Principalmente quando penso que a obrigação de indicar outro bom nome que não Aécio nunca foi minha – e que quem deveria fazê-lo, ao que parece, não se preocupou com o assunto ao longo dos últimos quatro anos.
3 – Dilma é ruim de discurso? É péssima. Qual a influência concreta disso nas urnas? Quase insignificante, meus caros. O programa do PT na TV e as negativas de participar de debates e entrevistas já apontaram a linha a ser seguida pelo marketing da candidata: pouca exposição. O programa vai ser muito Lula – esqueçam o TSE, ok? -, muitas realizações de governo, muito jingle e pouca Dilma. E os debates? Claro, claro… Serra vai dar um banho nos debates. Mas informem-se sobre os índices de audiência dos debates – principalmente depois do terceiro bloco, quando a coisa realmente esquenta – , antes de contar com eles para virar qualquer tendência. Dilma gaguejando no Jornal Nacional funciona como piada interna da oposição. Mas desconfio que não lhe tire um voto.
4 – Dilma ontem agradou aos socialistas, hoje às socialites? Uma vergonha do ponto de vista ideológico, né? Tema sensacional para inflamar o debate em blogs e fóruns oposicionistas. Mas, no que diz respeito às urnas, é ponto positivo para ela que aprendeu, com louvor, a lição do “mestre” Lula: eleição se ganha dizendo o que as pessoas querem ouvir. Uma ideologia por dia é receita de sucesso eleitoral no Brasil. Não adianta chorar. Tem é que aprender como ser cara-de-pau assim – e como fazer isso melhor do que eles.
5 – As obras do PAC são fictícias? São. Mas espero que não deixem de falar disso nos programas. E não adianta só falar. Tem que ir até lá, mostrar quão fictícias elas são, DESDE A PRIMEIRA SEMANA DE PROGRAMA. Porque Dilma vai mostrá-las quase concluídas, lindas, bem filmadas. Aquela célebre frase de José Serra é uma síntese maravilhosa do jeito tucano de fazer campanha: “Quanto mais mentiras eles disserem sobre nós, mais verdades diremos sobre eles”. É um alento aos corações cansados de tanta baixaria eleitoral, certo? Mas, sinto dizer, sem qualquer efeito eleitoral se quem mente for mais competente em vender o peixe do que quem fala a verdade. A verdade não tem poder, por si só, de operar milagres. É por isso que o vulgo diz: “mais cedo ou mais tarde, a verdade aparece”. Na política, normalmente a verdade aparece mais tarde – tarde demais, arrisco dizer.
6 – O PT mente bem. Usa verossimilhança para mentir. Aprendeu, depois de perder três eleições presidenciais, que só se ganha eleição no Brasil mentindo. Querem ganhar falando a verdade? Ok, isso é mesmo maravilhoso do ponto de vista da ética – embora eu tenha minhas dúvidas sobre a concreta possibilidade de tal coisa funcionar. Mas, se insistem, acho bom encontrarem uma fórmula milagrosa para tornar a verdade mais atraente que a mentira. Estou sendo cínica demais? Pode ser. Fiquei assim depois de ver Geraldo Alckmin vestir uma jaquetinha cheia de logotipos para combater a boataria mentirosa das privatizações. Desculpe se a cena não me sai da cabeça. Mas é o exemplo mais acabado de como a verdade mal explorada é, por si só, impotente diante de uma mentira brilhante.
7 – Mentira, verossimilhança e estética luxuosa. Eis uma coisa que os marqueteiros petistas aprenderam como poucos. Desde o “advento” Duda Mendonça, eles sabem que ninguém quer ver pobre desdentado na televisão. A estética “jornalismo verdade” não conquista votos. Mais uma vez, vamos voltar a 2006: o pobre, nos programas do Lula, era bonitinho, bem arrumado, penteado e banhado. As imagens, coloridas ao exagero. Nunca me esqueço de uma fabriqueta de fundo de quintal – acho que de roupas para bebês – que foi mostrada com tamanha cor e capricho de produção que mais parecia a “Fantástica Fábrica de Chocolates”. Verdade? Não. Verossimilhança. O segredo é oferecer uma imagem na qual o pobre queira se projetar – e não o mundo cão que ele vê todos os dias no Jornal Nacional. Por que estou trazendo o tema? Porque tive calafrios ao assistir o último programa do PSDB. Tecnicamente perfeito, discurso afiadíssimo, o maldito do programa repetia a estética de 2006. Se não estiverem escondendo o jogo e insistirem nisso durante a campanha, estamos perdidos.
8 – Finalmente, as pesquisas. Há maracutaias? Há. Mas, queiram me desculpar, não há tanta maracutaia assim. Uma negociaçãozinha de margem de erro aqui e acolá até aceito. Dirigir um pouco a pesquisa mediante a escolha de determinadas cidades e bairros, ok. Agora, dizer que todos os institutos estão vendidos é um pouco demais para a minha cabeça. É inegável que Dilma cresceu. E as razões são óbvias: qualquer criatura minimamente esclarecida sabe que um governo com 70% de aprovação sugere uma eleição de continuidade. Brigar contra esta realidade é uma rematada burrice – principalmente quando ela se apresenta estável há mais de quatro anos. Achar que Lula não transferiria votos para Dilma foi uma aposta inacreditável de tão amadora. Portanto, se eu quisesse realmente ganhar esta eleição, partiria do pressuposto de que Dilma cresceu e que ela e Serra estão tecnicamente empatados. E trataria de descobrir os motivos da evidente queda de José Serra. Ficar dizendo que ela não existe é loucura. E, pelo-amor-da-santinha esqueçam o tracking. Muita gente acha que, em 2006, se divulgava tracking fictício favorável a Alckmin só para animar a torcida. Não é verdade. O que aconteceu, então, é que o tracking nunca batia com as pesquisas dos institutos. Portanto, não se fiem nesta ferramenta. Não me interessa se é porque ela é “um retrato de momento” e “não pode ser comparada com as pesquisas tradicionais”, blá, blá, blá”. Esqueçam esta merda porque ela não é confiável.
Tendo dito tudo o que penso a respeito da campanha presidencial tucana, aviso que não pretendo mais voltar ao tema. Vou, no máximo, remeter links para este post sempre que considerar adequado – e é por isso que os parágrafos foram numerados. Não tenho tempo, nem paciência, para ficar apontado os mesmos erros de quatro em quatro anos. Vou seguir, claro, falando de política. Mas de estratégia de campanha? Esqueçam. O PSDB que tome suas decisões e faça suas escolhas. De minha parte, vou me limitar a votar em Serra, pedir votos para ele e torcer para que, em outubro, a gente possa comemorar uma vitória.
Bom dia, Bahia
Hoje é dia do lançamento oficial da candidatura de José Serra.
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O Brasil pode mais.
Tirania jurídica na web: o cyber-suicídio do PT
Reflexo direto do desespero da cúpula petista com o péssimo desempenho de Dilma Rousseff – as aparições e entrevistas da candidata têm sido uma fonte inesgotável de piadas -, a prática da tirania jurídica na internet pode custar caro ao partido.
Ao ameaçar o blog Gente que Mente com uma ação criminal, o PT transporta para a web uma postura que, até agora, por ser praticada de forma mais dispersa, podia passar desapercebida por uma parte significativa dos eleitores: aquela parte que não se interessa por política.
Quando se fala de jovens internautas, então, a fatia dos que dão de ombros para a política compreende a grande maioria. Essa turminha que não lê jornais – ou fica só nos cadernos de variedades e cultura, passando batido pelas notícias – tende a gostar do PT porque ser de esquerda, anti-americano e fã do Michael Moore é o comportamento estário padrão. Eles não sabem quem é Yoni Sánchez e não param para pensar que o apoio de Lula ao governo cubano é, também, o apoio à censura – inclusive na web. Para eles, “ditadura” é coisa milico e direitista. Nascidos em um país onde a liberdade de expressão é formalmente garantida, educados por professores com tendências à esquerda, eles não conseguem identificar quando a censura vem travestida de um discurso revolucionário. O PNDH III, o Conselho de Jornalismo, a censura ao Estadão imposta por um lulista José Sarney – para ficar apenas em alguns exemplos – são coisas distantes, chatas e sutis demais para acordar este pessoal.
Nesta semana, porém, o PT forneceu um novo elemento que pode mudar este quadro. A censura à livre expressão na web, o uso da Justiça como arma para para calar internautas opositores, pode funcionar como um chacoalhão. Para tanto, é só o PT levar adiante a ação contra o Gente que Mente e direcionar, como já ameaça, sua tirania jurídica para outros blogs e até mesmo aos usuários do Twitter. Bem explorada pela oposição – que deverá fazer a ameaça chegar a todos os ambientes jovens da internet – tamanha sanha totalitária na web é algo que a moçada vai entender e repudiar.
Caso persista nesta estratégia de perseguir juridicamente os internautas opositores, o PT terá engatilhado o revólver. Bastará, então, um simples incentivo nosso para que o partido cometa um cyber-suicídio sem precedentes: perder o apoio de um público jovem, com poder de comunicação viral, às vésperas daquela que promete ser a primeira eleição realmente embalada pelo poder da internet. Seria uma besteira tão grande que já estou quase torcendo para que eles façam mesmo isso.
Anote aí e fale com o seu vice, dona Marina: “hipoalergênica”
Em entrevista ao programa CQC, a senadora e pré-candidata do PV à Presidência da República, Marina Silva, foi questionada por um telespectador: “Por que a senhora não coloca um batom e solta o cabelo?”.
Marina respondeu que é alérgica a maquiagem. Também brincou com a famosa música de Dorival Caymmi, “Marina”: “Ele me convenceu que sou bonita com o que Deus me deu.”
Vou de rima pobre: aceito a poesia, não a alergia.
É que há uma boa variedade de maquiagem hipoalergênica no mercado. Bastaria dona Marina conversar com seu pré-candidato a vice: Guilherme Leal que, vejam só!, é co-presidente do Conselho de Administração da Natura. Ele certamente saberá indicar os produtos certos.
Que fique bem claro: Marina Silva, como qualquer mulher sobre a face da Terra, tem todo o direito de não usar maquiagem. Por opção pessoal, por estratégia de marketing ou, como expliquei no último parágrafo do post anterior, por opção pessoal que se revelou uma boa estratégia de marketing.
O que não vale é usar alergia como desculpa. Fica parecendo ignorância – mal do qual dona Marina certamente não sofre.
Sobre bons marqueteiros
Já notaram que, nos últimos anos, o marketing político virou uma espécie de fonte de todos os males para a política nacional? O marqueteiro político, então, virou um mágico ilusionista, sobre cujos ombros gente supostamente inteligente costuma jogar a culpa de ter votado mal. É tão forte a carga negativa do termo que a maioria dos marqueteiros políticos passou a detestar ser chamado assim.
É claro que boa parte deste ódio é culpa do Duda Mendonça. Depois que o consagrado marqueteiro de Lula apareceu numa CPI dizendo que fora pago pelo PT mediante uma conta do exterior o termo ficou, para usar a expressão de um marqueteiro amigo meu, “radioativo”.
Na verdade, o episódio da CPI foi a cereja do bolo. Bem antes disso, durante a campanha presidencial de 2002, quando Duda nos apresentou aquele Lulinha-paz-e-amor, marqueteiro político virou sinônimo de embusteiro. Primeiro para a oposição que logo acusou a inexistência daquela versão soft do torneiro mecânico. Depois para boa parte dos eleitores de Lula – aquela esquerda festiva que acha que artista é aquele que vai onde o povo está e outras baboseiras românticas – e que se sentiu ludibriada quando estouraram os primeiros escândalos do governo Lula.
Uma origem mais remota poder ser apontada também na eleição de 1989: Fernando Collor foi o primeiro presidente brasileiro eleito na era do marketing. A coisa terminou mal e, já naquela época, se apontava para a perversidade desta figura, o marqueteiro político, que nas palavras dos críticos mais suaves “vive de iludir o eleitor”. E, aqui, vale um parêntese para observar que a acusação não era totalmente original: os publicitários – classe de onde, usualmente, nascem os marqueteiros políticos – sempre foram vistos como aqueles caras que “vivem de iludir o consumidor”.
É um senso comum que só se sustenta porque ainda é forte a crença – nascida no alvorecer do marxismo – de que ambos, eleitor e consumidor, podem ser iludidos, manipulados, moldados ao bel prazer de quem sabe apertar os botões certos. Como quase tudo o que habita o universo do senso comum, esta também é uma meia-verdade.
Comunicação, a ponta mais visível do marketing, é, sim, uma arte muito poderosa. Mas para dar razão a esta crença, a gente teria que jogar no lixo todas aquelas constrangedoras reuniões em que publicitários (os honestos, pelo menos) se viram obrigados a avisar aos seus clientes: “meu filho, o seu produto é uma bosta. Ou você muda o produto ou não há propaganda que o salve”. E isto é coisa que acontece com muita freqüência.
Também seria preciso jogar fora todos os bons estudos acadêmicos sobre emissão e recepção de mensagens surgidos nas últimas cinco décadas. Não vou chatear vocês com um desfile teórico. Mas saibam que há muito já não se tem os receptores como amebas passivas. Comunicação não é hipnose. Se você ainda acha que é, deveria se perguntar por que não basta aos regimes totalitários ter o controle dos meios de comunicação de massa – por que todos eles precisam recorrer à violência para sobreviver?
Se é verdade que comunicação e marketing podem muito, também é verdade que não podem tudo. Não podem, em primeiro lugar, prescindir de verossimilhança. É por isso que Duda Mendonça jamais tentou fazer de Lula um intelectual. Isto não colaria. Duda apresentou Lula como um homem do povo, que pensava nos pobres – qualidades que o senso comum já lhe atribuía. Em 89, Chico Santa Rita não tentou fazer de Collor um operário. Isto não colaria. Chico apresentou Collor com um jovem abastado, dinâmico, disposto a expulsar os marajás do poder, moralizar e modernizar a nação – coisas que já lhe atribuíam.
Nenhum marketing, nenhuma estratégia de comunicação, funciona sem verossimilhança. Sem um ponto de verdade que possa – aí, sim! – ser reforçado, exaltado e embalado para presente, qualquer campanha fracassa. Em comunicação, mentira deslavada é receita de fracasso.
É por isso que a pesquisa mais importante antes de começar uma campanha é a qualitativa. Ali, o marqueteiro descobre quais são as qualidades positivas – que são as que vão conferir verossimilança ao candidato e ao discurso. E como ele descobre isso? Perguntando ao eleitor. Ou seja: no marketing de sucesso, e no marketing político em especial, a mensagem é construída em conjunto com o receptor – e não criada fantasiosamente pelo marqueteiro para ser enfiada pela goela de um indefeso eleitor.
E mais: bons marqueteiros políticos sabem que candidatos não são produtos. Não dá para propor mudanças radicais. Aperfeiçoar aqui e ali, tudo bem. Mas, no geral, o que se faz é colocar uma lente de aumento sobre aquilo que a opinião pública já percebe como qualidade positiva no candidato. Para as qualidades negativas, pode-se optar em não debater com elas – deixá-las quietas – ou, no caso de se mostrarem preocupantes, combatê-las.
Em 1989, havia boatos sobre Fernando Collor cultivar hábitos poucos saudáveis. Chico Santa Rita colocou seu candidato para correr, praticar esportes radicais, etc e tal. Em 2002, Duda Mendonça tratou de mostrar Lula cercado de intelectuais para amenizar a imagem de incapacidade que tentavam colar nele. Ou seja: um político até aceita pequenos retoques para amenizar pontos de fraqueza evidenciados pelas pesquisas qualitativas…
Mentiras? Não. Collor gostava mesmo de atividades físicas – foi só ligar a câmera. E, diferentemente do que sugeriu Fernando Gabeira – que qualificou a coisa como embuste ao desembarcar do governo – Lula era mesmo apoiado por parte da intelectualidade nacional. Natural pensar que governaria com eles – mais uma vez, foi só ligar a câmera. A própria imagem do Lulinha-paz-e-amor era uma verdade se considerarmos que em 2002 ele parou de brigar com todos, esqueceu os 300 picaretas e fez, durante a campanha, alianças antes inimagináveis.
Há marqueteiros políticos que mentem? Com certeza. O fato é que dificilmente eles vencem eleições. Também há, como em todas as áreas profissionais, os que topam qualquer negócio – grana fria, jogadas baixas, dossiês, falcatruas – por dinheiro.
Mas vamos deixar uma coisa bem clara: se você, ao longo da campanha de 2002, não parou para pensar no que significava a aliança de Lula com PL de Valdemar da Costa Neto, a culpa não é do Duda Mendonça, ok? Você pode fazer muitas críticas ao Duda Mendonça – menos seguir acreditando que ele lhe vendeu uma mentira.
Da mesma forma eu espero que o eleitor da Marina Silva não culpe os marqueteiros da candidata no futuro. Profissionais, os caras apenas fizeram uma qualitativa e descobriram que “não ter marqueteiros” e parecer “natural como a floresta“ – abrindo mão, inclusive, de artifícios como a maquiagem – são pontos de força da candidata; coisas que explicam porque parte do eleitorado vota nela. Coisas que já foram devidamente exaltadas e embaladas para conquistar mais votos.
Quando as hienas rosnam, os burros baixam as orelhas
Marcelo Branco,o coordenador da campanha de Dilma Roussef na web, acusar a Rede Globo de fazer propaganda subliminar para José Serra na sua campanha de aniversário, não pode surpreender ninguém. O petismo sempre trabalhou contra a liberdade de expressão. Da tentativa fracassada de implantar o Conselho de Jornalismo, passando pelo dia em que Lula quis expulsar o jornalista Larry Rohter do país e chegando à recente denúncia do humorista Marcelo Madureira, os exemplos são muitos.
O que realmente surpreende é a rapidez com que a Rede Globo tirou sua campanha do ar sem que houvesse qualquer denúncia formal e consistente. A Globo capitulou para nada. Nada além do cacarejo conspiratório de Marcelo Branco no Twitter, repercutido em blogs da rede petista – o mais célebre deles pertence a um ex-funcionário da própria Globo que usualmente inclui qualquer veículo de comunicação que apresente algo acima de um traço de audiência no P.I.G., Partido da Imprensa Golpista. Ou seja: meia-dúzia hienas rosnaram e um burro qualquer – ou uma tropa deles, não sei - decidiu que uma das maiores empresas de comunicação do mundo deveria arriar as calças.
Revoltante, esta demonstração de servilismo pode custar caro à emissora. Primeiro, porque a decisão alimenta a moral da tropa de choque de Dilma Roussef – e daqui para frente eles, que já não tinham limites, vão querer mais. Depois porque ao tirar a campanha do ar a Rede Globo transformou a mentira de Marcelo Branco numa meia-verdade. E isto é tudo o que petismo precisa para seguir acusando a Rede Globo até o fim dos tempos.